Crítica

Um filme a esfolar outro filme

Com o original de McTiernan, a versão de Black mantém apenas uma relação de “depredação”.

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O Predador de 2018 faz tudo ao contrário do filme de 1987
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Shane Black está suficientemente próximo do universo de John McTiernan para que, a priori, não pareça disparatada a ideia de ser ele o responsável por um remake/sequela/reboot do Predador, o filme que McTiernan dirigiu em 1987, com Arnold Schwarzenegger como protagonista, e que, no seu cruzamento do filme de guerra com a ficção científica, é um dos filmes de acção mais interessantes daquela década. Black esteve lá, foi um dos actores do Predador original assim como de outros filmes de McTiernan, mas sobretudo foi argumentista de O Último Herói de Acção (de 1993, de novo com Schwarzenegger), essa pequena obra-prima de irrisão e referncialidade “pós-modernas”.

Portanto, havia uma certa expectativa quanto a esta retoma do Predador, mormente quanto à possibilidade de não ser apenas um empreendimento cínico de relançamento de um novo franchise. Expectativa gorada, para irmos directos ao ponto. Gorada, essencialmente, porque o Predador de 2018 faz tudo ao contrário do filme de 1987, ignorando o que fazia especial a versão de 1987: a linearidade, lógica e despojada, rumo ao “primitivismo” das cenas finais entre Schwarzie e o alienígena; a construção narrativa assente na espera e na expectativa, na criação de um clima de medo suscitado pela camuflagem e invisibilidade do monstro (elementos que McTiernan manejava na perfeição); até mesmo as dúbias ressonâncias políticas, sendo um filme que reenviava para as memórias do Vietname (ou pelo menos, para as memórias dos filmes do Vietname) para substituir o “inimigo” por um extra-terrestre omnipotente. Estávamos, de certa forma, num cruzamento entre o Alien e o Apocalypse Now.

Neste remake, que conserva apenas a ideia-base (o alienígena “caçador”) e algumas alusões auto-referenciais (o soldado que faz piadas sem piada retoma a personagem que o próprio Black interpretou em 1987), nunca sabemos bem onde estamos. A narrativa minimalista e linear dá lugar a uma multiplicação constante de personagens e de espaços, às base de cenas curtas que parecem estar sempre à procura de uma punchline e levam o filme sempre para a vizinhança da comédia (de facto, é como se Black não conseguisse controlar a sua propensão para contar anedotas). Se durante a primeira vintena de minutos esta estrutura ainda conserva algum mistério — tanto vai e vem entre espaços e personagens retarda, pelo menos, a “definição” do filme —, a partir daí rapidamente se percebe que não há mistério nenhum, que o empreendimento é realmente cínico e consiste em pouco mais do que a utilização de uma marca (a “marca Predator”) para caucionar um filme de acção banalíssimo e bem mais pueril (ou apenas bem mais 2018) do que o filme de 1987. Com o original de McTiernan, a versão de Black mantém apenas uma relação de “depredação”, e faz ao filme de 1987 o mesmo que no filme de 1987 o monstro fazia aos humanos: esfola-o vivo. Mil vezes uma revisão do original, que aliás, estamos em posição de o confirmar, envelheceu lindamente.