Opinião

A “casa” que o jazz português construiu

Dos 70 anos do Hot Clube à European Jazz Conference que hoje começa em Lisboa há um forte lastro histórico.

Há-de celebrar-se, algures nos anos 20 deste século, o centenário da chegada do jazz a Portugal. Mas até lá (e já falta pouco) não têm faltado motivos para celebrar o que, nestas dez décadas, por aqui se foi fazendo no que ao jazz diz respeito. “Portugal tem hoje dezenas de festivais de jazz, escolas, excelentes músicos, compositores e intérpretes, críticos, divulgadores e cada vez mais público interessado.” Esta afirmação não é de hoje, vem impressa na capa de um dos muitos livros dedicados ao tema, Jazz em Portugal (1920-1956), tese de mestrado de Hélder Bruno de Jesus Redes Martins, editada pela Almedina em 2006. Mas, no ano em que o Hot Clube celebra 70 anos (e em que José Duarte, um dos históricos e activos divulgadores do jazz em Portugal, fez 80), é possível repetir a frase, quase sem a emendar, excepto nos críticos (há menos, no activo). Quem vir, por exemplo, o DVD duplo intitulado aTensãoJAZZ, de Rui Neves e Paulo Seabra, edição da série televisiva em 10 episódios com “uma história do jazz em Portugal”, terá aí uma aproximação visual e sonora a essa história, da qual há livros e ensaios de vários autores (José Duarte, João Moreira dos Santos, António Curvelo, Manuel Jorge Veloso ou Jorge Lima Barreto).

Reconhecimento do papel do jazz em Portugal é a escolha de Lisboa para a realização da quinta European Jazz Conference, que hoje se inicia em Belém. Co-organizada pelo CCB, pela Europe Jazz Network e pela Associação Sons da Lusofonia (com apoio da Câmara Municipal de Lisboa, do Turismo de Lisboa e do Programa Europa Criativa da União Europeia) a conferência tem, inclusive, um número recorde de participantes: esperavam-se pouco mais de 300 e, segundo a organização, ultrapassou os 400. Além dos debates, com a apresentação ao vivo de seis grupos portugueses escolhidos entre mais de 90 (Impermanence, Bode Wilson Trio, Axes, Pedro Melo Alves’ Omniae Ensemble, Quarteto Beatriz Nunes e TGB), haverá três concertos (pagos) abertos ao público, no Grande Auditório: Orquestra Jazz de Matosinhos com Maria João, João Paulo Esteves da Silva, João Barradas e João Mortágua (dia 13, às 22h), o Espen Eriksen Trio, com o saxofonista Andy Sheppard, a apresentarem o disco Perfectly Unhappy (dia 14, às 21h30) e o projecto New Conception of Jazz, do pianista norueguês Bugge Wesseltoft (dia 15, às 21h30). Em paralelo, haverá acções noutros espaços, como o Hot Clube, a Ler Devagar ou o Capitólio.

Por falar em Hot Clube, também este prossegue as comemorações do seu 70.º aniversário. E este sábado, dia 15, haverá um concerto num espaço público com um programa especial, dedicado à música de Duke Ellington. Em palco estará a orquestra de jazz do Hot, a OJHCP, dirigida pelo maestro Luís Cunha, mas com Pedro Moreira convidado a conduzir a orquestra nalguns temas ellingtonianos. O concerto, que se realiza no Parque Recreativo dos Moinhos de Santana, ao Alto da Ajuda, pelas 19h, tem ainda a participação especial do saxofonista britânico Julian Argüelles.

Por fim, celebram-se também este ano 20 edições do Angrajazz, que decorre anualmente desde 1999 em Angra do Heroísmo, nos Açores. De 3 a 6 de Outubro, o festival tem no seu cartaz a Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal (a tocar a música de António Pinho Vargas), a Orquestra Angrajazz, Gonzalo Rubalcaba Trio, Andy Sheppard Quartet, Billy Childs Quartet, Darcy James Argue’s Secret Society e Jazzmeia Horn Quintet. E no final de Outubro haverá uma edição especial comemorativa do Hot News (o boletim do Hot) mas em banca, impressa, não no formato habitual, pdf e de acesso gratuito. Lá se falará de muita coisa e também da tão almejada Casa do Jazz – que é, no fundo, aquela que tantos e tão bons contributos têm vindo a construir.