Opinião

Os desafios do necessário aumento de estudantes de ensino superior

Aceitar que é normal que o número de candidatos continue a diminuir nos próximos anos não é razoável.

A diminuição do número de candidatos ao ensino superior em 2018/19 tem sido referenciada recorrentemente no espaço público nas últimas semanas. Se considerarmos esta diminuição numa perspectiva cronológica mais longa, concluiremos que existiram outros anos em que se registaram diminuições desde o início do século XXI (por exemplo, 2006 e 2013). Apesar disso, o número de alunos inscritos pela primeira vez no ensino superior tem aumentado progressivamente e quase duplicou desde o ano 2000, passando de 84.746 no início do século para 113.927 indivíduos no ano de 2017. E ainda bem!

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Existem pelo menos duas explicações que são frequentemente avançadas para explicar a redução do número de candidatos. Uma corresponde a interpretar a redução como o resultado incontornável do envelhecimento populacional. Este argumento ignora é que a escolaridade obrigatória (que por lei é de 12 anos desde 2009) está ainda por cumprir em Portugal e cerca de 25% dos jovens em idade normal de frequência do ensino secundário não estão na escola. Ignora-se também que a percentagem de população com ensino superior completo em Portugal corresponde a apenas 24%, valor que contrasta com os 31,4% que se registam em média na União Europeia. Aceitar que é normal que o número de candidatos continue a diminuir nos próximos anos não é, portanto, razoável!

Uma outra explicação advoga que estudar compensa cada vez menos, designadamente em termos de remunerações e de acesso ao mercado de trabalho. Este argumento não tem qualquer tipo de sustentação nos resultados das inúmeras pesquisas que evidenciam que o diploma de ensino superior é ainda uma vantagem para uma inserção profissional mais favorecida. Os dados existentes, em Portugal e noutros países, comprovam que as condições de trabalho e de emprego, incluindo os níveis salariais, são mais vantajosas para os diplomados de ensino superior, por comparação com as situações vivenciadas por aqueles que não alcançaram este nível de escolaridade. A ideia de que estudar compensa cada vez menos é, portanto, profundamente errada. E é ainda mais errada porque os efeitos benéficos de uma escolaridade mais elevada não se circunscrevem à inserção profissional, verificando-se numa multiplicidade de dimensões das nossas vidas individuais e coletivas de que são exemplo a participação cívica e política ou a saúde e o bem-estar.

A diminuição de candidatos ao ensino superior no presente requer que se reequacionem estratégias para enfrentar os desafios atuais preparando o futuro. Por um lado, o desafio de garantir progressivamente o cumprimento da escolaridade obrigatória, o que, entre muito outros aspetos positivos, permitirá aumentar o contingente de entre o qual se recrutam os jovens que ingressam no ensino superior. Por outro lado, o desafio de afastar de vez as ideias de que Portugal tem ensino superior a mais e de que estudar não compensa. E ainda o desafio de criar condições pedagógicas e logísticas nas universidades e politécnicos para acolher cada vez mais jovens e adultos de todas as idades para frequentar licenciaturas e cursos de pós-graduação.

O debate público sobre este tema centra-se, quase exclusivamente, nos jovens adultos que ingressam logo após a conclusão do ensino secundário, esquecendo que os públicos estudantis são também os adultos (mais ou menos jovens) que, já tendo tido algum tipo de experiência profissional, voltam a estudar. E estes podem, ou não, ter concluído o ensino secundário na respetiva idade normal de frequência, existindo já mecanismos que facilitam o ingresso de adultos e outros que permitem a avaliação do nível de conhecimentos com vista à frequência do ensino superior que precisam de ser repensados e aperfeiçoados. Ora, o crescimento do número de estudantes do ensino superior em Portugal tem também de passar por estes públicos que a literatura científica internacional designa de “estudantes maduros”.

A autora escreve segundo o novo Acordo Ortográfico