Coreógrafo belga Jan Fabre acusado de assédio sexual

Vinte bailarinos e colaboradores denunciam violência em carta aberta no site de uma revista flamenga. Fabre, cuja companhia actuou já várias vezes em palcos portugueses, recusa as acusações.

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Jan Fabre fotografado em Lisboa, em 2004 Daniel Rocha

Se, por diversas vezes, o nome e a obra do coreógrafo belga Jan Fabre (n. Antuérpia, 1958) foram motivo de polémica, pela sua personalidade intempestiva e pelo radicalismo das suas criações, desta vez ela assume um grau e uma gravidade maiores: esta quinta-feira, numa carta aberta publicada no site do magazine flamengo rekto:verso, 20 bailarinos e colaboradores que trabalham, ou já trabalharam, com Fabre acusam-no de assédio e de violência sexual e psicológica.

Em mais um episódio do movimento #MeToo, os signatários consideram ter chegado o momento de terminar com “a lei do silêncio” e acusam o fundador da companhia Troubleyn, com sede em Antuérpia, de criar um ambiente de trabalho “tóxico”, onde “a humilhação é o pão de cada dia”.

Entre os 20 signatários da extensa carta agora publicada, 12 mantêm o anonimato, mas oito dão o seu nome a esta denúncia, que, no entanto, fazem questão de explicar não pretender ser “um ajuste de contas”.

Ouvido pelo rekto:verso, Fabre rejeitou todas as acusações, e em declarações à AFP disse também que nunca obrigou ninguém “a fazer coisas que tanto uns como outros pudessem considerar acima dos seus limites”. O coreógrafo recusa ainda ter alguma vez tido um comportamento inapropriado, e lamenta a campanha agora lançada no espaço mediático.

Na referida carta-denúncia, em que os signatários surgem apoiados por um instituto federal para a defesa da igualdade das mulheres e dos homens, Fabre é também acusado de comportamento sexista, humilhando as bailarinas com “críticas dolorosas” sobre os seus corpos e a sua inteligência. “És bonita, mas não tens cérebro; és como uma galinha sem cabeça”, terá dito a uma delas.

Outra acusação aponta para o condicionamento que Fabre faria das carreiras dos seus colaboradores: convidava-os para sessões fotográficas para supostas performances de arte visual em sua casa, onde tentava aproximações sexuais oferecendo dinheiro e drogas, para as bailarinas se “sentirem mais livres”.

A Autoridade do Trabalho de Antuérpia, uma secção do Ministério Público belga que se ocupa de questões laborais, abriu já uma investigação ao caso. “Vamos fazer um inquérito sobre os possíveis actos de violência, assédio e abuso sexual em local de trabalho”, disse à televisão pública flamenga VRT um porta-voz daquele organismo. E, à AFP, Pieter Wyckaert acrescentou ser ainda prematuro inquirir Fabre. “Antes de mais, vamos analisar a carta aberta e identificar as eventuais vítimas.”

Em nome da mãe

Jan Fabre fundou a sua companhia há pouco mais de três décadas, na sua cidade natal – o nome Troubleyn, foi buscá-lo ao apelido da família da mãe. Com ela, marcou a cena europeia da dança desde o final dos anos 80, criando espectáculos polémicos – como quando, em 2005, apresentou no Festival de Avignon as peças L'Histoire des Larmes e Je Suis Sang –, e que frequentemente chegaram também a palcos portugueses: em Julho de 2015, por exemplo, apresentou no Theatro Circo, em Braga, o solo Attends, attends, attends… (pour mon père), interpretado por um dos seus bailarinos, Cédric Charron.

Quando, em 2016, acompanhou em Antuérpia a comemoração do 30.º aniversário da Troubleyn, Anabela Mota Ribeira escreveu no Ípsilon: “Tudo neste homem ligeiramente baixo, maciço, que mantém um ar de quem brigou na rua, é físico, e cérebro, e coração. Fabre é um fazedor, é um homo faber. Mas pode ser que a inversão mais acertada do enunciado de Descartes não seja: “Penso logo faço”, mas “Sou logo penso”. Primeiro ele é corpo, corpo em expansão. Depois é pensamento que quer encontrar-se com a dimensão carnal, besta, a sós. Há um fervilhar subterrâneo que depois explode, ou seja, que se exprime artisticamente. A imagem do vulcão faz-lhe sentido, outras pessoas lhe falaram dela, mas não é bem isso, argumenta. “O meu trabalho é mais sobre a conexão entre o cérebro, o coração e as bolas.”