Opinião

Os vinhos de sede e as tentações da lei seca

Este texto não exorta ao alcoolismo, que é um flagelo terrível. O vinho, como qualquer bebida alcoólica, deve ser mesmo bebido com moderação. Mas, que diacho, moderação não tem que ser sinónimo de lei seca!

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José Maria Ferreira

 Anda por aí uma moda, meio alternativa, que cultiva a produção e o consumo de um vinho a que poderíamos chamar de “sede”. Um vinho austero de álcool e de gosto franco e singelo, tributário de uma viticultura amiga do ambiente e de uma vinificação minimal, com pouca intervenção humana e tecnológica, pouca ou nenhuma barrica nova e com adjuvantes enológicos, como o sulfuroso, reduzidos ao mínimo. Há quem lhe chame vinho “natural”, orgânico”, “rock and roll”, “ à antiga”. Cabem lá muitos nomes.

A tribo destes vinhos tem por trás uma forma diferente de encarar a vitivinicultura, ambientalmente mais conscienciosa, e um estilo de vida com um pouco de hippie, de freak e também de “urbano cansado da vida citadina que descobre os prazeres da vida relaxada do campo”. É uma tribo com a qual simpatizo verdadeiramente. Desde logo porque é bastante solidária na partilha de experiências e de vinhos e também porque não está no negócio com o mesmo instinto competitivo do produtor dito convencional. É tudo mais paz e amor. Também aprecio o contributo que tem tido na recuperação de práticas de vinificação tradicionais e no resgate de castas, e até de regiões, já meio esquecidas. E gosto do perfil do vinho, embora nem todo seja bom — há vinho mau em todos os lugares e comunidades. Gosto, acima de tudo, do conceito, da possibilidade de beber vinhos de aparência simples mas bastante puros e, por vezes, até bem originais. De beber alegremente, sem muita etiqueta e também sem muito esforço intelectual e digestivo. Chamo-lhes vinhos de “sede” porque, sendo vinhos de pouco álcool e, por regra, não muito concentrados e extraídos, se bebem facilmente, quase como quem bebe água ou cerveja. Puxam tanto ao consumo que até há quem os comercialize em garrafas de um litro.

São vinhos nas antípodas daquele que Robert Parker celebrou e mundializou. O guru americano pontuava muito bem os vinhos potentes, carnudos, volumosos e com taninos bem polidos por longos estágios em barrica. O seu gosto impôs-se no mundo e foi um eldorado para regiões como a Califórnia, Bordéus ou o Vale do Rhône. Para Parker e os seus apoiantes, a sua crítica teve sucesso porque o consumidor gostava dos vinhos que ele pontuava bem. Para os seus detractores, Parker, através das suas pontuações, levou a uma padronização do vinho e do gosto, notória em países como a Argentina, o Chile, a Austrália e Espanha.

Robert Parker reinou durante pelo menos três décadas. Um período que pode ser fixado entre 1983, quando classificou a colheita do ano anterior de Bordéus como antológica, contra a opinião geral dos seus pares (o tempo deu-lhe razão), e 2012, quando vendeu a sua revista, a Wine Advocate, a investidores de Singapura.  Os vinhos volumosos, potentes, espessos e suculentos, com estágio em barricas novas, continuam a ser bem pontuados, nacional e internacionalmente, mas o seu consumo está em declínio e a associação de um produtor ou de um tipo de vinho a Parker deixou de ser um poderoso cartão-de-visita para os sommeliers que decidem as compras dos restaurantes e das grandes cadeias de distribuição. Agora há mais tolerância com os vinhos menos graduados e abertos de cor. A elegância, a delicadeza e a frescura passaram a ser parâmetros com a mesma relevância, ou até mais, da potência e da concentração. O mundo está a virar mais à Borgonha.

É difícil decifrar as razões desta mudança. É possível que Bordéus e o que este estilo representava no mundo estejam a pagar o preço da “parkerização”. A hegemonia e o pensamento único tendem sempre a criar repulsa. Mas o motivo maior talvez seja a crescente preocupação do consumidor com os efeitos do álcool na saúde. Um vinho menos alcoólico faz menos mal. Por outro lado, para as novas gerações, a pegada ambiental do vinho também conta cada vez mais. Daí que vinhos menos alcoólicos e mais “naturais” sejam a receita certa para cada vez mais consumidores.

Mas é aqui que entra uma curiosa ironia. Os tais vinhos “de sede”, por serem gulosos e digestivos, estimulam o consumo. Basta ver como os membros da tribo bebem, seja em feiras, seja em eventos mais ou menos fechados. Os dias parecem nunca acabar, tal como a boa música e o vinho. São bebedeiras mais saudáveis, com menos químicos, mas não deixam de ser bebedeiras. Ou seja, os vinhos de sede chocam com as crescentes campanhas públicas de apelo à moderação do consumo de álcool.

No fundo, são vinhos contraculturais. Por um lado, surgem em resposta à globalização e à “parkerização” do vinho; por outro, fogem da higienização que o Estado quer impor à sociedade, baseada nos estudos científicos que, quase semanalmente, são publicados, alertando para os efeitos que o consumo de álcool, mesmo moderado, pode ter sobre a saúde. Para a tribo do vinho de sede, o valor primordial é o do prazer que o vinho proporciona. Se o vinho não tivesse álcool, se não fosse “tóxico”, não seria vinho, não seria a extraordinária bebida social e cultural que é. Saravá!

Tudo o que é excessivo faz mal, mas a medida da moderação, desde que os direitos dos outros não sejam beliscados, deve ser determinada por cada um de nós e não pelo Estado ou pela religião. Além do mais, que adianta morrer saudável?

(Atenção controladores dos costumes: este texto não exorta ao alcoolismo, que é um flagelo terrível. O vinho, como qualquer bebida alcoólica, deve ser mesmo bebido com moderação. Mas, que diacho, moderação não tem que ser sinónimo de lei seca!)