Crónica

A doçura de Aveiro

Também os ovos estão melhores, não sei como porque já eram perfeitos. Não são um produto turístico, fazem parte do dia-a-dia dos habitantes. São como Aveiro.

Já me tinha acontecido em Évora: vinte anos depois, encontrei a cidade ainda mais bonita do que era. Agora aconteceu com Aveiro, já tão bonita há vinte anos atrás. Recuperaram muitíssimos edifícios e aqueles que ainda não foram restaurados estão tal e qual como estavam quando foram construidos, arruinados mas com a cara intacta com que nasceram.

Mas os edifícios só não chegam. É o tamanho de Aveiro que está exactamente à escala humana: maior que Aveiro é grande demais, mais pequeno que Aveiro é pequeno demais. É a maneira como passeiam as pessoas num sábado à noite. Não há enchentes nem desertos. Um festival de jazz ao ar livre decorre com duas centenas de espectadores: está cheio mas há sempre lugar para mais dois. Não há nervos. Não há medo. Não há pressão.

A disposição de Aveiro à volta da ria é encantadora porque vive-se com duas margens facilmente transponíveis. As pessoas têm tempo para conversar mas não é uma cidade pachorrenta. É - não acredito que vou dizer isto - jovem e dinâmica.

Na loja da Maria da Apresentação compramos ovos moles divinos, de formas elegantes, a 85 cêntimos. Uma barrica de porcelana, lindamente pintada e cheia de ovos moles, custa 8 euros. Como é que conseguem? Juntamo-nos às famílias aveirenses que fazem fila para comprá-los. Comemos enquanto compramos. Falamos. Despachamo-nos num instante. É um prazer.

Também os ovos estão melhores, não sei como porque já eram perfeitos. Não são um produto turístico, fazem parte do dia-a-dia dos habitantes. São como Aveiro.