Futebol

Careca, o “meio Eusébio, meio Pelé” do Sporting: “Essa frase prejudicou-me um pouco”

Chegou ao futebol português com o estatuto de internacional brasileiro, contemporâneo de Romário e Bebeto, mas nunca se conseguiu afi rmar em Alvalade. O ex-atacante não se arrepende de nada, não guarda mágoas do passado e, em conversa com o PÚBLICO, até perguntou pelos antigos colegas.
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GUSTAVO ALEIXO/CRUZEIRO E.C.

O primeiro contacto não é fácil. Em Belo Horizonte, são menos quatro horas do que em Lisboa e Hamilton de Souza tem o seu trabalho para fazer nos escalões de formação do Cruzeiro, reuniões, treinos e jogos. A conversa tem sempre de ficar para tarde, mas há um dia em que as agendas se alinham e Hamilton concorda em desfiar algumas memórias escolhidas, das mais recentes às mais antigas, de toda uma vida ligada ao futebol. Mas quem é Hamilton de Souza? Quem via futebol nos anos 1990 conhece-o como Careca, um atacante brasileiro que chegou a Portugal apresentado pelo então presidente do Sporting, José Sousa Cintra, como “meio Eusébio, meio Pelé”.

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“A sério, o Sousa Cintra voltou a ser presidente do Sporting?”, é a resposta de Careca quando lhe dizemos que Cintra voltou a liderar temporariamente os destinos do futebol “leonino”, 28 anos depois de o ter ido ver a Belo Horizonte e o ter contratado ao Cruzeiro para ser uma das figuras do Sporting versão 1990-91. “Só tenho coisas boas para dizer dele e desejo-lhe toda a sorte do mundo. Admiro-o muito”, conta ao PÚBLICO o antigo atacante, hoje com 49 anos.

E aquela frase que o comparava a Eusébio e Pelé? “A frase foi mal interpretada. O que ele queria dizer é que eu tinha algumas semelhanças físicas com o Eusébio e o Pelé. Estavam lá os jornalistas, tiraram foto, eu era um garoto, e interpretaram de outra maneira. Acho que essa frase me prejudicou um pouco”, admite o agora auxiliar da equipa de sub-14 do Cruzeiro de Belo Horizonte.

Careca era considerado um dos mais promissores jogadores brasileiros, um médio ofensivo de grande técnica e visão, mas que estava longe de ser o futebolista mais rápido do mundo. Revelado pelo Cruzeiro, Careca fazia parte de uma geração que estava a ser preparada para ser o futuro da selecção brasileira e que já tinha dado nas vistas nos Jogos Olímpicos de 1988, perdendo apenas na final para a União Soviética.

“Era preciso começar a fazer a mudança na selecção, a pensar nas Copas de 1990 e 1994. A equipa olímpica era muito boa, só tinha craques, eu, o Romário, o Bebeto, o Taffarel, o Jorginho, o Aloísio, que jogou no FC Porto”, recorda Careca sobre esta selecção vice-campeã olímpica — que também teve outros jogadores que passaram pelo futebol português, como o ex-sportinguista André Cruz, os ex-benfiquistas Valdo e Ricardo Gomes e Zé Carlos, guarda-redes que passou por Farense, Vitória de Guimarães e Felgueiras.

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Mas nem todos fizeram a transição. Careca foi um dos que ficaram pelo caminho e já não foi a nenhum dos dois Mundiais que se seguiram, o Itália 90 e os EUA 94, onde o Brasil foi tetracampeão. “Não estive nessa selecção porque mudou tudo. Mudou a direcção da CBF [Confederação Brasileira de Futebol], mudou a direcção técnica, e eles optaram por outros”, lamenta o avançado, que, ainda assim, conseguiu dez internacionalizações pela principal selecção do Brasil.

Foi com o estatuto de internacional brasileiro que Careca aterrou em Alvalade para jogar no Sporting de Marinho Peres em 1990, e o avançado até teve alguns bons momentos na primeira época. Careca não se lembra muito bem, mas nós refrescamos-lhe a memória: marcou na estreia, frente ao Vitória de Guimarães, marcou na terceira jornada (Salgueiros), na quarta (Boavista) e na quinta (Belenenses), contribuindo para um tremendo arranque de época do Sporting, 11 vitórias consecutivas no campeonato.

Depois, o Sporting foi caindo de produção e Careca também. O que aconteceu? “Aconteceu o mesmo que acontece a um argentino quando vai para o Brasil, ou quando um brasileiro vai para Itália. Demorei a adaptar-me e, depois, não tive sequência e fiquei muito tempo sem jogar”, recorda Careca, que, ainda assim, terminou a época com oito golos, o segundo melhor marcador da equipa no campeonato, apenas atrás dos 22 de Fernando Gomes.

Na segunda época, com a afirmação de um génio búlgaro chamado Balakov, Careca jogou bastante menos e foi para o Famalicão, onde também não foi feliz. Talvez a sua melhor memória portuguesa seja mesmo o nascimento do filho, Hamilton Júnior, que também deu em futebolista e que também é conhecido como Careca (e que chegou a representar o Estrela da Amadora). Regressou ao Brasil, para o seu Cruzeiro, e ainda teve passagens pelo Ponte Preta, Atlético Mineiro e Coritiba, entre outros, terminando a carreira em 2000, com 32 anos.

Há duas memórias, uma do Sporting e outra do Cruzeiro, das quais Careca fala com entusiasmo, os tempos em que assistiu ao “nascimento” de dois dos maiores craques do futebol mundial das últimas décadas, Luís Figo e Ronaldo “Fenómeno”, o primeiro a despontar no Sporting, o segundo um adolescente furacão na primeira equipa do Cruzeiro. “O Ronaldo era muito mais fenómeno quando tinha 16 anos no Cruzeiro do que foi no Real Madrid. E o Figo no Sporting também era um fenómeno”, recorda.

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Careca é um homem de frases curtas, mas vai-se entusiasmando ao longo da conversa e, no final, já fala com outro à-vontade, com muitas perguntas pelo meio. “O Sousa Cintra é o favorito para as eleições? Ah, é só interino e não é candidato.” “O Sporting está interessado no Raniel [avançado do Cruzeiro]? Não sei, mas ele é muito bom.” Depois, vêm as perguntas sobre os antigos colegas no Sporting. “O Figo mora em Lisboa? E o que é que ele anda a fazer? E o Venâncio? E o Ivkovic? E o Peixe? E o Litos? E o Oceano? E o Mário Jorge? E o Cadete?”

Depois de ouvir as respostas, sente-se o sorriso do outro lado da linha. “Muitos desses meninos ficaram ligados ao futebol, ainda bem”, diz Careca, aquele que nunca foi Eusébio nem foi Pelé, mas sem mágoa nenhuma. E é essa a mensagem que passa aos jovens candidatos a craques que lhe passam pela frente. “É preciso saber lidar com o sucesso e com o fracasso. São momentos. Não corre bem num sítio, mas dali a seis meses vira ídolo noutro 'time'.”