Protestos em mais de 80 cidades russas em dia de teste eleitoral a Putin

Dezenas de milhares de pessoas voltaram a manifestar-se contra o aumento da idade da reforma na Rússia. Em simultâneo, vota-se para eleger 26 presidentes e 16 parlamentos regionais, mais quatro presidentes de câmara, incluindo Moscovo.

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Jovens manifestantes em São Petersburgo visam directamente Putin, a quem chamam “ladrão” neste cartaz Reuters/ANTON VAGANOV
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O protesto contra a reforma das pensões em Moscovo LUSA/YURI KOCHETKOV
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Membros da Guarda Nacional Russa bloqueiam uma rua durante a manifestação de São Petersburgo Reuters/ANTON VAGANOV

Alexander Navalni, o único rosto da oposição a Vladimir Putin, não pôde encabeçar a manifestação de Moscovo, como tinha planeado. Mas mesmo a partir da prisão o seu apelo chegou a mais de 80 cidades da Rússia, com os primeiros manifestantes a saírem à rua em Vladivostok e noutros centros urbanos do extremo Leste do país.

Há semanas que as manifestações contra a reforma das pensões, raras pela frequência e dimensão, se repetem. As deste domingo foram propositadamente marcadas para coincidirem com uma jornada eleitoral em que os candidatos leais ao Kremlin esperavam bons resultados: a votos vão as presidências de 26 regiões e os parlamentos de 16, as assembleias municipais de 12 cidades e as presidências de quatro autarquias, incluindo a capital, para além da renovação de mandatos individuais na Duma (Parlamento) nacional.

Umas eleições com importância suficiente para poderem valer como teste ao poder. Putin permanece claramente incontestável, mas desde que o aumento da idade da reforma foi conhecido viu a sua popularidade baixar dos 87% (Abril) para os 67% (Julho), de acordo com dados do Centro Levada, o principal instituto de sondagens independente da Rússia.

“As campanhas eleitorais do partido no poder, o Rússia Unida, enfrentam sérias dificuldades”, escreveu a revista económica Expert, próxima das posições do Governo russo. “Os resultados destes escrutínios não reservam grandes surpresas, mas os números irão constituir um aviso para o Kremlin, partidos políticos e administração.”

A contestação à reforma das pensões, que reúne gente de diferentes áreas políticas, faz antecipar um primeiro efeito muito concreto: o renascimento da oposição parlamentar. Alexander Pozhalov, analista entrevistado pela Expert, enumera os partidos com assento da Duma que voltarão a fazer oposição, do Partido Comunista ao Rússia Justa (centro-esquerda), passado pelo Partido Liberal-Democrata, do ultranacionalista Vladimir Jirinovski.

A oposição possível

Esta é a oposição possível – os partidos realmente fora do sistema não conseguem entrar na Duma. “No fundo, os eleitores que desejam manifestar o seu descontentamento não terão outra hipótese que não seja votar num destes três partidos, isso ou absterem-se”, diz o director de investigação da Fundação ISEPI (um instituto de estudos socioeconómicos e políticos).

Navalni foi condenado a 30 dias de prisão em Agosto. Como habitualmente, entra e sai da cadeia às ordens de juízes e a sua detenção agora foi justificada por violação das leis que regulamentam os protestos. O activista político anticorrupção transformado na única figura reconhecida da oposição diz que estas sucessivas condenações por curtos períodos se destinam a minar a sua actividade – em Março, foi impedido de se candidatar contra Vladimir Putin nas presidenciais em que este foi reeleito com mais de 70% dos votos.

A reforma das pensões, discretamente anunciada no arranque do Mundial de Futebol, que se realizou na Rússia, desencadeou uma contestação a que Putin já não estava habituado.

Viver para receber

O Presidente russo até recuou no plano inicial de aumentar a idade da reforma das mulheres, passando dos 63 para os 60 (actualmente é aos 55), sem que os protestos abrandassem. Mantém-se a intenção de subir a dos homens dos actuais 60 para os 65. Tendo em conta que esperança média de vida das mulheres na Rússia é de 77 anos e a dos homens de 66 (dados da Organização Mundial de Saúde), percebe-se que muitos russos não chegarão a gozar descanso nem pensão – de acordo com o Banco Mundial, só 57% dos russos deverão viver para lá dos 65 anos.

Os sindicatos já avisaram que muitos não chegarão a viver para reclamar a sua pensão mas Putin insiste que adiar mais a medida, cuja entrada em vigor está agora prevista para 2019, ameaça a “estabilidade e segurança da sociedade russa”. “Mais adiamentos seriam irresponsáveis”, afirmou. “As nossas decisões devem ser justas e equilibradas.”

“Putin e o seu Governo pilharam o orçamento durante os últimos 18 anos”, acusou a equipa de Navalni num comunicado divulgado em antecipação dos protestos deste domingo. “Durante todo esse tempo asseguraram-nos que a idade da reforma não seria mudada em nenhuma circunstância. E agora estão a aumentá-la. As autoridades não estão a ouvir as pessoas e isso significa que é tempo de tomar as ruas.”