Rebelião tory pode deixar plano de May para o “Brexit” nas mãos do Labour

Ex-subsecretário de Estado para o “Brexit” acredita que o “plano Chequers” vai ser chumbado por 80 deputados conservadores e prevê “divisão catastrófica” do partido, se May insistir nele.

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Theresa May não cede e enfrenta oposição interna Reuters/HANNAH MCKAY

A intransigência de Theresa May na defesa da sua proposta para a saída do Reino Unido da União Europeia está a aprofundar as divisões dentro do Partido Conservador, garantem antigos membros do Governo britânico. Depois de, no domingo, Boris Johnson ter comparado o chamado “plano Chequers” a um “colete suicida na Constituição britânica”, o ex-subsecretário de Estado para o “Brexit” Steve Baker vaticinou esta segunda-feira uma rebelião contra o plano da primeira-ministra no Parlamento, que colocará o futuro da saída nas mãos do Partido Trabalhista.

Segundo Baker, 80 ou mais deputados tories estão preparados para votar contra o acordo final do “Brexit” na Câmara dos Comuns de Westminster, caso May não recue na proposta que apresentou a Bruxelas. A primeira-ministra ficaria longe dos 320 votos necessários – o Partido Conservador tem 315 deputados e os seus aliados do DUP nove. 

O congresso do partido no final do mês, diz Baker, será decisivo para se perceber que apoio interno tem realmente a líder do Governo.

“Se chegarmos ao congresso com a expectativa de aprovar o ‘plano Chequers’ à custa dos votos trabalhistas (...), o Partido Conservador vai enfrentar a divisão catastrófica que tem conseguido evitar”, afirmou à Press Association o ex-subsecretário que, juntamente com o seu superior, David Davis, e com Johnson, abandonou o executivo em Julho, em choque com a estratégia de May.

O “plano Chequers” prevê a integração do Reino Unido numa zona de comércio livre com a UE, que inclui a transacção de bens industriais e produtos agrícolas, e a participação nas agências europeias responsáveis por esses sectores – uma solução que os brexiteers  vêem como uma sujeição britânica a Bruxelas e uma rejeição da promessa da primeira-ministra de sair do Mercado Único.

Mas sem acordo o Reino Unido ficará à mercê das regras da Organização Mundial do Comércio, o que faz prever um aumento da burocracia, atrasos nas alfândegas e quebras consideráveis no fluxo de tesouraria das empresas britânicas.

Baker garante “não ter qualquer prazer” em fazer este tipo de previsões e diz que apenas o faz por estar “profundamente preocupado com o futuro do partido”.

À BBC o antigo governante disse que a oposição interna ao “plano Chequers” é de tal forma intensa que junta tanto deputados eurocépticos como pró-UE. “Ficaríamos encantados de nos unir em torno de Theresa May com uma proposta diferente”, assegura.

Acordo em Novembro?

A contagem decrescente até 29 de Março de 2019 – o dia oficial do divórcio – não pára, mas Londres e Bruxelas ainda estão longe de um acordo. Esta segunda-feira confirmou-se o que já se temia há várias semanas: as partes não vão conseguir um compromisso no próximo Conselho Europeu de 18 de Outubro.

Citado pela Reuters, o responsável europeu pelas negociações com o Governo britânico, Michel Barnier, admitiu que é mais “realista” apontar para um acordo daqui a “seis ou oito semanas”. 

“Tendo em conta o tempo necessário para o processo de ratificação – com a Câmara dos Comuns de um lado e o Parlamento Europeu e o Conselho do outro –, temos de alcançar um acordo antes do início de Novembro. Penso que é possível”, disse o francês.

Segundo o Guardian, os líderes europeus vão anunciar o agendamento de uma cimeira extraordinária para 13 de Novembro, exclusivamente dedicada ao “Brexit”.