Ataques russos no último bastião rebelde da Síria "são aviso"

Teme-se uma ofensiva na província, o que pode “criar uma emergência humanitária numa escala ainda inédita nesta crise", diz a ONU.

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Soldado do exército de Bashar al-Assad a postos em Idlib Sana Sana

A aviação russa e síria aumentaram os ataques na província de Idlib, o último bastião rebelde do país, no Norte da Síria. O aumento foi visto como “um aviso”.

A província tornou-se o local para onde população e apoiantes de vários grupos rebeldes que não quiseram ficar a viver nas zonas sucessivamente conquistadas pelo regime de Bashar al-Assad e os seus aliados em ofensivas onde organizações como a ONU suspeitam de crimes de guerra, e têm-se somado os avisos para o potencial de ataques na província onde estarão cerca de 7000 combatentes rebeldes e quase três milhões de civis (o dobro da população nos anos anteriores à guerra).

Num artigo anónimo no diário britânico The Guardian, um habitante “encurralado” em Idlib contava como muitos deslocados de outras províncias, como ele, vivem sem condições em campos sem água, electricidade ou esgotos, e enfrentam agora a possibilidade não só de ataques (estes têm sido diários) mas de uma ofensiva em larga escala. “Já vi dezenas de pessoas serem desfeitas à minha frente, ou ficarem enterradas vivas sob escombros de edifícios, coisas que nenhum ser humano deveria ver. E agora enfrento a possibilidade de ter de fazer tudo outra vez” e de “poder vir a perder amigos, família e até talvez a minha própria vida”.

Na véspera, numa reunião com o Presidentes russos, Vladimir Putin, e o iraniano, Hassan Rohani, o Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, viu recusada a sua proposta para um cessar-fogo. Putin insistiu que a retirada de terroristas de Idlib era a sua prioridade.

Os dois principais grupos armados em Idlib já disseram que vão lutar juntos: trata-se do HTS (antiga Frente al-Nusra, inspirada no grupo terrorista Al-Qaeda) e da Frente de Libertação Nacional, uma coligação de vários grupos armados que são considerados parte da oposição moderada, diz a emissora Al-Jazira. Há ainda grupos mais pequenos como de combatente uígures e dissidentes da HTS.

Mas o que tem acontecido é que nos ataques contra províncias dominadas por grupos rebeldes, quer sejam islamistas ou não, os civis têm sido repetidamente atingidos – individualmente ou em locais como hospitais.

Habitantes da província de Idlib dizem que as vítimas dos ataques dos últimos dias têm sido civis.

“Idlib tem o potencial de criar uma emergência humanitária numa escala ainda inédita nesta crise”, disse John Ging, o mais alto responsável pela Organização da ONU para os Assuntos Humanitários.

Já Erdogan prometeu no Twitter que a Turquia “não irá ficar a margem a assistir nem irá participar neste jogo”. “Idlib é uma bomba-relógio”, disse um porta-voz de Erdogan este sábado. “Podemos evitar que rebente e começar um novo processo n Síria se a comunidade internacional começar a tratar a sério a guerra na Síria”.

Segundo o analista Nichola Heras, do Center for New American Security, com os ataques de sábado “a Rússia está a lembrar à Turquia que precisa de se manter nas suas boas graças se quer evitar uma catástrofe dolorosa no noroeste da Síria”. Segundo os acordos em vigor, a Turquia é a responsável pela zona e Moscovo está a pressionar para uma transferência de poder pacífica da província, diz o analista. Uma ofensiva iria levar ainda mais uma onda de refugiados a território turco.

Temendo o que a ofensiva possa implicar, os Estados Unidos discutem o que fazer caso haja um novo ataque com armas químicas. A última vez que houve suspeitas de que teria sido usado armamento proibido, em Douma, em Abril, os EUA lançaram, com o apoio do Reino Unido e França, um ataque contra instalações sírias que poderiam servir para o fabrico de armas químicas.