Música

O jazz de Nubya Garcia na maior enchente do Milhões deste ano

A saxofonista baseada em Londres reafirmou o estatuto de promessa do jazz actual num dia em que o metal esteve em destaque no festival barcelense, que voltou a receber uns Electric Wizard mais apáticos, 8 anos depois da primeira vez.
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O Milhões de Festa é um festival feito de palcos num palco maior que é Barcelos, que de há uma década para cá, por altura desta celebração da música por descobrir, funde-se com a empreitada mais ambiciosa levada a cabo pela promotora Lovers & Lollypops. Depois de uma sexta-feira mais tímida, no sábado sentiu-se pela primeira vez, desde que arrancou na quinta-feira, que a cidade abraçava algo maior.

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O mote para a edição deste ano, a 11.ª, foi lançado com alguma ironia. “A tradição já não é o que era”, bateu o pé a organização. Mas apenas é assim no que às datas da realização do evento diz respeito. De Julho passaram para Setembro. Tudo o resto mantém-se inalterado.

E é tradição que, pelo menos, num dos dias, um dos palcos, o Taina, seja entregue às sonoridades mais pesadas, não estivesse encarregue pela programação a promotora responsável pela organização do SWR Metalfest, que assenta arraiais em Barroselas, Viana do Castelo, há mais de duas décadas, para montar o evento mais icónico dedicado às sonoridades mais extremas do metal.

Este ano repetiu-se, e em dia marcado pelo regresso ao Milhões de um dos cabeças-de-cartaz deste dia, os Electric Wizard, foi no palco onde a música ao vivo se alia a tainadas feitas à base de petiscos do Alto Minho que começou a festa propriamente dita em direcção a uma noite de peso marcada pela actuação do doom psicotrópico dos norte-americanos, já referidos, que foram engolidos pelo jazz elegante e promissor da saxofonista Nubya Garcia, que abriu caminho para a fúria sónica do duo de galegas Bala.

E é nas ruas de Barcelos que se fazem os primeiros ensaios para o que se passará mais tarde dentro do(s) recinto(s). Em contraste com o dia anterior, a Rua da Palha, epicentro agregador de massas antes de embarcarem para a exploração sonora que o cartaz oferece, concentra muitos dos forasteiros. É o Bar do Xano, um dos sítios de paragem obrigatória do público do festival, que, agora com a ausência do Xispes, conhecido pelos seus panados de proporções generosas, encerrado desde o início do ano passado, se afirma como ponto de retiro oficioso do Milhões.

Com a certeza de que a cidade ainda continua a servir de extensão para o festival, como também prova o concerto dos Vaiapraia e as Rainhas do Baile, no Coreto do Jardim Velho, seguimos para um dos palcos que marca todo o percurso do festival – o da Piscina.

Música, sol e mergulhos, regados a líquidos de uma selecção onde raramente entra água, à excepção da que ocasionalmente salpica da área reservada a banhos. Ao mesmo tempo está em palco a produtora Afrodeutsche, aplicada numa performance pintada por uma electrónica apoiada em sintetizadores.

A dedicação metaleira

Fiel, tradicional e dedicado como sempre foi, o público do metal afasta-se desta área para se concentrar no palco Taina. O final de tarde e o início da noite são para ser passados ali, na companhia do som mais sujo que o género pode oferecer.

Os bracarenses Pé Roto adiantam-se para um slugde doom “do poço”. São eles que o rotulam assim. Confirmamos que o é, mas podia ser mais do que isso, se não optassem por seguir uma fórmula gasta e datada. Não é que neste espaço não haja mais lugar para novas propostas, porém, falta-lhes o factor diferenciador fundamental para que não sejam esquecidos ou confundidos com os congéneres. Se não sentirem essa pressão para inovar, tudo certo. Aos que estão mais familiarizados com o género, não surpreenderão.

Dentro do mesmo espectro, mas mais fuzzy, os portuenses Greengo coleccionam outro tipo de argumentos. A fórmula é simples e directa. A dupla cativa pelos riffs de baixo distorcido duros, mas ao mesmo tempo inventivos, que, apesar de densos, não deixam no ar a ideia de que se está a ouvir sempre a mesma música. A bateria, marcada e intensa, cumpre os requisitos. Há quem lance a questão: “Para que são necessárias guitarras quando o resultado é este”. Neste caso particular, concordamos.

Com a área do palco Taina bem composta, como já estava quando começou a primeira banda, entra uma das instituições do grindcore galego – os Nashgul, quase a completar duas décadas. São presença habitual em Barroselas e representam o lado mais conservador do género. Sem subterfúgios espalhafatosos seguem com sucesso os mesmos passos dos lendários Napalm Death, um dos fundadores desta sonoridade directa e feroz. Optam por riffs de guitarra e ritmos rápidos bem contrabalançados com momentos mais dados ao groove, sem comprometer o legado de um estilo que nos últimos anos se foi abrindo a uma variante mais infantil e festeira.

A luz do jazz venceu as trevas

Com trabalho adiantado durante a tarde, os Electric Wizard saberiam que garantiriam grande parte do público que se deslocou a Barcelos. Têm álbum novo, Wizard Bloody Wizard, e vinham pela segunda vez ao Milhões – a primeira foi em 2010. Os britânicos são incontestavelmente um dos nomes de referência do doom feito a partir da década de 1990 e fazem parte dos que abriram caminho para o lado mais denso do género. É inegável o contributo que deram dentro da corrente mais negra do doom. Porém, menos disponíveis do que há oito anos, limitaram-se a cumprir calendário e ficaram-se por uma actuação mediana com um alinhamento longe do efeito surpresa.

À excepção de See you in hell, esqueceram-se que têm novo disco e optaram por revisitar material já testado para embarcar na sessão habitual de apologia às drogas, pintado pelo universo das trevas e de algum erotismo herético presente nas projecções que acompanharam o concerto. Para gáudio dos fãs mais antigos terminaram com Dopethrone, The chosen few e Funeralopolis.

Tudo isto teria sido empolado se horas antes não tivesse passado pelo mesmo palco – Milhões – uma massagem ao cérebro chamada Nubya Garcia. A saxofonista baseada em Londres já muitas vezes teve que responder à mesma questão. Perguntam-lhe sempre se é vocalista. Não é, não quer ser, não tem que ser. E não precisa, quando usa o saxofone sem deixar ficar mal uma das suas maiores influências – John Coltrane. De raiz jazz, vai ao afrobeat ou até ao soul com a elegância e a subtileza necessárias para que a mensagem seja entregue sem ruído.

Em palco esteve acompanhada por um trio – teclas, bateria e contrabaixo – seguro e tecnicamente irrepreensível. É seguramente uma das promessas do jazz actual e a sua generosidade poderá abrir-lhe portas para novos voos. Era a figura de destaque, estava a tocar em nome próprio, mas não foi por isso que deixou de dar espaço aos músicos que dividiam o mesmo palco para arriscarem em linhas de teclado intrincadas, um contrabaixo imprevisível e uma bateria solta e inspirada. Na base do que faz está todo o legado deixado pela sua maior influência, que, sem pudor, a deixa ao sabor de outras elementos estéticos em direcção a uma fusão que lhe dá personalidade. Falta o mundo descobri-la.

Em noite de regresso dos Electric Wizard, voltaram também as galegas Bala, que tocaram no palco Lovers. Composições apoiadas apenas em guitarra e bateria, lembram umas L7 em esteróides. Longe do memorável, justificaram a promoção do palco Taina, onde tocaram no ano passado, para um maior.