Nesta exposição não há salas escondidas

Retrospectiva com 180 obras do fotógrafo norte-americano Robert Mapplethorpe marca a rentrée do Museu de Serralves.

Foto
Robert Mapplethorpe, Patti Smith (1975) ROBERT MAPPLETHORPE FOUNDATION

Em Outubro de 2017, o Museu de Artes de São Paulo, no Brasil, inaugurou a exposição Histórias da Sexualidade com uma condição: só os maiores de 18 anos a podiam visitar. Todos aqueles abaixo dessa faixa etária ficavam à porta, acompanhados ou não de visitantes mais "adultos". Depois de muitos advogados consultados, os 18 anos passaram apenas para indicativos. Em Abril passado, a Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, decidiu resguardar dentro de caixas, e com um aviso, a obra Relicário de Clara Menéres e três esculturas de João Cutileiro. As peças faziam parte da exposição Pós-Pop. Fora do lugar-comum e reproduziam sexos masculinos, o que terá precipitado o extremoso cuidado da fundação. Estes dois episódios distintos apresentam semelhanças em termos de atitude. Embora seja prematuro falar da emergência de uma tendência conservadora nos museus, são ambos exemplares de uma tentação das instituições culturais: a de confundir a sua missão educativa com o controlo autoritário e condescendente do olhar e da experiência das obras.

Na retrospectiva dedicada ao fotógrafo norte-americano Robert Mapplethorpe (1946-1989) que abre na próxima quinta-feira no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, no Porto, não haverá resguardo, nem, acrescenta João Ribas, “censura, obras tapadas, salas especiais ou qualquer tipo de restrição a visitantes de acordo com a faixa etária”. Apenas um aviso sensato e informativo, colocado à entrada da primeira sala, para a existência de certos conteúdos. Afinal, as sensibilidades são múltiplas e reais. “É um procedimento museológico recorrente e tradicional neste museu. Já tinha sido assim noutras exposições, como a de Nan Goldin em 2002. Mas, como nessa ocasião, não será reservada uma sala à parte para as fotografias de teor mais sexual”, esclarece. Resumindo, o visitante tem a liberdade de entrar ou não, de ver ou não. “Trata-se de conceber o museu como instituição livre de possibilitar um encontro com a obra que Robert Mapplethorpe desenvolveu durante vinte anos. Defende-se o direito de as pessoas poderem ter essa experiência. Um museu não pode condicionar, separar ou delimitar o acesso às obras. De dizer o que as pessoas podem ver ou não. Não creio que haja nesta posição nada de particularmente extraordinário.”

Os nus ou as imagens de práticas sexuais estão integrados noutras séries, acompanhando a organização cronológica da exposição, e cabe ao espectador a responsabilidade ou a decisão de condicionar ou mediar o acesso às fotografias, no caso, por exemplo, de estar acompanhado de menores de idade. Fora isso, é assegurada a liberdade do espectador se confrontar com as obras do artista num espaço que tem como princípio, precisamente, tornar a arte pública. João Ribas chama a atenção para o facto de a exposição compreender uma grande pluralidade de motivos e géneros. “À volta de 80 por centro dos trabalhos seleccionados não corresponde às temáticas de natureza mais sexual. Por outro lado, há um trabalho de curadoria, atento à arquitectura do espaço, à relação com as diferentes tonalidades das salas, à singularidade da obra de Robert Mapplethorpe que não é apenas fotográfica. O que posso dizer é: venham ver. Esta exposição tem que ser experienciada”. Sem cancelas, esconderijos, salas escuras. Ou cadeados.