Opinião

Ainda há tempo para reverter os “mecanismos” dos museus

Vi no projeto de decreto-lei do novo regime de gestão dos museus um pequeno pauzinho que pode atrapalhar a engrenagem da máquina.

Odradek e o Dasein

 

Num período de conflito entre nações e de crença feroz no progresso como motor da sociedade, Franz Kafka escreveu um pequeno conto intitulado Die Sorge des Hausvaters, que se poderá traduzir como As Preocupações de um Pai de Família. Nessa obra surge a figura de Odradek, objeto humanizado para qualquer leitor que possa sofrer de pareidolia. O texto de Kafka, que muitos académicos interpretam como uma crítica ao capitalismo, insere-se num contexto de inquietude para com a cultura material, onde se integram também outro tipo de autores, mais “científicos”, como Émile Durkheim ou Gabriel Tarde.

Mas quem é Odradek? Odradek é uma espécie de máquina, um homúnculo, uma personificação das máquinas, composto por bobinas, fios de várias cores, de forma angulosa, conjugando uma estrela com um esquadro, mas com uma capacidade humana de se expressar por via de palavras e, inclusivamente, de rir. Para Joseph Gabel, Odradek foge à norma, "materializa as preocupações do pai de família e tomou a forma absurda de uma bobine, converteu-se num mecanismo automático". Já Martha Roberts considera-o "absurdo, inútil, solitário, Odradek obtém parte do seu mistério devido à sua natureza infantil e em certa medida imortal, enquanto o seu riso sem pulmões remete para uma espécie de céu gelado onde se anulariam todos os contrários, a uma promessa de eternidade triste". Slavoj Zizek é mais fatalista vendo em Odradek (ou na máquina, na coisa automática) uma alternativa inquietante e tenebrosa ao pai, a versão Lacaniana de "père ou pire". Apesar de tudo, Bjørnar Olsen nutre por ele alguma piedade, considerando-o um pária que, devido à sua diferença, se vê obrigado "a esconder-se em fendas, em sótãos, quartos e corredores fechados" um pouco como os objetos do dia-a-dia, aqueles que tentam agora também “aparecer” nos museus mais convencionais.

Os Museus e os seus anagramas

Os museus seriam por conseguinte o oposto a Odradek, criativos, humanistas, calorosos e vitais, apenas se assemelhariam às máquinas no ponto em que podem, caso sejam bem oleados, almejar a ser eternos, a perdurar no tempo. No entanto, na atualidade, não tem sido assim em Portugal, onde os museus se têm tornado cada vez mais dodecaédricos (recordo que Odradek é quase um anagrama de dodekaedron). As preocupações dos seus diretores e também as de quem os coordena – “os pais” – têm-se deixado levar pela engrenagem automática da gestão dos “filhos” ou, por outras palavras, dos museus, afastando-se assim da fruição entre pessoas e objetos, de uma espécie de Dasein cultural. A culpa nem sempre é do indivíduo, também é circunstancial, do momento, da modernidade que é líquida mas também fria, como defende Walter Benjamin: "O calor esvai-se das coisas (…) Devemos compensar o seu frio com o nosso calor se não quisermos que eles (objetos) nos congelem até morrermos."

O Comunicado do ICOM Portugal e o “pauzinho” na engrenagem

A tendência é grave, é também fruto do nosso tempo, deste império do efémero que Lipovetsky nos descreveu. Essa tendência pode ser agravada – num período em que o turismo e o futebol parecem ser os “motores” deste pequeno país (e todos querem estar próximo do calor das turbinas) – pela proliferação de cursos de especialização e pós-graduação em gestão fora do âmbito criativo e próximos da dinâmica autómata. Nesse sentido, fiquei contente com o recente comunicado do ICOM Portugal e ICOM Europa sobre o Projeto de Decreto-Lei do novo regime de gestão dos museus, pois vi nele um pequeno pauzinho que pode atrapalhar a engrenagem da máquina, necessitando a presença da criatividade humana para a pôr de novo a trabalhar. Esse “pauzinho” está na alínea e) que considera que o diretor de um museu deve ter: "competências técnicas específicas, museológicas e científicas, adequadas a cada 'unidade orgânica' e impedindo em absoluto a possibilidade de concurso por parte de pessoas apenas com conhecimentos de gestão e/ou de profissionais de gestão." Estas palavras, caso sejam bem aplicadas, poderão travar a tendência autodirigida já de si evidente nos museus fruto dos tempos, mas também das vontades.

Equilíbrio

Odradek é um objeto frio, composto por perfis afiados e cortantes: Benjamin é claro relativamente à letalidade dos mesmos, sugerindo que "(…) as formas espinhosas devem ser tratadas com infinita destreza (…)" se não quisermos ter dissabores. A escolha deve portando ser equilibrada, capaz de enfrentar o conhecimento específico com a, também necessária, gestão institucional; a pessoa é importante – pode marcar a diferença pela criatividade – mas também o programa, o modelo predefinido e a expectativa da instituição.

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