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Aldeias de mar. “Mais ano, menos ano” a arte xávega acaba na Vagueira

É uma pesca artesanal, bonita de se ver, mas há quem receie que ela venha a desaparecer. Na principal praia de Vagos, já só resta um barco em actividade e, este ano, ele tem passado demasiado tempo em terra
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As redes de pesca estão, há vários dias, amontoadas nos atrelados dos tractores. Ao sol e ao vento. Tal como o casco do Novo S. José, que de tão seco que está acusa o cenário indesejado: o mar não tem estado bom para a arte xávega. Os turistas insistem em perguntar se os homens não vão ao mar, certamente sem terem consciência de que quem mais sofre ao ver o barco de oito metros a descansar no areal são eles próprios. “Este ano, temos passado mais tempo parados que a ir ao mar”, desabafa José Silva, um dos homens que integra a única companha que se mantém em actividade na praia da Vagueira, concelho de Vagos. “E certamente a última. Quando nós terminarmos, acabou-se”, vaticina, por seu turno, o seu irmão Alberto.

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Por “nós” entenda-se José e Alberto, os seus respectivos filhos, Miguel e Igor, e o patriarca da família, João Carlos Silva, mais conhecido por João da Murtosa, que aos 84 anos de vida continua a acusar uma enorme vontade de pescar. Em terra, o trabalho é assegurado por Maria Dorinda e Maria Nazaré, mulheres de José e Alberto, respectivamente. “Mas se for necessário também vão para o mar. Têm cédulas marítimas”, garante o ancião que, no fundo, tem sido o mais poupado nas idas do Novo S. José ao mar.

Os filhos entendem que já está na altura de ele descansar mas, mesmo ficando em terra, João da Murtosa – toda a gente o conhece por este nome – não pára. “Às vezes mando-lhes um berro, porque vejo que estão a tirar mal a rede para fora do mar. Estão a puxar contra a maré e assim não dá”, conta, a propósito dos raspanetes que vai ecoando, uma ou outra vez, a partir do areal. “Mas só na praia. Em casa não se ralha; em casa é para dar carinho”, afiança o homem que deve a sua alcunha à sua terra de nascença (a Murtosa, concelho igualmente pertencente à região de Aveiro) e que só aprendeu a ler e a escrever aos 38 anos, “na escola da noite”.

Pai de oito filhos – teve dez, mas dois já morreram -, “seis raparigas e dois rapazes”, avô de 17 netos e 18 bisnetos, João da Murtosa conhece os meandros da arte xávega como muito poucos. Já conta com quase 50 anos de dedicação a esta pesca artesanal, na qual os pequenos barcos enfrentam as ondas da rebentação para largar as redes de cerco, num semi-círculo cujos extremos são depois puxados a partir da praia. “Quando comecei ainda puxava as redes à mão. No segundo ano, já comecei a trabalhar com uma junta de bois para puxar as redes para terra”, recorda – hoje, essa força é assegurada por tractores.

Também nesses tempos “os barcos eram movidos a remos”. “Não havia motores. Era tudo à força de broa e de copos de tinto”, assegura o ancião, acrescentando que, nessa altura, “eram 22 a 24 pessoas” na embarcação.  “E, de todas elas, quem levava mais medo era eu. Como estava a governar o barco era o responsável por toda aquela gente”, desabafa. Não esconde que apanhou alguns sustos. O pior de todos foi o que vivenciou com os dois filhos, “já lá vão uns sete anos”. “Gritei pela Nossa Senhora, para que ela fosse mais alto que o mar”, evoca. Mais do que com as memórias dos momentos de perigo, é ao falar da fé em Deus que se emociona. Sem sentir vergonha das lágrimas que não conseguiu evitar.

“Mais ano, menos ano, acaba”

Tal como os filhos, João da Murtosa acredita que a arte xávega não tardará muito a desaparecer daquelas bandas. Na vizinha praia de Mira, “ainda há quatro barcos a trabalhar”, na praia do Areão, ali mesmo ao lado, “só há um”, e “na Vagueira, é o que se pode ver”. “A família do Maltez deixou e fiquei só eu e os meus filhos”, lamenta. “Mais ano, menos ano, acaba”, avisa o velho pescador. A culpa de tudo isto, explica, é do peso de encargos que as companhas têm de assumir e que tornam a actividade cada vez menos rentável. “São seguros, vistorias, matrículas, impostos e, ao contrário de antigamente, não podemos vender o peixe na praia. Tem de ir à lota”, argumenta.

