China prestes a aceitar nomeação dos bispos chineses pelo Papa

Acção poderá permitir a unificação das duas comunidades católicas chinesas, uma aprovada pelas autoridades chinesas e outra reconhecida pelo Vaticano.

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Serviço religioso numa igreja não reconhecida perto de Pequim Reuters

O Vaticano e a China poderão estar prestes a assinar um acordo em que o Papa passaria a ser o chefe da Igreja Católica na China, podendo assim nomear os bispos chineses, e em troca, o Vaticano iria reconhecer sete bispos chineses excomungados que foram nomeados pelo Governo comunista sem a sua aprovação.

A notícia foi dada pelo diário norte-americano Wall Street Journal, que cita duas fontes “familiarizadas com o assunto”, que antecipam que o acordo possa ser assinado ainda este mês. Uma das fontes advertia, no entanto, que o acordo “ainda poderá falhar ou ser adiado por circunstâncias imprevistas”.

A agência de notícias francesa AFP também informou que a China e o Vaticano poderão anunciar em breve “um acordo histórico”, citando o governo de Taiwan – cujas autoridades disseram esperar que o Vaticano continuasse seu aliado diplomático. Desde que Tsai Ing-wen assumiu a presidência de Taiwan, em 2016, a China tem levado a cabo uma operação diplomática para retirar aliados a Taiwan, que até agora resultou em seis países mudarem de aliança e juntarem-se à China abandonando Taipé e fazendo diminuir as suas aspirações a poder vir a ser reconhecida como Estado. A recusa de Tsai em declarar apoio explícito à política conhecida como "uma só China" é encarada como uma afronta em Pequim.

As vantagens para a China de um acordo com o Vaticano vai para além de uma potencial mudança de lado em relação a Taiwan, diz o centro de estudos geopolíticos Stratfor (EUA): poderia permitir às autoridades chinesas a aumentar a sua influência nas igrejas clandestinas no país e ainda na América Latina.

A acontecer, este acordo será controverso, já que o Governo de Pequim tem aumentado recentemente a perseguição de cristãos – e também de fiéis de outras religiões – com o encerramento de igrejas e remoção de símbolos religiosos.

O Vaticano, já sob fogo por causa do encobrimento da hierarquia da igreja de casos de abusos sexuais, poderá ser também escrutinado por o que dizem críticos ser uma capitulação perante a China.

Para descrever o acordo, “desenharia um cartoon mostrando o Papa ajoelhado a dar as chaves dos reinos dos céus e dizer: ‘agora, por favor reconheçam-me como Papa”, disse o cardeal Joseph Zen, antigo bispo de Hong-Kong, numa de várias entrevistas sobre um potencial acordo, que vem a ser tentado há meses. “Os conselheiros do Papa estão a aconselhá-lo a renunciar à sua autoridade.”

O cardeal diz que o acordo significará a legitimação de uma Igreja “totalmente orientada pelo Governo”: “a Igreja não muda só porque se legitima os bispos”, queixou-se. “Se todos os bispos, ou a sua maioria, forem escravos do regime comunista, não há melhoria”, afirmou, citado pela Al-Jazira.

O Papa Francisco tem-se empenhado na questão porque deseja melhores relações com a China, onde o número de cristãos está a crescer depressa, embora o crescimento dos protestantes seja maior, e porque desejava ver o fim das divisões entre católicos no país.

Estima-se que haja dez milhões de católicos na China e que estes devam apenas frequentar as igrejas aprovadas pela Associação Patriótica Católica Chinesa, um organismo controlado pelo Estado que o Vaticano não reconhece. Mas muitos visitam igrejas não registadas com bispos leais apenas a Roma, explica o Wall Street Journal.

A China rompeu relações com o Vaticano em 1951, na sequência da chegada do poder de Mao Tsetung, e muitos católicos foram forçados a esconder a sua religião durante décadas. Apenas em 1980 começaram a ser de novo toleradas práticas religiosas. Nas últimas décadas tem havido cooperação informal para alguma coordenação na nomeação dos bispos, mas Pequim tem nomeado frequentemente bispos sem a aprovação do Papa.