Notáveis do Porto unem-se em defesa do "Joãozinho"

Siza Vieira, Pinto da Costa e Sobrinho Simões são apenas três dos notáveis cujos nomes encabeçam um abaixo-assinado que reclama do Governo o arranque imediato da nova ala pediátrica do Hospital de São João.

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André Rodrigues

Revoltado com o adiamento da construção da ala pediátrica do Hospital de São João (HSJ), a pergunta de Pinto da Costa saiu em tom de acusação: “Como é que os governantes conseguem dormir com consciência tranquila sabendo que há crianças doentes que vivem e dormem em contentores há tantos anos?”.

O presidente do Futebol Clube do Porto juntou-se esta quinta-feira ao lançamento de um abaixo-assinado que reclama do Governo “as acções necessárias ao desbloqueamento do processo e ao imediato início” da construção da ala pediátrica, baptizada como "Joãozinho". E não está sozinho: como primeiros subscritores do documento, que será posto à subscrição pública até 7 de Outubro, surgem o arquitecto Siza Vieira, a cientista Maria de Sousa e o médico Sobrinho Simões.

“São cidadãos que sentiram a necessidade de actuar e de ter uma intervenção cívica para além do voto nesta matéria”, resumiu Júlio Roldão, porta-voz de um movimento ao qual se juntaram outros nomes sonantes como os escritores Hélder Pacheco, José António Gomes e José Viale Moutinho, o letrista Carlos Tê e o bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, entre outros.

"O dinheiro é preciso para bancos, é preciso para as empresas falidas, é preciso para dar cobertura a muita vigarice. Agora para o pavilhão do "Joãzinho" não há dinheiro", lamentou Pinto da Costa, ladeado pelo presidente do conselho de administração do HSJ, António Oliveira e Silva que, contudo, recusou falar aos jornalistas. 

Crianças em contentores 

A nova ala pediátrica do HSJ está prometida desde 2008. Nesse ano, face à degradação das instalações a administração do HSJ propôs-se recorrer a mecenas para financiar uma nova ala destinada às crianças. O projecto era ambicioso: 25 milhões de euros para construir um edifício de cinco pisos, com espaços de lazer e uma escola destinada às crianças hospitalizadas. 

Em 2011, entre desentendimentos vários quanto ao financiamento da empreitada, a degradação das instalações ia tão avançada que a pediatria foi transferida para contentores provisórios, numa solução que se previa que não ultrapassasse os três anos. Em Abril último, os pais dos doentes denunciaram problemas como infiltrações de água, avarias no sistema de aquecimento que obrigavam a que as crianças dormissem de casaco e falta de camas de isolamento. Havia quartos com buracos, crianças a fazerem quimioterapia em corredores.

Numa resposta a esta falta de condições, que o próprio hospital qualificou como “miseráveis”, e ainda sem garantias de que as obras de construção da ala pediátrica iriam avançar a breve prazo, a administração do hospital pôs a funcionar, em Junho, um novo espaço para tratamento das crianças com cancro, junto às consultas externas. São instalações igualmente provisórias e nada garante que esta provisoriedade não vá arrastar-se tal como a solução anterior.

O financiamento passou entretanto para a alçada pública e o dinheiro para o “Joãozinho” está depositado numa conta do hospital, mas continua a faltar autorização das Finanças para o seu uso. Questionado pelo PÚBLICO, o Ministério da Saúde, cujo titular, Adalberto Campos Fernandes, reiterou várias vezes ao longo dos últimos meses que a “luz verde” para o arranque da obra se mantém, não prestou declarações sobre o assunto.

Falta "luz verde" das Finanças 

Do lado do HSJ, o assessor da instituição confirmou que a tutela continuava até ontem sem autorizar a despesa. Sem isso, não podem ser lançados os concursos públicos para concepção e execução de uma empreitada cuja despesa aponta agora para os 22,8 milhões de euros.

Há dias, esta empreitada voltou a ficar ensombrada pela ameaça de novo adiamento, quando o Ministério das Finanças anunciou que a mesma se encontra entregue a uma comissão de estudo incumbida de reavaliar a rede hospitalar pediátrica na zona metropolitana do Porto com vista a um “aprofundamento de sinergias”.

Por outro lado, começou a circular em Maio o rumor de que a pediatria do HSJ poderia ser transferida para o Centro Materno-Infantil, que integra o Centro Hospitalar de Santo António, e para o IPO-Porto. Esta possibilidade levou os pais de crianças internadas naquele hospital a anunciarem a intenção de interpor uma acção judicial contra o Estado. Objectivo: garantir a manutenção da resposta pediátrica no HSJ.

Para Júlio Roldão a entrega deste dossier a uma comissão não passa de um estratagema “para continuar a adiar uma solução que é necessária e que já vem tarde”.

O abaixo-assinado estará disponível para subscrição na Feira do Livro do Porto, que decorre nos jardins do Palácio de Cristal, e no blogue pelojoaozinho.blogspot.com. Terminada a recolha de assinaturas será remetido para o Governo, Parlamento e Presidência da República.