Opinião

Casas de memórias

Talvez estejamos a retroceder no que queremos que um “museu” seja no nosso tempo. Talvez nos baste que seja de facto um arquivo empoeirado de coisas antigas, exóticas, um armazém de estigmas e relíquias, uma realidade demasiado material da qual se dispensa a sua verificação e até a sua existência.

Os grandes incêndios, hoje como ao longo da nossa História comum, marcam ainda o tempo num antes e num depois. Pela destruição irremediável que trazem, pelo simbolismo redentor do fogo, pela simultaneidade de controlo e desesperança que lhes está associada.

Não conheci pessoalmente o museu nacional do Rio de Janeiro, mas não tenho dúvidas de que seria um dos grandes museus históricos do mundo ocidental e das Américas. A destruição do seu espólio é uma perda para todos, não apenas para o Brasil. O património histórico e a memória não vivem de acordo com as linhas de fronteira e de pensamento devido que cada geração traça. O que nos chega dos tempos passados é tão livre como o nosso futuro. Como tal, é necessariamente de todos nós, sem verdadeiros donos, apenas com cuidadores no tempo. E fomos nós, enquanto cuidadores no tempo, que falhámos, também aqui.

Os “gabinetes de curiosidades” que os museus começaram por ser, alimentados pelo fervor iluminista em torno do conhecimento que a quase todos parecia exótico, foram-se transformando nos últimos dois séculos em casas de partilha, de descoberta, de educação, de cultura, de cidadania. Daí que faça todo o sentido a sua associação estreita a universidades, como era o caso no Rio. Também esse é o modelo na Universidade de Lisboa, por exemplo. E também na Universidade de Lisboa qualquer visitante, por exemplo, do Museu de História Natural, se depara com as notórias limitações do seu espaço e da sua exposição...

Mas as universidades em regra vivem orientadas, provavelmente em demasia, para o ensino e para a realidade conjuntural. A poucas sobram pessoas e recursos (ou estratégias) para cuidar da memória e para a transformar em matéria de futuro, apesar dessa ser uma das suas missões mais decisivas a longo prazo.

Por outro lado, acreditamos, mesmo sem o pensar e sem o querer, que os “gabinetes de curiosidades” estão hoje personalizados e disponíveis a todo o tempo no nosso telefone... Não exigem já viagens de milhares de quilómetros para visitar um edifício. Ironicamente, talvez estejamos a retroceder no que queremos que um “museu” seja no nosso tempo. Talvez nos baste que seja de facto um arquivo empoeirado de coisas antigas, exóticas, um armazém de estigmas e relíquias, uma realidade demasiado material da qual se dispensa a sua verificação e até a sua existência.

Não precisamos, dizem os novos entendidos, de relicários cansativos e demorados, que obriguem a ler, a estudar, a caminhar por entre tempos passados. E demasiados museus transformaram-se apenas nisto, como se a recusa em ser um parque de diversões animado fosse unicamente o cheiro a bafio.

Até porque, com ironia, afinal o que importa estará sempre iluminado e disponível no nosso ecrã, a qualquer momento. A possibilidade de existir ou a suspeita de ter existido são mais do que suficientes para antecipar uma verdade ou assumir um juízo. A dispensa da realidade, no fundo, é sempre uma dispensa da verdade. E da memória. Haja bateria.