Livro

Uma história para entender o sistema nervoso central do mundo

Onde é o centro do mundo? Quem somos num contexto alargado? As perguntas servem a Peter Frankopan para traçar uma panorâmica marcada por rotas comerciais, religiosas, de conhecimento. As Rotas da Seda é uma nova história do mundo que questiona a visão eurocêntica e defende que a chave é conhecer o passado comum para que seja possível a adaptação e não uma resistência à inevitável mudança.
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Bibliothèque Nationale, Paris / Bridgeman Images

O mundo é um mapa de rotas comerciais, religiosas, culturais, uma rede de estradas que o definiram como ele é hoje e que é preciso conhecer para que sejamos mais capazes de nos adaptar às mudanças trazidas por novas rotas e para que não nos encerremos nas já traçadas, resistindo à mudança inevitável. De forma um pouco simplista, é esta a perspectiva de As Rotas da Seda, Uma Nova História do Mundo, um livro em que o historiador britânico Peter Frankopan, 47 anos, parte de uma pergunta fundamental: onde é o centro do mundo? Dessa, formula outras questões para tentar chegar à evidência acerca da necessidade de nos conhecermos melhor enquanto humanidade nas nossas diferenças. “Sou historiador, muito do meu trabalho é olhar o passado, lê-lo e escrever o resultado da minha investigação, revelando o que penso e que questões me surgem. Este livro nasceu do meu interesse em responder à pergunta que pode ajudar a explicar o modo como o mundo mudou tão dramaticamente nos últimos anos e, por consequência, a que nos adaptemos a essa mudança. E a pergunta, afinal, não é só uma: de onde é que todos nós viemos, como é que vivemos juntos, como nos relacionamos”, diz numa conversa com o ípsilon a partir de Oxford onde é director do Centro de Investigação Bizantina.

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“Em criança, uma das coisas que eu mais prezava era um grande mapa do mundo. Estava colado na parede junto à minha cama, e todas as noites, antes de adormecer, ficava a observá-lo. Não levei muito tempo a memorizar os nomes e localizações de todos os países, anotando as suas capitais, bem como os oceanos, os mares e os rios que desaguavam neles; os nomes das grandes cadeias montanhosas e desertos, escritos com itálicos urgentes, prometiam perigo e aventura”, escreve no início do prefácio onde logo depois conta a sua primeira estranheza ou perplexidade. “Ao chegar a adolescente, senti um certo desconforto com o foco implacavelmente restrito das minhas aulas na escola, que se concentravam apenas na Europa Ocidental e nos EUA, deixando grande parte do mundo intocada.”

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David Levenson / Getty Images

O mapa mundo na parede do quarto não era o globo terrestre; era um planisfério onde o centro estava no traçado dos pedaços de terra entre o Atlântico, e um mar muito perto, central, o Mediterrâneo, apresentado como o centro. E esse era o centro convencional do mundo contado ao Ocidente. Faltava explicar muita coisa. Por exemplo, porque é que se viaja? Ou, dito de outra forma, “quando é que começámos a dar atenção a outras partes do mundo, ou a lugares que vemos como pertencentes a outras partes do mundo, como a Síria, o Irão, Iraque, Rússia, Índia, Paquistão, China. São perguntas que me fascinam e que nos explicam. Explicam, por exemplo, como é que Portugal teve um grande império; explicam a nossa arte e a nossa cultura e os nossos negócios. São 3500 anos em que se explicam as ligações que me parecem importantes”, diz Peter Frankopan que questiona a versão do Ocidente enquanto a versão verdadeira da História, uma narrativa em que atribuímos a nós próprios, ocidentais, o papel principal numa história que nós próprios narrámos. Este livro tem a grande ambição de propor uma espécie de reescrita da História, fruto de um olhar mais aprofundado e abrangente para esse planisfério. O olhar é o de uma grande fotografia da História em que se notem todo o tipo de rotas. Económicas, energéticas, religiosas, de conhecimento, culturais, artísticas, de alimentação. Isso em vez de uma sucessão de períodos.

Para isso, socorreu-se de muitas fontes e de uma vantagem: a de saber muitas línguas, podendo em muitos casos consultar fontes originais. “É preciso estar preparado para entender outros tipos de informação e de material, ler cada texto de várias perspectivas, entender o contexto de quem o escreveu, as origens, quando foi produzido, como foi produzido. Requer um ajuste de ferramentas. O desafio é juntar tanto material quanto possível e a dificuldade está na síntese. Este livro poderia ter mais 300 ou 500 páginas. Quis fazê-lo num formato que as pessoas leiam e entendam”, justifica assim a opção por um volume que, na edição portuguesa, tem pouco mais de 700 páginas — com exaustiva explanação de notas e fontes — divididas em 25 diferentes rotas.  Desde a criação da Rota da Seda, passando pela rota dos escravos, do ouro, a do genocídio, a da catástrofe. E há a ascensão do cristianismo, do capitalismo, do comunismo, até o terrorismo. É a rota actual, “a rota da tragédia”, onde aponta o dedo à “falta de perspectiva do Ocidente sobre a História global”. E escreve: “A História foi deturpada e manipulada para criar uma narrativa insistente, segundo a qual a ascensão do Ocidente era não apenas natural e inevitável mas uma continuação do que viera antes.” Era a evolução e o Ocidente símbolo máximo de uma modernidade inquestionável. Frankopan desmonta esse mito, não sem algumas cautelas.

