China pode ser de novo alvo na guerra comercial de Trump

Período de análise à imposição de mais taxas aos produtos chineses chega ao fim e presidente dos EUA pode aproveitar para concentrar políticas proteccionistas na China.

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Reuters/DAMIR SAGOLJ

Depois de um intervalo de algumas semanas em que a Casa Branca conseguiu chegar a um novo acordo com o México e continua a tentar fazer o mesmo com o Canadá, o ambiente de guerra comercial trazido ao mundo pela presidência Trump pode estar de volta.

Terminou esta quinta-feira o prazo definido pela Administração Trump para que fique concluída a análise à possibilidade de imposição de novas alfandegárias em mais produtos importados da China. E a expectativa generalizada é a de as autoridades norte-americanas optem efectivamente por aplicar novas medidas proteccionistas contra a China, algo que, a confirmar-se, desencadearia a aplicação de medidas retaliatórias por parte de Pequim.

Em análise, desta vez, está a possibilidade de agravamento das taxas – para valores entre os 10% e os 25% - de produtos importados da China num montante que pode ir até aos 200 mil milhões de dólares (173 mil milhões de euros ao câmbio actual). Isto constituiria uma escalada significativa do conflito já que, até agora, as medidas aplicadas pelos Estados Unidos contra a China se concentraram na imposição de taxas mais elevadas nas importações de produtos do sector tecnológico provenientes da China, ascendendo a 50 mil milhões de dólares de importações anuais.

Quando os EUA aplicaram estas primeiras taxas, as autoridades chinesas retaliaram com a imposição de taxas num valor idêntico (50 mil milhões de dólares) de produtos importados pela China aos EUA. E desde esse momento, Donald Trump já manifestou por diversas vezes a vontade de ir mais longe, colocando mesmo a hipótese de agravar as taxas alfandegárias sobre todas as importações chinesas.

É por isso que agora se espera, concluído este período de análise e consulta, que a Administração Trump decida, em alguma medida, voltar a passar das palavras aos actos, elevando taxas em produtos, que podem ir de frigoríficos, a talheres ou têxteis.

O passo seguinte, já se sabe com uma grande certeza, seria uma nova retaliação chinesa. Esta quinta-feira, o porta-voz do ministério do comércio chinês reafirmou que o país estará imediatamente preparado para impor taxas alfandegárias sobre mais 60 mil milhões de dólares de produtos norte-americanos caso se confirme a subida de taxas do lado dos EUA.

Nas últimas semanas, a Casa Branca tem dado sinais, depois das tréguas acordadas com a UE, de querer também encontrar um entendimento com os seus principais parceiros comerciais dentro do continente americano. Um acordo foi assinado com o México e estão a decorrer negociações com o Canadá, tendo Trump garantido que, para os interesses norte-americanos, serão melhores acordos do que o existente actualmente (NAFTA).

A leitura que tem vindo a ser feita é a de que Trump está a tentar concentrar o seu esforço de guerra comercial na China. Não só porque é o país com o qual a balança comercial norte-americana é mais desequilibrada, como politicamente é onde poderá encontrar mais aliados, tanto internamente (dentro do Partido Republicano e do Partido Democrata), como no exterior (na UE).

Ainda assim, são muitas as dúvidas lançadas sobre as possibilidades de sucesso de uma estratégia de escalada do conflito comercial contra o gigante asiático. Os números recentes do comércio internacional, já referentes a um período após a imposição das primeiras taxas, mostraram um novo agravamento do défice comercial dos EUA face à China, o que revela a dificuldade de, por via de taxas alfandegárias, alterar o desequilíbrio das contas. Neste cenário, os prejudicados mais evidentes são os consumidores dos dois países e as empresas que mais importam. Num último esforço para convencer a Casa Branca, um grupo de 150 organizações representantes das empresas norte-americanas enviaram uma carta ao Representante do Comércio dos EUA alertando que mais medidas proteccionistas “apenas servirão para expandir o dano provocado aos interesses económicos dos EUA, incluindo agricultores, famílias, negócios e trabalhadores”.

Apesar da aparente vontade de se virar para a China, na semana passada, o presidente norte-americano também voltou a mostrar a sua aversão à forma como são geridos os conflitos comerciais internacionais da Organização Mundial do Comércio, deixando mesmo no ar a possibilidade de os EUA abandonarem a organização, no que seria um golpe duro no sistema multilateral em vigor nas relações comerciais ao longo das últimas décadas.