Ainda que muitas vezes se evoque a arte xávega como atractivo turístico – Almada já a integrou no inventário nacional do Património Cultural Imaterial e outros municípios estão a tentar seguir o mesmo caminho -, a verdade é que importaria avançar com uns “uns apoios financeiros” para isso. Quem não deixa de aparecer são os visitantes que vêm concretamente à procura da arte xávega. João da Murtosa e os filhos ouvem os pedidos com toda a atenção mas pouco mais podem fazer além de explicar as razões da paragem. “Não tem havido peixe e nós não podemos andar a perder dinheiro”, assegura Alberto, que tal como o irmão, vai sendo conhecido pela alcunha do pai.

Nos dias em que o mar está a dar peixe, fazem “dois ou três lanços por dia”. “Nos outros, vamos lá uma vez de vez em quando, que a gasolina está cara”, explica, por seu turno, o patriarca. É o único que vive na praia da Vagueira, cada vez mais “tomada” por residências de férias. Os filhos residem nas Gafanhas, não muito longe dali e igualmente bem próximo da água. A ria de Aveiro estende-se ao longo de todas elas, até Mira, e acaba por ser ela a salvação destes e de outros pescadores, quando estão impossibilitados de ir para o mar. “Temos barquinhos mais pequenos e vamos apanhar o que estiver a dar”, conta Alberto. Nos últimos dias, o que tem valido é o berbigão - na zona, chamam-lhe “cricos”. Tanto a ele como ao irmão.

Pais, mães e filhos na ria

Manhã cedo, o Sereia da Ria larga do cais do Porto de Pesca Costeira, na Gafanha da Nazaré, para rumar à pequena ilha localizada de frente para a praia da Barra. Uma viagem curta, que Igor, filho de Alberto da Murtosa, parece conseguir fazer de olhos fechados. Desde pequeno que anda nos barcos. E por vontade própria. A bordo segue também a mãe, Maria Nazaré, além do pai, e a escassos metros de distância navega também o Paula Cristina, com a outra parte da família: José, Maria Dorinda e o filho Miguel.

O berbigão já tinha sido apanhado de noite; agora, era preciso tratar dele. “Temos de o joeirar e limpar”, explica Alberto. A tarefa está mais ou menos mecanizada mas requer força de braços. E de todos eles. Alberto e Maria Nazaré mergulham as joeiras (peneiras) na água da ria, agitam–nas e, depois, verificam se há algum berbigão impróprio. Igor pega nos baldes, com capacidade para 20 quilos, que a mãe e o pai vão enchendo e coloca os berbigões em sacos. No Paula Cristina o ritual repete-se, ali mesmo lado, na pequena ilha de areia que “dá cricos o ano todo”, garante Alberto, e que pela manhã costuma estar apinhada de gaivotas. “Estão à espera que as traineiras cheguem à lota para comer o peixe que cai”, explicam-nos os tripulantes do Sereia da Ria.

Sem parar de joeirar, Maria Nazaré ainda arranja tempo para contar anedotas. Veio parar ao mundo da pesca por amor. Logo ela que, “nem sabia o que era uma caldeirada”, brinca o marido. Oriunda de Águeda, foi passar umas férias à praia e por ali ficou. Já lá vão 23 anos. Hoje, já domina a arte mas confessa que gosta mais de andar na ria do que no mar. A cunhada, Maria Dorinda, leva-lhe uns anos de vantagem – contabiliza já 32 anos de pesca – e parece não ter problemas com o mar. O único senão que lhe encontra é quando ele não dá peixe. E se tem havido anos maus, este está a ser “péssimo”. “Umas vezes é o mar que está mau, outras não há peixe”, desabafa. É ela que assume a tarefa de “fazer a escrita” da pesca e, este ano, “ainda nem encheu um caderno”. “Noutros anos, chegava a preencher três cadernos”, assevera. O marido, José, aponta o dedo a um “cheio a ácido que volta e meia aparece na água”. Poluição ou não, a verdade é que o cenário é atípico. “O que nos valeu foi abrir a apanha do berbigão”, nota.

Volta e meia, a actividade está interdita na ria de Aveiro, portanto, aproveita-se enquanto dá, mas limitados a 200 quilos por dia. Regras são regras e estes pescadores parecem conviver bem com isso. A única coisa que lamentam é a “concorrência desleal” que têm de enfrentar.  “Malta que ainda aí na ria, ilegal, e que só tem lucro. Andam nas lanchas, não têm de pagar nada e é tudo limpinho”, critica Alberto da Murtosa.