Como chegámos aqui

É esse o núcleo do livro. Se ele tem um destinatário principal é o leitor ocidental perante um mundo em “tumulto”. Como chegámos aqui? “Um dos meus desafios foi o de ser justo com o que acontece quando pessoas, quase sempre homens, lutam pelo poder ou pelo dinheiro, ou pelo statu, e perceber como as decisões são tomadas. Explicar as motivações das pessoas é uma tarefa dos historiadores; ajuda e é a única maneira de escrever de forma objectiva”, esclarece, escolhendo como ponto de partida para esta viagem através tempo o modo como ele se manifestou no espaço. Desde a imagem idílica do Jardim do Éden, próximo dos territórios entre os rios Tigre e Eufrates, a ponte entre Oriente e Ocidente onde se estabeleceram as primeiras grandes cidades do mundo há cerca de cinco mil anos. Ali estavam Harapa e Mohenjo-Daro, e depois a Babilónia, Nínive, Uruk e Acádia. A Mesopotâmia. Aí nasceriam ou iriam cruzar-se as grandes religiões do mundo, o judaísmo, o cristianismo, o budismo, o islamismo, o hinduísmo. Escreve Frankopan: “Foi esse o cadinho onde as famílias linguísticas competiram entre si, onde as línguas indo-europeias, semíticas e sino-tibetanas acompanhavam os falantes de altaico, turcomano e caucasiano. Foi aqui que os grandes impérios nasceram e caíram, onde os efeitos de disputas entre culturas rivais se sentiam a milhares de quilómetros de distância. Esta posição geográfica abria novas perspectivas do passado e mostrava um mundo profundamente interligado, onde o que acontecia num continente tinha impacto noutro...”

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Rotas mercantes globais em 1650

A globalização não é assim tão recente, quer evidenciar Frankopan. Difunde-se riqueza e violência, conhecimento e escravatura e a cruzada — uma das palavras mais analisadas no livro pela carga ambígua — é sempre a mesma. “A cruzada é sempre pelo dinheiro, pelo poder, pelos recursos. Foi sempre assim, mesmo que se usem outros argumentos, se diga que é pela justiça, por uma fé”, afirma, e — diz — continua a ser assim agora que se ouve a palavra ressurgir. “É sempre uma civilização a tentar impor-se a outra, e essa imposição implica sempre força, implica sempre violência”, continua o historiador.

Dito isto, as rotas da seda de que fala o título não são mais nem menos do que as estradas, as artérias, os caminhos por onde circulam mercadorias, exércitos, pessoas, doenças, ideias, religiões, modas e gastronomia ao longo dos tempos e que servem a Frankopan para sair da visão eurocêntrica do mundo. Um mundo enquanto organismo vivo e em permanente mutação. “Seremos capazes de nos adaptar?” É sempre a dúvida subjacente ao longo do livro e a da conversa como quando, por exemplo, Frankopan refere a nova ordem mundial. “Há cem anos quase todos os países da Europa tinham um império. Portugal, Espanha, a Itália tinha colónias, a Bélgica tinha um grande império. Cerca de 25 por dentro da população mundial estava sob domínio europeu. Isso mudou. Hoje muitas dessas pessoas vivem na Europa numa altura em que a Europa e o mundo se interrogam sobre o seu futuro, com coisas a acontecer como o “Brexit”; e assistimos ao ressurgir da extrema-direita com algum significado na Polónia, Hungria, em parte da Alemanha, Áustria, França; a Catalunha pede a independência... Isto tem de ser entendido num contexto alargado. Mas veja-se, no Golfo, na Ásia Central, na Índia na China, as pessoas estão mais optimistas acerca do futuro. Até mesmo em África. No entanto, a maior parte de nós está muito preocupada com o que pode ser o mundo na próxima geração. Tudo parece muito desestabilizado. Para onde vai o Ocidente? Escrevei um novo livro que sai no final do ano onde tento explicar esta parte mais recente. Qualquer mudança trará vencedores e vencidos. Não sabemos quem são. Sei apenas que as crianças que aprendem História hoje, em Lisboa, no Porto ou em Londres sabem muito pouco sobre a China ou sobre a Rússia ou sobre o Irão; não sabem nada da música que lá se faz ou do cinema. É como se o Ocidente estivesse desligado da realidade. Não apenas da realidade actual, mas da realidade do passado.”

