Do deserto de Kandahar para a chefia do Sporting: Frederico Varandas

Quando era criança, fez ginástica no Sporting. Chegaria a director clínico em 2011. Médico, militar, Varandas é agora também presidente dos “leões”.

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Frederico Varandas tem a patente militar de capitão desde 2009 DR

O presidente eleito do Sporting, Frederico Varandas, foi o director clínico dos “leões” nos últimos sete anos. Entrou durante a gestão de Godinho Lopes em 2011 e saiu agora porque não se revia “na faceta autocrática e sectária” de Bruno de Carvalho, com quem conviveu em Alvalade desde 2013.

Foram sete anos de pertença de Varandas à estrutura do Sporting, ele que entrou durante a gestão de Godinho Lopes, por influência de João Pedro Varandas, o seu irmão mais velho que era vogal do Conselho Directivo nessa altura (e que é sócio no escritório de advogados de Rogério Alves).

Mas a ligação emocional de Varandas ao Sporting é bem anterior à ligação profissional. Quando era criança, fez ginástica no Sporting e também fez parte da claque Juventude Leonina durante a adolescência.

Com formação médica (especialista em medicina desportiva e reabilitação) e militar (tem a patente de capitão desde 2009), e também com curso de treinador de futebol, Frederico Nuno Faro Varandas, lisboeta de 38 anos, começou a trabalhar no Vitória de Setúbal em 2007.

Durante seis meses em 2008, cumpriu uma comissão de serviço no Afeganistão, durante a qual chegou a estar sob fogo inimigo e tratou soldados feridos numa emboscada. O seu sportinguismo foi com ele para a guerra, como demonstra um episódio que já recordou em entrevistas.

"Estávamos em Kandahar, no meio do deserto, só com os talibãs e perguntei se conseguíamos apanhar o relato [da final da Taça de Portugal da temporada 2007-08, onde o Sporting venceu o FC Porto, por 2-0, no prolongamento]. Nesse dia estávamos em alerta máximo porque os serviços secretos afegãos avisaram-nos de um possível ataque que poderíamos sofrer. Retirámos toda a gente e só ficaram os necessários para combate, nos quais se incluíam o médico e o enfermeiro. Saímos das tendas, porque poderiam ser atacadas, e ficámos num sítio, refugiados, quietos e em silêncio obrigatório. Sem luzes, sem nada. Fui à mochila, com o jogo quase a começar, agarrei no rádio e passados uns minutos estávamos a ouvir a Antena 1. Dos 130 homens, metade estava ali junto a mim a ouvir o relato. Costumo dizer que, pela primeira vez, afegãos e talibãs ouviram o rugido do leão. Nunca esquecerei esse dia", contou ao jornal do Sporting.

Aura de competência

Depois de quatro anos no Bonfim, Varandas mudou-se para Alvalade e por lá ficou, mesmo depois de Bruno de Carvalho assumir a liderança do clube em 2013, criando uma aura de competência e recolhendo elogios de vários lados, incluindo de Jorge Jesus – e Leonardo Jardim, que trabalhou com ele em 2013-14, tentou levá-lo para o Mónaco.

Também chegou a ser castigado com 30 dias de suspensão e uma multa de 1913 euros pelo Conselho de Justiça da FPF por ter reclamado com o árbitro assistente durante um Sporting-FC Porto, em Agosto de 2016, um castigo que viria a ser reduzido pelo Tribunal Arbitral do Desporto para dois dias de suspensão e uma multa de 1434 euros.

Foi na sua clínica de reabilitação que trabalharam vários jogadores do Sporting nos dias que se sucederam ao ataque a Alcochete e que antecederam a final da Taça de Portugal em que o Sporting seria derrotado pelo Desportivo das Aves.

Foi nessa altura que Varandas terá tomado a decisão de avançar para uma candidatura à presidência, mesmo elogiando muito do que Bruno de Carvalho tem feito nos últimos cinco anos à frente do clube.

Texto adaptado de um trabalho do jornalista Marco Vaza, publicado a 24 de Maio, quando Frederico Varandas anunciou a sua candidatura à presidência do Sporting.