Soldados condenados por violarem funcionárias de agências humanitárias no Sudão do Sul

No ataque ao hotel da capital, em 2016, os militares mataram também um jornalista sul-sudanês. Das dezenas de envolvidos, dez conheceram agora a sentença. Os capacetes azuis da ONU foram acusados de não responderem aos pedidos de ajuda.

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Um dos soldados durante a leitura da sentença do ataque ao Hotel Terrain Reuters/ANDREEA CAMPEANU
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Militares a chegarem ao tribunal em Juba para conhecerem as suas penas Reuters/ANDREEA CAMPEANU
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Uma carrinha da ONU passa por famílias sul-sudaneses num campo para deslocados internos Reuters/HANDOUT

Dois anos depois de assaltarem um hotel, violarem cinco funcionárias de organizações humanitárias, matarem um jornalista sul-sudanês e atingirem a tiro um norte-americano que tentou ajudar as vítimas, dez soldados foram condenados esta quinta-feira no Sudão do Sul a penas entre os sete anos de cadeia e a prisão perpétua.

O processo, num tribunal militar, foi acompanhado por dezenas de diplomatas, trabalhadores de agências da ONU e de organizações não-governamentais, bem como por responsáveis do Governo de Juba, descreve a Reuters. Dos onze militares levados a julgamento, um foi libertado por não existirem provas que sustentassem uma acusação.

Sabe-se que entre as vítimas de violação há uma norte-americana, uma italiana e uma holandesa. O tribunal condenou o Governo a pagar uma indemnização de 4000 dólares (3400 euros) às cinco mulheres violadas. Os familiares do jornalista morto no ataque vão receber 51 cabeças de gado, enquanto o dono do hotel será compensado com 2,2 milhões de dólares (perto de 1,9 milhões de euros) pela destruição e pilhagem da sua propriedade.

Durante o processo, o gerente do Hotel Terrain, Mike Woodward, recordou como “50 a 100 soldados” chegaram ao hotel na tarde do dia dia 11 de Julho. Uma hora depois começaram as pilhagens. “Cinco mulheres que trabalhavam com organizações humanitárias foram violadas. [O jornalista] John Gatluak foi morto às 18h15”, descreveu Woodward, antes de relatar como um americano foi atingido a tiro numa perna.

A menos de 2 km

O ataque aconteceu ao mesmo tempo que as tropas do Presidente Salva Kiir anunciavam a vitória contra as forças leais ao ex-vice-presidente Riek Machar, depois de três dias de confrontos na capital, Juba. Várias testemunhas contaram como os homens armados atacaram o hotel durante horas: as vítimas telefonaram aos soldados de manutenção de paz da ONU, estacionados a menos de 2 km, mas nenhum apareceu, disseram.

O militar que comandava a missão das Nações Unidas, o tenente-general queniano Johnson Mogoa Kimani Ondieki, foi despedido depois do ataque.

“O tribunal considerou que estes acusados são culpados pela sua responsabilidade directa, todos cometerem estes crimes”, afirmou o juiz-presidente, o brigadeiro-general Neath Almaz Juma, na leitura da sentença.

O caso, diz a Reuters, foi visto como um teste à vontade do Governo de Kiir em responsabilizar um Exército contra o qual se acumulam denúncias de violações e de operaram numa cultura de impunidade.

"Façam o que quiserem"

Num relatório divulgado três meses antes deste ataque, a ONU afirmava que o Exército do Sudão do Sul e as milícias suas aliadas tinham recebido autorização para violar mulheres como forma de pagamento. A organização descrevia uma política de “terra queimada” em que os combatentes operavam segundo a premissa “façam o que quiserem e levem o que quiserem”.

Já o ano passado, a mesma ONU acusou as forças governamentais do país de matarem 232 civis e violarem 120 mulheres e raparigas só entre Abril e Maio, em aldeias supostamente controladas pela oposição.

A guerra civil no país começou apenas dois anos depois da independência do Sudão, em 2011. Na origem esteve um desentendimento entre Kiir e o seu ex-vice. O conflito, muito marcado por antigas rivalidades entre etnias, matou dezenas de milhares de pessoas e obrigou um quarto da população (de 12 milhões) a fugir de casa.

O mais perigoso

Os trabalhadores de organizações humanitárias, tanto sul-sudaneses como estrangeiros, que continuaram a tentar distribuir ajuda entre os deslocados passaram a correr enormes riscos. Quase cem foram mortos desde 2013.

Segundo dados publicados a meio de Agosto, em 2017 o Sudão do Sul foi o país mais perigoso para as ONG, lugar que ocupa pelo terceiro ano consecutivo.

O relatório do grupo de investigação Humanitarian Outcomes descreve um aumento drástico de raptos e tiroteios fatais no mais jovem país do mundo