A Europa a olhar-se ao espelho

Quer isto dizer que quando se fala de uma crise global estamos sobretudo a falar de uma crise do Ocidente? A resposta vem imediata. “Não. Acho que há razões para se estar negativo em muitos lugares diferentes. A Venezuela está a viver uma situação dramática, o Brasil nos últimos cinco ou seis anos está a passar por uma situação complexa; as migrações em África, a radicalização do Norte de África, a crise na Líbia. E há o Iraque, a Síria, o que pode acontecer no Irão. Podemos estar à beira de uma situação de guerra. A eleição no Paquistão põe em jogo a vida de milhões de pessoas. Podemos escolher qualquer região do mundo para se poder ser negativo. Mas se nos afastarmos das manchetes actuais verificamos que tudo resulta de lutas de poder, pela energia, pela tecnologia, por mantimentos e água. Tudo isso tem impacto nas nossas vidas. Na Europa e em todo o mundo. Controlar os recursos é a base de qualquer civilização e qualquer perturbação que possa pôr em causa o acesso à energia, à água, à alimentação traz consequências incrivelmente profundas. O “Brexit” ou Trump são importantes, mas não são as coisas mais importantes neste momento. Continuo a olhar para a China, porque acho que é de lá que vão surgir as alterações mais significativas. Mas a Europa continua a olhar-se ao espelho sem parecer ter a capacidade, ou mesmo o desejo, para olhar além da sua própria parte do mundo e quando se aperceber será demasiado tarde. Eles, os que não pertencem ao Ocidente, aprendem quem nós somos e nós não sabemos quase nada deles.”

Talvez o espelho não mostre propriamente uma arrogância. A palavra parece excessiva a Peter Frankopan, mas há poucas capazes de sintetizar o estado de alguém que acha que tem razão e resiste em olhar para o lado. E olhar para o lado faz parte de ser curioso e isso, para Frankopan, é bom. “São rotas comerciais, mas também rotas traçadas pela nossa curiosidade e que têm que ver com o modo como naturalmente nos relacionamos uns com os outros e ajudam a tentar responder a questões como o que acontece quando morremos, como ser feliz, perguntas que tanto podem ser explicadas pela filosofia, mas das quais as religiões se têm desde sempre ocupado e levam a outras trocas.”

Chegamos então à percepção de que o título é metafórico. Uma rota pressupõe uma encruzilhada. Aquela onde se encontram Oriente e Ocidente será, civilizacionalmente, a maior e mais desafiante. Romanticamente, juntam-se nessa expressão que designa uma “crescente rede de ligações”, as rotas da seda, atribuída ao geólogo alemão Ferdinand von Richthofen e que reflecte o choque sentido na espécie de umbigo do mundo que era a Ásia Central. Voltamos ao texto de Frankopan que explica a opção pelo título: “Estas rotas funcionam como o sistema nervoso central do mundo, ligando povos e lugares, mas estão sob a pele, invisíveis a olho nu. Assim como a anatomia explica o funcionamento do corpo, compreender estas ligações permite-nos perceber o funcionamento do mundo.” O chamado “orientalismo” dificultou essa aprendizagem, defende Frankopan. No texto chama-lhe mesmo “uma visão estridente e maioritariamente negativa sobre o Oriente como uma região inferior e subdesenvolvida por comparação com o Ocidente, que, por essa razão, não merece um estudo sério.” O presente, acrescenta, “branqueou o passado” e este livro quer alertar para isso.

Ambicioso? “Claro! Mas necessário”, adianta, pelo menos como princípio de uma conversa — porque uma das falhas desta história que se pretende universal é a sua brevidade, as omissões que isso implica. Mas a conversa, insiste Frankopan, tem de ser feita de forma aberta e pressupõe, antes de tudo, um conhecimento mútuo das civilizações. De modo sintético, o historiador não se poupa em detalhes. Recupera lendas, vai à mitologia, mostra as diferenças e as confluências das principais religiões e, ao contrário do que se possa pensar à partida, não crucifica o Ocidente. Pergunta-se o que vale a pena aqui, quais as grandes conquistas nesse meio do planisfério tal qual existia na parede do seu quarto. “A arte, a cultura, a ciência, a resiliência... São aspectos incríveis da nossa civilização. A Europa é dos continentes mais diversos na terra em termos culturais e de credos religiosos; criámos e prezamos a liberdade de imprensa, de género, o direito à sexualidade. Zelamos pela liberdade de expressão, somos o continente moderno. Mas conquistámos tudo isso com grande dose de sofrimento. E houve por detrás a escravatura, o extermínio de judeus não apenas no Holocausto. Temos de mostrar que aprendemos a lição e que há uma obrigação de passar essa lição a outras pessoas, ao mesmo tempo que devemos conhecer a sua história. Isto é uma partilha.”