Editorial

O perfume de eleições no conflito Governo-professores

Um fracasso clamoroso como o desta sexta-feira só pode, por isso, ter um significado: o conflito saltou para o domínio da campanha eleitoral.

O Governo e os sindicatos dos professores voltaram a reunir-se e voltaram a falhar um acordo. Depois de meses a fio de posições intransigentes, ameaças veladas e exigências irrealistas, o conflito enquistou-se e deu lugar a um indesejável e incómodo buraco negro da política. Impulsionados pelos apoios do Bloco e do PCP e fortalecidos pelas expectativas dos docentes em recuperar na íntegra o tempo perdido, os sindicatos sentem-se com músculo para qualquer extravagância. Limitado pelas cautelas das Finanças e preso à promessa de não ceder a uma exigência que enterraria de vez as metas do programa de estabilidade, o Governo dispõe-se a sofrer os custos de uma greve no início das aulas. Todos acabarão por perder e, principalmente, os alunos e a escola pública acabarão por perder.

Uma solução de compromisso seria bom para o país e para as duas partes envolvidas. Em curso está uma guerra na qual só haverá vencidos. Quem mais tem a perder são os sindicatos e os professores, que se arriscam a ser vistos como uma classe intransigente que olha em exclusivo para os seus interesses sem olhar para os interesses gerais.

Ninguém perceberá que os professores queiram hoje recuperar todo o tempo perdido quando jamais lhes foi prometida a devolução dessa perda no momento em que o congelamento foi decidido. Ninguém entenderá que hoje façam tanto barulho depois de estarem em silêncio entre 2011 e 2017. Ninguém perceberá que queiram receber tudo o que perderam quando a factura dessa perda é insustentável para as contas do país.

No outro lado da barricada, o Governo não sairá incólume do processo. Ainda que formalmente António Costa tenha razão quando diz que o Governo nada prometeu aos sindicatos, é verdade que o PS apoiou na Assembleia uma resolução que ia ao encontro das suas exigências. Se esta culpa no cartório não basta para que o Governo se subjugue e sacrifique a estabilidade das contas públicas, devia forçá-lo a perceber que o seu voluntarismo legitima em parte a tese dos sindicatos.

Num processo em que ninguém foi inocente nem absolutamente culpado, era imperativo encontrar uma solução que acudisse aos interesses das partes sem pôr em causa o interesse do país. Um fracasso clamoroso como o desta sexta-feira só pode, por isso, ter um significado: o conflito saltou para o domínio da campanha eleitoral.