Vantagem salarial dos professores é sinal de envelhecimento

Professores ganham mais 35% do que a média dos trabalhadores qualificados, de acordo com o relatório Education at a Glance deste ano. Corpo docente português é dos mais envelhecidos na OCDE.

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Os docentes portugueses ganham menos dinheiro do que a média dos colegas da OCDE Nélson Garrido

A vantagem salarial de 35% dos professores portugueses em relação aos restantes trabalhadores qualificados, que é apontada pelo relatório Education at a Glance, pode ser explicada pelo envelhecimento da classe. O estudo apresentado nesta terça-feira pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) aponta nesse sentido e os sindicatos dos professores concordam com a conclusão.

O fenómeno apontado pela OCDE “não surpreende” o secretário-geral da Federação Nacional dos Professores (Fenprof), Mário Nogueira, atendendo a que a classe é composta essencialmente “por pessoas mais velhas”. “Há 121 professores com menos de 30 anos”, aponta.

O envelhecimento do corpo docente é também a explicação encontrada pelo líder da Federação Nacional da Educação (FNE), João Dias da Silva. “Nós temos uma profissão profundamente envelhecida, o que significa que a maioria dos trabalhadores já está no topo da carreira. Ora, em termos salariais, isso é incomparável com outras carreiras em que a média de idades é muito mais baixa”, entende. “Não é a primeira vez que a OCDE identifica este problema”, acrescenta.

No Education at a Glance, a OCDE nota precisamente o envelhecimento acentuado do corpo docente em Portugal ao longo da última década. A percentagem de professores do ensino básico e secundário que têm 50 anos ou mais subiu 16 pontos percentuais entre 2005 e 2016 – situa-se agora nos 38%. Na OCDE esta percentagem subiu apenas três pontos e, em média, 35% dos docentes estão neste escalão etário.

Em sentido contrário, apenas 1% dos professores do ensino básico e secundário em Portugal tem menos de 30 anos. É o valor mais baixo de todos os países que compõem este estudo, a par com a Itália. A média da OCDE é de 11%. Por isso, no relatório o corpo docente português é apresentado como “um dos mais velhos” de toda a OCDE.

Este fenómeno ajuda a compreender que, de acordo com o documento da OCDE, os professores portugueses do 2.º e 3.º ciclos ganhem, em média, mais 35% do que os restantes trabalhadores que têm formação superior. Apenas o Luxemburgo – onde os vencimentos dos professores deste nível de ensino são o dobro dos restantes trabalhadores com um diploma do ensino superior – apresenta uma diferença salarial mais elevada.

Além disso, só há mais um país, a Grécia (com uma vantagem salarial de 15% para os docentes), em que esta classe tem rendimentos superiores à média dos restantes trabalhadores com formação semelhante. Nos restantes países, os professores recebem sempre menos do que os demais funcionários com formação superior.

A média na OCDE aponta para uma perda salarial dos professores de 9% face aos restantes trabalhadores qualificados. “Os salários dos professores aumentam com a experiência, o que significa que uma classe docente envelhecida coloca uma pressão sobre os salários”, sublinha a OCDE.

Estes números não querem, porém, dizer que os professores portugueses estejam entre os mais bem pagos do mundo. Pelo contrário, o Education at a Glance também permite perceber que os docentes nacionais ganham menos dinheiro do que a média dos colegas da OCDE.

No 2.º e 3º. ciclos, o salário previsto no início da carreira é de 19.468 euros anuais (ou seja, cerca de 1400 euros mensais). O valor do salário em início de carreira está abaixo da média da OCDE, que é de 19.630 euros por ano.

Esta diferença acentua-se quando os professores chegam a meio da carreira. Após 15 anos de experiência, os professores portugueses recebem 25.153 euros anuais, menos cerca de 2500 euros do que a média dos colegas do resto do mundo. Apenas no topo da carreira os salários nacionais estão acima da média. No último degrau do seu percurso profissional, os docentes recebem 38.726 euros por ano. A média da OCDE são 35.018 euros anuais.

Os valores incluídos no relatório da OCDE são apresentados em dólares e dizem respeito aos salários brutos anuais. Para a conversão de dólar para euro, o PÚBLICO levou em consideração a taxa de conversão tendo em conta as paridades de poder de compra publicadas pelo organismo internacional. com Margarida David Cardoso