Crítica

Elea, ficção científica jogável que não deixa compreender o surreal

Com o seu episódio de estreia, a obra da búlgara Kyodai tem tanto de ambicioso como de trapalhão.

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São vários os videojogos que tentam a sua sorte na ficção científica, com alguns a fazerem algo para elevar o género, arriscando e obtendo variados graus de sucesso. A produtora Kyodai achou que também tinha algo a dizer e aqui está o primeiro episódio de Elea.

Ao longo destas horas, sente-se que a pequena equipa da Bulgária tinha a ambição de dar o seu contributo para o género. Contudo, sente-se também que a execução não esteve à altura. Elea é uma obra de ficção científica, porém, é também um título que injecta o surrealismo na equação, algo que acaba por não favorecer a forma como a história vai sendo revelada.

O ano é 2073 e os humanos expandiram-se, com a colonização de Marte e de várias luas. Vestimos a pele de River Elea, grávida do segundo filho e com o marido à distância.

O progresso, que confirmou a vida alienígena e uma inteligência artificial capaz de ter consciência, trouxe também uma época que coloca a humanidade perto da extinção, devido a uma mutação que transforma as crianças nascidas na Terra em psicopatas. Tudo isto tem obviamente a sua dose de cliché. Todavia, a forma como isto se desenrola assenta na tal dose de surrealismo.

Com Elea, a questão não são as reviravoltas na trama, até porque essas estão bem orquestradas; a questão é que ao misturar a realidade com as fabricações da mente tão cedo na obra faz com que essa teia nos chegue de forma confusa e, derradeiramente, diluída. Onde é que River Elea verdadeiramente está e quem é a sua identidade, são perguntas que acabam por ser confusas ao ponto de se tornarem frustrantes.

Importa enaltecer este nível de profundidade na construção narrativa e de carácter. O erro é que essa profundidade não é progressiva. Há tempo para Elea se redimir nos episódios que faltam publicar, mas o arranque é muito mais um ponto de interrogação do que uma vírgula.

Não ajuda a jogabilidade assente em processos antipáticos para a motivação. Não é a primeira vez que há um videojogo com uma jogabilidade ligeira. Mas obras como Dear Esther, ou até mesmo Firewatch e Everybody's Gone to the Rapture, tinham valências noutros departamentos. Elea junta a narrativa difusa a uma lista de tarefas pouco interessantes.

Os objectivos propostos são na sua maioria mundanos, levando-nos do ponto A até ao ponto B enquanto vamos absorvendo as vistas, falando com as personagens, caminhando em direcção a mais um item, a mais um trecho narrativo conquistado pela mente que joga e o tenta assimilar.

Elea pode cair na forma como é contado e na forma como a jogabilidade é executada. Porém, é uma afirmação nos departamentos técnicos. Experimentado numa Xbox One X, os cenários são apresentados a 60 fotogramas por segundo e uma resolução nativa de 4K. Além disso, a direcção artísticas toma conta do palco.

A componente de ficção científica tem carisma e, sobretudo, uma atmosfera que vai beber muito aos filmes, capaz de ser também a ilustração de muitas cenas que já lemos antes. Tudo envolto em alta tecnologia, claro, mas também com panorâmicas que nos fazem parar graças ao futuro que chegou, à sua representação numa bolha que triunfa porque executa o imaginário de muitos.

Nota-se o cuidado nas texturas, mas sobretudo a forma como o dinamismo dos cenários é usado. Nos exteriores, as cores garridas; e, nos interiores, a atenção dedicada aos pormenores e à colocação de objectos chegam para atestar a credibilidade, o que é algo irónico face à narrativa da obra. No campo da sonoplastia, destaca-se sobretudo a vocalização da protagonista, que está a cargo da actriz Leslie Fleming-Mitchell.

A grande questão que fica é se Elea melhorará com os restantes episódios que forem publicados pela Soedesco. Para já, com este capítulo de estreia, acaba por ser triste ver ideias fora do comum não encontrarem pé firme na hora de fazer o jogador investido e em controlo da trama. Não é um caso perdido, claro que não, com o técnico e o surreal a merecerem enaltecimento. Talvez os restantes episódios não se esqueçam que o jogador tem de compreender mais para sentir melhor.