Opinião

Os perigos das políticas identitárias

Trump recuperou as políticas identitárias, falando para homens brancos de rendimentos baixos.

1. Há um outro lado da eleição de Donald Trump que está menos presente nas análises e nos debates, mas que é igualmente importante para explicar a sua vitória e ponderar o futuro da América. O que desarmou os liberais perante a ascensão do Tea Party e a vitória de um Presidente populista, nacionalista e nativista, e o que pode impedi-los de derrotá-lo nas urnas. A questão não é nova. O debate sobre o Partido Democrata permanece praticamente desde a era Reagan. Clinton e Obama alimentaram a ideia de que era possível conquistar a Casa Branca desde que se fosse excepcional. O choque da eleição de Trump foi também resultado do contraste absoluto entre ele e o seu antecessor, como se existissem duas Américas irreconciliáveis, ignorando-se uma à outra. Ainda hoje os índices de popularidade de Obama superam de longe o apoio ao actual Presidente, mostrando até que ponto a realidade é complexa. As eleições de meio de mandato, em Novembro, com a possibilidade de retirar o Congresso aos Republicanos, ainda escondem este debate fundamental. A leva de vitórias nas “primárias” democratas de gente nova e mais à esquerda, porventura inevitável diante do efeito Trump, continua a revelar que os Democratas não conseguem encontrar uma ideia para a América que seja inclusiva e capaz de voltar a fazer sonhar. Li recentemente um livro de pouco mais de 100 páginas que é, do meu ponto de vista, uma pequena pérola para tentar navegar através deste debate. O seu autor, Mark Lilla, é professor na Universidade de Columbia e, sendo um democrata, passou a ser o ódio de estimação de uma ampla facção de intelectuais liberais: “The Once and Future Liberal – after identity politics”. Resumindo, a obra de Lilla é sobre os perigos das políticas identitárias, à direita como à esquerda. Não poderia ser mais actual. Para se ficar a saber rapidamente ao que vêm, leia-se um pequeno trecho logo na introdução. “No momento em que escrevo, a página inicial do site do Partido Republicano apresenta um documento intitulado ‘Princípios da Revolução Americana’ (…) uma declaração em onze tópicos distintos. A lista abre com a Constituição (‘A nossa Constituição deve ser preservada, estimada e honrada’) e fecha com a questão da imigração (‘Precisamos de um sistema que proteja as nossas fronteiras, faça cumprir a lei e fomente a economia nacional’). Na página inicial do site do Partido Democrata não temos nenhum documento assim. Em vez disso, avançando até à base da página, encontramos uma lista de hiperligações encabeçada pelo título ‘Pessoas’ (…). Mulheres, hispânicos, norte-americanos étnicos, comunidade LGBT, norte-americanos nativos, afro-americanos, asiático-americanos, habitantes das Ilhas do Pacífico…  Estão lá 17 grupos distintos, para os quais existem 17 mensagens distintas”. Já se percebeu onde Lilla quer chegar.

3. O que aconteceu nas presidenciais de 2016? Trump recuperou as políticas identitárias, falando para os homens brancos, de rendimentos baixos, que vivem no imenso espaço que vai da Costa Leste à Costa Oeste, que viram os seus empregos esmagados pela globalização, que vêem nos imigrantes uma ameaça ao seu modo de vida e que se sentem abandonados pelas elites de Washington. No entanto, com uma simples frase, “Make America Great Again”, conseguiu dirigir-se a uma maioria de americanos. O que fez Hillary? Dirigiu-se a cada uma das “minorias”, incluindo a sua, apelando ao seu voto, e falou de uma classe média “espremida” pela globalização. Para além de todas as fraudes, onde estava a capacidade mobilizadora dos cidadãos americanos, para lá da sua identidade e da respectiva vitimização?

