Opinião

Eleições legislativas na Suécia: uma história de aflições

Os trabalhadores nativos suecos de baixas qualificações votam na extrema direita por receio da concorrência dos imigrantes por empregos ou apoios sociais.

No próximo domingo 9 de setembro, haverá eleições legislativas na Suécia; mais uma vez, a Europa está aflita com os possíveis resultados eleitorais da extrema direita. O partido Democratas Suecos, ou Democratas da Suécia, nacionalista, conservador e anti-imigração, vai oscilando entre o segundo e terceiro lugar nas sondagens, com perto de 20% das intenções de voto, quando o mais votado Partido Social Democrata não ultrapassa os 25%.

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Democratas Suecos é um partido fundado em 1988 por membros do movimento racista Partido Suécia, com ligações documentadas a movimentos neo-nazis. Como outros partidos da extrema direita europeia, começou uma operação de suavização da imagem no final dos anos 90, o que lhe permitiu obter, nas eleições de 2002, 1.4% dos votos nas eleições legislativas. Os Democratas Suecos conheceram um crescimento espetacular nos últimos anos, tendo ganho pela primeira vez representação parlamentar no ano de 2010, com 5.7% dos votos e 20 deputados, de entre os 349 que compõem o parlamento. Nas eleições seguintes, em 2014, o partido mais do que dobrou a sua votação, com 12.9% e 49 deputados.

A imprensa e os comentadores políticos têm ligado este sucesso dos Democratas Suecos à sua agenda anti-imigração. A Suécia recebeu cerca de 400 mil imigrantes nos últimos 6 anos, dos quais 163 mil em 2015, no pico da crise de imigração da Europa. É o país com maior número de imigrantes em proporção da população de nativos. Paralelamente, o desemprego está em mínimos do passado recente e o PIB cresce 3% por ano. Um argumento simplista afirmaria que os bons resultados económicos do país descartam a possibilidade de o voto na extrema direita ter motivações económicas. Acontece que, como sempre, há pessoas que não têm lugar à mesa da abundância, e é por aí que temos de procurar para perceber as razões do sucesso eleitoral da extrema direita. A Suécia é um ótimo caso de estudo porque tem uma tradição de transparência que permite aos cientistas sociais – sociólogos, economistas, politólogos – utilizar um vasto conjunto de informação para estudar as escolhas eleitorais de cada eleitora, fugindo à falácia de relacionar a situação geral do país com a percentagem de votos de um qualquer partido.

Na sua tese de doutoramento defendida no início do verão, o jovem economista sueco Sirus Dehdari analisa a relação entre o que ele denomina de “economic distress”, que é difícil de traduzir para português, na ausência de uma palavra algures a meio caminho (ou na interseção) entre angústia e aflição, e o voto nos Democratas Suecos. Dehdari obteve informação sobre as notificações de despedimento em despedimentos coletivos que atinjam mais do que 5 trabalhadores, que as empresas são obrigadas a comunicar ao instituto do emprego. O autor explora a ideia de que a angústia/aflição económica bate à minha porta quando várias vizinhas minhas semelhantes a mim, ou seja, com o meu nível de qualificações e a minha nacionalidade vêem perigada a sua situação profissional. Para o fazer, relaciona o número de notificações de despedimento recebidas por trabalhadores nativos com baixas qualificações com os resultados eleitorais dos Democratas Suecos na área geográfica correspondente a uma determinada secção de voto. O autor conclui que cada duas notificações de despedimento que atingem este grupo sócio-económico geram um voto nos Democratas Suecos, o que explica cerca de um terço do progresso eleitoral do partido. Existem cerca de 5700 secções de voto na Suécia, com uma média de 1257 eleitores cada uma – estamos a falar do micro-ambiente em que vivem os cidadãos e cidadãs, equivalente a um pequeno bairro.

Sirus Dehdari vai mais longe. Calcula do número de trabalhadoras e trabalhadores de baixas qualificações, de origem estrangeira, em cada secção de voto, e conclui que quanto maior este número, maior o impacto das notificações de despedimento no número de votos na extrema direita. Ou seja, os trabalhadores nativos suecos de baixas qualificações votam na extrema direita por receio da concorrência dos imigrantes – também eles com baixo nível de qualificação – por empregos ou apoios sociais.

Quer isto dizer que devemos seguir as soluções propostas pela extrema direita, baseadas em fortes restrições à imigração? Certamente que não. À aflição dos eleitores de baixas qualificações juntaríamos a aflição dos imigrantes que buscam na Europa saída para situações de extrema privação e ameaças à própria vida. Acresce que os estudos existentes são inconclusivos quanto à possibilidade das condições de trabalho dos nativos melhorarem com a limitação à imigração. O que é necessário é atender aos aflitos com políticas redistributivas que lhes permitam partilhar a boa situação económica deste e doutros países. Enquanto os políticos europeus não levarem isto a sério, vamos continuar aflitos em cada fim de semana eleitoral dos países da União.