75º Festival de Veneza

Roma, de Alfonso Cuarón, vence o Leão de Ouro de Veneza num palmarés de género oscarizável

É a estreia da Netflix num prémio desta grandeza, num palmarés que parece ter também apostado em filmes que possam chegar aos Óscares, que tem sido o sortilégio de Veneza nos últimos anos.
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Ei-lo, o esperado Leão de Ouro para Roma, o confronto de Alfonso Cuarón com a infância num bairro da burguesia da Cidade do México, nos anos 70. É um resgate operado pela memória: Cuarón olha para trás e mostra o que no passado não conseguiu perceber: a inexistência social de uma criada da sua família, a ama que o criou – no filme é uma rapariga chamada Cleo, hoje é uma senhora de idade que faz anos neste dia de palmarés da 75.ª edição de Veneza.

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Não se vê como o mexicano Guillermo del Toro, presidente do júri, e a sua equipa, os actores Christoph Waltz, Trine Dyrholm e Naomi Watts e os realizadores Nicole Garcia, Sylvia Chang, Taika Waititi, Malgorzata Szumowska e Paolo Genovese, poderiam ter feito de outro modo. O favoritismo estava anunciado, público e imprensa ficaram com o filme ao longo de duas semanas. É o melhor do cineasta, acompanhado talvez por outro dos seus filmes mexicanos, E a Tua Mãe Também (2001). Para isto acontecer foi necessário sacrificar o outro imponente filme do concurso, Nuestro Tiempo, de Carlos Reygadas. Teria sido uma verdadeira revolução mexicana!

Ei-lo, então, a estreia da Netflix, plataforma de streaming, num prémio desta magnitude. A Netflix quer prestígio, quer “autores” (não trouxe a Veneza o mítico e estilhaçado The Other Side of the Wind, de Orson Welles?), quer que os seus filmes se distingam do mar de séries. Isto serve-lhe. Mas… a questão é saber se o Leão e a euforia em torno de Roma vão reabrir o crispado dossier que opõe os distribuidores ao que consideram ser um desprezo pela Netflix do perfil dos filmes em sala, fazendo a plataforma de streaming (re)definir a sua política e contemplar uma estratégia mais empenhada. Até agora, os filmes Netflix têm estreia comercial limitada no dia em que são disponibilizados online. Não se sabe, por exemplo, qual a estratégia para Roma, se a sua distribuição em sala será apenas simbólica, para se poder qualificar para os Óscares.

Del Toro disse, em conferência de imprensa, que o seu júri apreciou os filmes por aquilo que estava “dentro dos enquadramentos”, não por uma agenda. A verdade é que, numa edição criticada por ter apenas em concurso uma obra de uma realizadora, premiou duas vezes esse filme: The Nightingale, da australiana Jennifer Kent. Que incentivou “todas as mulheres que estão por aí que façam e mostrem os seus filmes”, porque o feminino é “mais poderoso e mais regenerador”. Recebeu o Prémio Marcello Mastroianni para o jovem actor Baykali Ganambarr e o Grande Prémio do Júri. O filme tem os seus adeptos, mas também há gente que resiste sem cerimónias a este gothic australiano com fantasmas de western que conta uma história de emancipação na Austrália da violência colonialista. De uma eficácia inegável, não tem pernas para afastar a sua crueldade do exploitation e da involuntária paródia.

Willem Dafoe e Olivia Colman, como Melhor Actor (At Eternity’s Gate) e Melhor Actriz (The Favourite), corporizam a energia dos respectivos filmes. Ele, que há 30 anos esteve em Veneza a apresentar A Última Tentação de Cristo, de Scorsese, volta a ser figura crística como Vincent Van Gogh. Disse o actor: se Van Gogh era a sua pintura, o filme “é” Julian Schnabel. E Julian Schnabel diz com a câmara que o seu filme “é” uma obra de arte. Então Van Gogh “é” Julian Schnabel? Que aguente quem conseguir. Mas ao menos o júri parou em Dafoe.

Ela, Olivia Colman, é uma das três intérpretes, qualquer delas “premiável”, de The Favourite, o filme sobre três senhoras mal comportadas da corte inglesa dos anos de 1702-07, a rainha Anne (Olivia Colman), a sua confidente, Sarah, Duquesa de Marlborough (Rachel Weisz), e a prima desta, Abigail (Emma Stone), que chega ao palácio caída em desgraça. Todas elas agarram as personagens com brio e não só resistem como até se alimentam deste Lanthimos mais linear do que nunca, mais próximo do filme BBC do que nunca (com mais calão e sexo…), e que tem uma única e obsessiva manobra expressiva: uma angular para desfigurar. Ele haverá gostos para tudo, o júri não se ficou por Olivia, como se ficou por Dafoe, e deu ao filme o segundo prémio mais importante na hierarquia do palmarés, o Grande Prémio do Júri.

E é claro que, como se repara, até aqui estamos em terreno de “oscarizáveis”, o sortilégio de Veneza nos últimos anos.

Compreende-se pouco o prémio de melhor argumento aos Coen, visto que os seis episódios da antologia de western The Ballad of Buster Scrubbs vão definhando em interesse, não restando grande coisa a não ser Joel e Ethan a fazerem festas ao cadáver. Jacques Audiard talvez se tenha divertido com os seus cowboys –? The Sisters Brothers é um filme em inglês do realizador frances –, mas não se encontra em nenhum canto do filme mostras de visceralidade. Passaporte para Hollywood? Não era razão para lhe darem o prémio de melhor realizador.

Mas era tudo esperado, os grandes gestos do júri e os seus “peccadillos”.

Os prémios

Leão de OuroRoma, de Alfonso Cuarón

Leão de Prata, Grande Prémio do JúriThe Favourite, de Yorgos Lanthimos

Leão de Prata para o Melhor Realizador – Jacques Audiard, The Sisters Brothers

Taça Volpi para a Melhor Actriz – Olivia Colman, The Favourite, de Yorgos Lanthimos

Taça Volpi para o Melhor Actor – Willem Dafoe, At Eternity’s Gate, de Julian Schnabel

Prémio do Melhor Argumento: Joel e Ethan Coen, por The Ballad of Buster Scrubbs

Prémio Especial do Júri – The Nightingale, de Jennifer Kent

Prémio Marcello Mastroianni para um jovem actor ou actriz emergente – Baykali Ganambarr, por The Nightingale

Na Secção Venezia Classici, foram atribuídos prémios a The Great Buster, de Peter Bogdanovich, como Melhor Documentário sobre Cinema (é um filme sobre Buster Keaton), e, como Melhor Restauro, ao trabalho sobre A Noite de São Lourenço (1982), de Paolo e Vittorio Taviani. O prémio FIPRESCI, atribuído pela federação internacional da imprensa cinematográfica, foi para Sunset, segunda longa-metragem do húngaro László Nemes (O Filho de Saul). O júri do Leão do Futuro, prémio Dino de Laurentiis, que distingue uma primeira-obra, escolheu The Day I Lost My Shadow, da cineasta síria Soudade Kaadan, que ela descreveu como “uma carta de amor” ao seu país.