4.Lilla lembra as duas grandes narrativas americanas do século XX, que definiram durante décadas o rumo do país: a era Roosevelt e a era Reagan. FDR que, a partir da crise de 1929, construiu a América do New Deal, capaz de assumir a sua responsabilidade colectiva perante os que foram esmagados pela crise, criando pela primeira vez as bases de um Estado social. A II Guerra apenas contribuiu para reforçar a solidariedade interna da sociedade americana. Tudo era possível: “A única coisa de que temos de ter medo é do próprio medo”. A era que inaugurou sobreviveu até Lyndon Johnson, cuja Great Society alargou os direitos cívicos aos negros, numa luta violenta conta os Democratas do Sul. Carter foi um pequeno episódio de resistência já em tempo de mudança. Ronald Reagan operou a segunda revolução, desta vez conservadora, que haveria de marcar a política americana praticamente até à eleição de Obama, esmorecendo agora perante um Partido Republicano que cada vez tem menos a ver com o seu legado. Foi o regresso ao individualismo e à responsabilidade de cada um pela sua vida, a crítica ao “grande Governo” (ou melhor, “o Governo é o problema”), a desregulação de uma economia estagnada, a ode à eficácia dos mercados na distribuição dos recursos. Mas foi sobretudo a visão optimista de um país que tinha tudo para brilhar no alto da colina, como nenhum outro. “Good Morning America”. Os liberais riram-se dele – um actor de série B ignorante. Foi eleito com uma maioria esmagadora que cobriu de vermelho o mapa da América. Clinton e Obama não rompem totalmente com a sua herança, mas ambos conseguem responder a um momento de esperança. Clinton, com a vitória da democracia sobre o totalitarismo no fim da Guerra Fria, inaugurando um tempo em que tudo parecia possível. Virou os Democratas para uma visão da economia e da sociedade que integrava parte da herança de Reagan - do Welfare para o Workfare, influenciando a “terceira via” que haveria de conquistar a Europa. Obama era ele próprio a encaração do sonho americano. Afastou-se da vitimização das minorias (incluindo a sua, aquela que mais razões tem para se considerar uma vítima) porque sabia que esse caminho nunca o levaria à Casa Branca. Não hesitou em reivindicar a herança optimista de Reagan, o que incomodou os Democratas, incluindo a família Clinton. Não deixou por isso de fazer do Obamacare a sua batalha mais emblemática, aquela pela qual os Democratas lutavam há décadas sem sucesso. Foi alvo da mais furiosa campanha identitária do Tea Party, que culminou na polémica sobre o seu local de nascimento. Hoje, exibe publicamente a sua improvável “cumplicidade” com George W. Bush, chocando os liberais e enfurecendo os fanáticos. Bush não esconde o seu horror ao nativismo identitário de Trump. Obama vê para além do somatório das múltiplas identidades que constituem a América.

4. As reivindicações das “minorias”, apesar de décadas de conquistas importantes, continuam tão legítimas como sempre. A defesa dos direitos das mulheres ainda faz sentido. Continua a ser revoltante a condição de negro, seja ele um jovem sem emprego de um subúrbio degradado, ou um professor de Harvard: a polícia teima em não os respeitar. Mas o “politicamente correcto” que aponta o dedo acusador a qualquer um que se atreva a pôr em causa a “identidade” própria e exclusiva de cada grupo e o seu estatuto de vítima tornou-se uma fórmula que não anda longe do nativismo identitário de Trump. A Economist resumiu recentemente este espírito “totalitário” com um exemplo da Universidade de Sussex onde uma professora levantou uma questão sobre a definição dos critérios para o reconhecimento do estatuto de transgénero, desencadeando uma guerra contra ela entre os alunos: “Não toleraremos o ódio no nosso campus. Trans e vidas não-binárias não são um debate”. Perdeu-se o sentido colectivo. O conceito de cidadania diluiu-se. Reduz-se drasticamente a capacidade de entender e aceitar aquilo que é diferente e, consequentemente, aquilo que é comum. No campo da justiça social, a recentragem de Clinton ou de Obama dá agora lugar a um “populismo económico” em que o alvo indiscriminado são os bancos, Wall Street, o capitalismo em geral e as multinacionais em particular, apelando às emoções, que afasta muita gente. É uma mistura explosiva que muito dificilmente ajudará a América a curar as suas feridas, a grande tarefa que o pós-Trump exigirá aos Democratas.

4. Obama acaba de entrar na campanha, saudado como a verdadeira “alternativa” a Trump. Ninguém, de Bernie Sanders a Elizabethe Warren, consegue perfilar-se como tal. Não desiludiu. Rejeitou “a noção disparatada de que os Democratas têm de escolher entre tentar apelar aos votos da classe branca trabalhadora ou os votos de cor, das mulheres, ou dos americanos LGBT”. “Ganhámos porque chegámos a toda a gente, competindo em toda a parte e combatendo por cada voto”. Puro Obama: “A ideia de que tudo vai ficar bem porque há gente na Casa Branca que secretamente não está a seguir as ordens do Presidente – isso não existe. Estou a falar muito a sério. Não é assim que a nossa democracia deve funcionar. Essas pessoas não foram eleitas.” Desmontou, de seguida, a política de Trump, sem deixar pedra sobre pedra.