Cinema

John David Washington e Adam Driver sobre o "génio" Spike Lee

Spike Lee consegue capturar momentos minúsculos no interior de uma actuação. É um realizador que gosta dos seus actores e deixa-os muito à vontade. "É um génio", defende nesta entrevista John David Washington.
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O realizador com os actores Adam Driver e John David Washington, respectivamente Tristan Fewings/Getty Images

Na conferência de imprensa em Cannes para o lançamento de BlacKkKlansman: O Infiltrado, Spike Lee sentou-se entre dois imensos pedaços de homem: Adam Driver, um ex-militar, e John David Washington, um antigo jogador de futebol americano. Foi um espectáculo.

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Mais tarde, para a nossa entrevista, quando os dois actores chegaram à mesa após o seu realizador, sugeri que na conferência de imprensa Lee parecia uma térmita (bem, pelo menos parecia um insecto), com os seus grandes óculos e olhos esbugalhados.

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Vivien Killilea/getty images

“Você disse-lhe isso?”, perguntou Washington com um esgar malandro. 

“Eu não lhe chamaria uma térmita”, acrescentou Driver, baixando ainda mais o tom da sua já tão grave voz, insinuando que tal poderia ter desencadeado uma reacção forte por parte do baixinho mas determinado realizador.

Ele afinal é um grande homem, propus então.

“A nível de personalidade isso é certo”, concedeu Washington. 

“Mas não acho que ele tenha uma personalidade descomunal”, afirmou Driver. “Ele deixa as pessoas muito à vontade, porque sabemos exactamente como ele é em qualquer momento. Ele é tão apaixonado a falar sobre os seus filmes como está confortável a fazê-los. Não há nenhuma artificialidade. Ele adora o instinto e é muito cuidadoso com os actores com quem trabalha. Encoraja-os a seguirem os seus impulsos, mesmo que isso por vezes não faça sentido. Ele está é à procura de um sentimento.”

John David Washington acha que Spike Lee é um génio. “Consegue capturar momentos minúsculos no interior de uma actuação. Ele consegue agarrar coisas que nem consigo acreditar que tenha apanhado.” 

Fizeram muita pesquisa?
AD — Tento sempre saber o máximo que puder, porque assim fico menos nervoso quando estou nas filmagens. Mas é um processo que nunca acaba. Podemos sempre colocar-nos uma série infinita de perguntas que nos ajudarão a abrir a nossa imaginação. Depois temos que nos preparar, ver todos os filmes como o French Connection [Os Incorruptíveis contra a Droga], e depois ir a Colorado Springs e acompanhar os polícias. Depois chegamos ao local das filmagens e revela-se tudo completamente diferente e temos que nos livrar de tudo o que trazíamos.    

Basicamente, os actores eram como que barro nas mãos de Lee.
JDW — A capacidade de ser maleável é uma das principais mais-valias num filme de Spike Lee, pois as coisas mudam muito rapidamente, por exemplo ele pode acrescentar uma cena a seguir ao almoço. Mas a arte da improvisação é divertida. Senti coisas a entrar por mim, e nunca antes em filmagens me tinha sentido com esse tipo de disposição. Foi uma experiência muito libertadora.  

Vocês os dois interpretam Ron Stallworth, JD ao telefone com David Duke, e Adam na personagem física. Como é que isso funcionou?
AD — As pessoas reais não tinham diálogos suficientes para se conseguir imitar bem as vozes, o que mostra bem como funciona a lógica interna do Ku Klux Klan. Realmente não havia suficiente material de base. Havia uma cena em que disseram que ele soava de forma diferente, e ele disse que era só porque estava constipado. Para eles isso chegou. Eu e o John tivemos duas semanas de ensaios para nos conhecermos, mas sabes como é, ele é um grande actor. Está disponível e está preparado.

JD — Obrigadinho, Adam! Já não era sem tempo! Mas na realidade tudo o que tive que fazer foi escutar e à medida que falava tudo me foi surgindo. Não consigo explicar como é que foi. A química aconteceu de uma forma muito natural. 

Qual foi a vossa abordagem aos momentos cómicos?
AD — A comédia é difícil. Não pensámos se um determinado momento era muito sério ou divertido. Acho que a vida não é assim. Simplesmente acontecem coisas que são divertidas. O Spike adora as imperfeições e isso sempre me pareceu mais real e mais vivo. Ele encoraja-nos a descobrir os momentos que são imprevisíveis, e é disso que eu gosto nos filmes dele. Nunca se sabe para onde vão os filmes dele.

Houve alguma pressão devido à amizade entre o seu pai e Spike Lee?
JDW — Se eu tivesse isso na minha cabeça nunca teria conseguido trabalhar. Não teve nada a ver com o meu pai. Isto trata apenas de Ron Stallworth de Colorado Springs.

Houve pressões para fazer um retrato realista de Stallworth?
JDW — Numa ocasião ele disse-me “Isto não é a Bíblia”. Isso marcou-me. Tive que moderar algumas coisas e ver o que acontecia em cada momento, apenas ouvir, e a resposta acabava por surgir.

Acho que nunca conheci um actor que tenha vindo do futebol americano profissional.
AD — Acho que eu também não.

JDW — Existe um, mas não quero dizer quem ele é. Existem imensas semelhanças com o trabalho de representação, na ideia de grupo e em se depender de que todos façam a sua parte, e o objectivo comum é vencer. Mas representar é muito menos doloroso a nível físico, por isso aceito sempre alegremente este emprego. 

Por que razão se tornou futebolista?
JDW — Quando era adolescente revoltei-me contra a ascensão do meu pai no meio cinematográfico. Tornei-me um bocado introvertido. Mas consegui transferir essa ansiedade para uma actividade física, neste caso o futebol americano. Não conseguem ver a nossa cara, sabem que o nosso apelido é Washington, mas não sabem quem é exactamente aquele miúdo. Assim consegui dissipar toda aquela raiva e aquele ressentimento em campo e a minha bolsa pagou-me as propinas ao longo do curso. Cheguei à NFL [liga profissional de futebol americano] mas não cheguei a jogar. Fiquei todo o tempo sentado no banco de suplentes, mas pelo menos estive lá. Isso deu-me energia para definir o meu próprio caminho. Na NFL lidei com muita rejeição, por isso já estava preparado para este mundo, onde existe muita, muita rejeição. 

Para este filme tiveram que ouvir muita música fixe dos anos 70.
JDW — Eu tinha uma lista com Curtis Mayfield e Marvin Gaye e estava sempre a ouvi-la. Todas as noites adormecia a ver o Soul Train [programa de televisão sobre música negra estreado em 1971]. A sério. Tenho tios e tias que me ajudaram muito, talvez até demais, chegavam às filmagens com os acessórios, as roupas, os anéis. E ter um penteado afro natural tornou muito divertido andar aos saltos a dançar.

O que pensa do Ku Klux Klan?
JDW — Ao longo da sua história tiveram pontos baixos mas conseguiram sempre levantar-se. Acho que David Duke era a nova face deles, o tipo limpinho e honesto, como se fosse o nosso amigo ou vizinho. Acho que foi uma época muito importante para eles, a forma como a organização estava a mudar e como estavam a tentar ser percepcionados a nível do público. Isso tornou tudo ainda mais interessante, porque o Ron Stallworth conseguiu expor isso.