Opinião

A primeira consulta de atividade física no SNS

Atividade física como terapêutica? A partir de agora sim, e no SNS. Projetos-piloto que dão resposta na prescrição de atividade física a pessoas com doença crónica arrancam em diversas unidades de saúde do país – e os resultados vão ser avaliados.

Para além do seu papel preventivo, sabemos hoje que uma prática regular de atividade física pode desempenhar um papel crucial no tratamento de pelo menos 26 doenças crónicas, incluindo doenças oncológicas, cardiovasculares, metabólicas, pulmonares, psiquiátricas e também neurológicas. Existe atualmente evidência científica sólida que suporta que, em casos específicos, a prática de atividade física ou exercício físico estruturado, enquanto terapia ou coadjuvante terapêutico, pode ser tão eficaz quanto os tratamentos médicos. Em alguns casos, pode ser mesmo mais eficaz (e custo-eficaz) que os tratamentos habituais.

O reconhecimento atribuído à atividade física enquanto um dos mais importantes fatores de risco modificáveis, isto é, que está nas nossas mãos alterar, está patente em diversas recomendações internacionais. O recentemente lançado Plano de Ação Global para a Atividade Física da OMS destaca a implementação, ao nível dos cuidados de saúde, de sistemas que permitam a avaliação sistemática e o aconselhamento e prescrição de atividade física, sendo que tal é considerado como um dos melhores investimentos (‘best buys’) em intervenções para a prevenção e controlo das doenças crónicas.

A prescrição de exercício físico para pessoas com doença crónica e o seu acompanhamento por profissionais especializados tem revelado bons resultados noutros países, como a Austrália, Reino Unido, Finlândia, Noruega, Bélgica e Suécia, quer em termos do aumento dos níveis de atividade física, quer na melhoria da qualidade de vida e de fatores cardiometabólicos. No caso da Suécia, a prescrição de exercício por parte de profissionais de saúde é uma realidade há já mais de 15 anos.

A partir de Outubro deste ano será implementada, em diversas unidades de saúde do país, uma nova consulta de atividade física. Esta consulta terá como destinatários utentes inativos ou sedentários com Diabetes Tipo 2 ou Depressão, condições muito prevalentes e para as quais o exercício físico tem um papel terapêutico (ou como coadjuvante terapêutico) comprovado. Esta será uma consulta multidisciplinar, visando o aumento sustentado do nível de atividade física dos utentes, coordenada por um médico especializado em Medicina Desportiva, em colaboração direta com um fisiologista do exercício - sendo que outros profissionais de saúde, como fisioterapeutas, psicólogos e nutricionistas serão também envolvidos, sempre que indicado.

Esta consulta pretende assim reforçar a capacidade de resposta do SNS, para quem mais precisa. Contrariamente ao aconselhamento breve para a atividade física, que já é feito por muitos médicos e outros profissionais de saúde, com o auxílio de ferramentas digitais especialmente desenvolvidas para o efeito, e que se destina a todos os utentes, a consulta de atividade física pretende ser uma resposta especializada, destinada a quadros clínicos específicos. É o caso de utentes cuja situação clínica sugere a prescrição de um plano de exercício físico personalizado ou um encaminhamento para programas de atividade física existentes na comunidade (em autarquias, juntas de freguesia, clubes e associações desportivas e recreativas, entre outros), que possam dar uma resposta adequada, segura e de proximidade, face à sua condição clínica.

Por ora, a consulta de atividade física irá funcionar apenas nas unidades de saúde participantes nos projetos-piloto, que se destinam a avaliar, durante 12 meses, o seu impacto na saúde dos utentes e na sustentabilidade a longo-prazo do SNS, findos os quais serão ponderadas as potencialidades do seu alargamento a outras unidades do SNS.

A nova consulta de atividade física constitui assim um marco simbólico da presença da atividade física (e seus profissionais) no contexto dos sistemas de saúde e no combate às doenças crónicas não transmissíveis. Esta será também uma consulta pioneira, pois são raros os países onde o sistema de saúde disponibiliza aos seus utentes com doença crónica uma consulta exclusivamente dedicada à promoção e prescrição de atividade física, assinalando também uma viragem no modo como a saúde é hoje entendida.

Numa altura em que a sustentabilidade do próprio SNS é tão debatida, devemos olhar para soluções que potenciam simultaneamente a saúde e o bem-estar dos cidadãos, e a sustentabilidade do próprio sistema de prestação de cuidados de saúde. Para isso, é fundamental apostar na gestão da saúde, através da prevenção e da promoção do bem-estar, gerando assim ganhos futuros, para todos. Tal passa também por promover a literacia em saúde e os cuidados adaptados à evolução da estrutura e das características da população.

Este novo caminho, com uma clara aposta na atividade física no seio dos cuidados de saúde, constitui-se como uma nova forma de cuidar e adequar recursos, diminuir a carga da doença e, dessa forma, reduzir os custos associados ao seu tratamento, canalizando mais meios para a prevenção e promoção de estilos de vida saudáveis. Desta forma, podemos adaptar melhor os recursos disponíveis às necessidades da população, tendo em conta o controlo dos custos e o retorno do financiamento.

Com a clara tendência de aumento da inatividade física em Portugal, esta aposta é, não só inevitável, como inadiável. Alguns dos resultados poderão demorar mais do que um ciclo político a vislumbrar-se, mas a visão e convicção de quem permitiu que acontecessem podem ser avaliadas já hoje.