EUA

Manobras na Casa Branca: resistência ou golpe de Estado?

Em apenas dois dias, a autoridade de Trump é posta em causa de uma forma crítica: um livro do jornalista Bob Woodward diz que está em curso um “golpe de Estado administrativo” e um artigo anónimo fala em “resistência” a decisões do Presidente.
Foto
Donald Trump MICHAEL REYNOLDS/EPA

Ainda antes das eleições para a Presidência dos Estados Unidos, em Novembro de 2016, a lista de figuras do Partido Republicano que viam em Donald Trump o pior Presidente possível já era longa, e incluía um vasto leque de acusações — a principal era a inexperiência, mas não escapava a ninguém que muitos dos críticos temiam que essa inexperiência, somada à instabilidade, resultasse num pesadelo para o país.

Atingiu o seu limite de artigos

A liberdade precisa do jornalismo. Precisa da sua escolha.

Não deixe que as grandes questões da sociedade portuguesa lhe passem ao lado. Registe-se e aceda a mais artigos ou assine e tenha o PÚBLICO todo, com um pagamento mensal. Pense bem, pense Público.

Depois disso, já no início deste ano, algumas conversas nos corredores da Casa Branca foram atiradas com estrondo para dentro de um livro com o título “Fogo e Fúria: Na Casa Branca de Trump”. Nesse livro, o jornalista Michael Wolff descreve um cenário de caos, em que muitos funcionários só concordam numa coisa: Trump é tão inexperiente e tão ignorante que devia ser considerado inapto para exercer o cargo.

Com o passar do tempo, Wolff e o seu livro foram sendo esquecidos — a sua fama de jornalista dado a intrigas e disposto a quebrar regras facilitaram o trabalho ao Presidente, que o acusou de estar ao serviço de uma campanha de fake news liderada pelos media.
Mas a visão de uma Casa Branca em colapso, e de um Presidente inexperiente e perigoso, foi revista e aumentada esta semana — com a denúncia de que vários responsáveis da Casa Branca têm vindo a trabalhar para que parte da agenda do Presidente norte-americano não seja cumprida. 

Primeiro, na terça-feira, foram divulgados excertos do novo livro do consagrado jornalista Bob Woodward — um dos dois, a par de Carl Bernstein, que lideraram a investigação do escândalo de Watergate, que viria a resultar na demissão do Presidente Richard Nixon.

Segundo Wodward, o poder executivo está “em colapso nervoso” e vai sendo gerido através de um “golpe de Estado administrativo” — por pessoas que estarão a enganar o Presidente e a esconder dele documentos importantes, para que as suas decisões não ponham em causa a actual ordem internacional.

Um dia depois, na quarta-feira, o New York Times publicou um artigo de opinião não assinado, mas que o jornal diz ter sido escrito por um “funcionário sénior na Administração Trump”, que acusa o Presidente de não ter referências morais.

“A raiz do problema é a amoralidade do Presidente. Quem trabalha com ele sabe que ele não tem princípios discerníveis que guiem as suas decisões”, lê-se no texto. 

Apesar de reconhecer “pontos brilhantes” na  Presidência de Trump (“a desregulação, uma reforma fiscal histórica, Forças Armadas mais robustas e outras coisas”), o autor descarrega uma série de acusações contra o Presidente, pondo em causa a sua capacidade para exercer o cargo — é “impetuoso”, “mesquinho”, “ineficaz”, “errático”. E deixa uma garantia ao povo americano: “Pode servir de pouco nesta era caótica, mas os americanos devem saber que há adultos na sala. Nós percebemos o que está a acontecer. Estamos a tentar fazer o que é correcto, mesmo quando Trump não o faz.”

Ontem, vários altos funcionários da Casa Branca, como o vice-presidente, Mike Pence, e o secretário de Estado, Mike Pompeo, sentiram-se obrigados a dizer que não são eles os autores do texto.

No Twitter, Donald Trump lançou-se mais uma vez ao New York Times, e aproveitou o artigo não assinado para dizer aos seus apoiantes que as suas suspeitas confirmaram-se: há mesmo um “governo na sombra” a tentar sabotar o trabalho do Presidente Trump.
“O Deep State [Estado profundo] e a Esquerda, e o seu veículo, os media das fake news, estão a enlouquecer — e não sabem o que hão-de fazer. A economia está em grande como nunca antes esteve, o emprego está em níveis históricos, em breve teremos dois novos juízes do Supremo e, talvez, uma desclassificação de documentos para encontrarmos mais corrupção”, disse Trump.

Noutro tweet — como sempre dirigido, principalmente, à sua base de apoio —, o Presidente norte-americano reforçou a ideia de que está a ser vítima dos interesses que prometeu derrotar: “Estou a drenar o pântano e o pântano está a tentar resistir. Não se preocupem, vamos ganhar!”

O facto de o New York Times ter decidido publicar o artigo de opinião em causa está a ser muito discutido nos media norte-americanos, mas há uma outra discussão que pode ter mais impacto no futuro da política norte-americana — quem beneficia mais com as acusações que são feitas no texto?

“O que acontecerá na próxima vez que um funcionário tentar dissuadir o Presidente de, por exemplo, remodelar o Departamento de Justiça para pôr fim à investigação de Robert Mueller”, questiona no site da revista The Atlantic o comentador David Frum, um antigo autor de discursos na Administração de George W. Bush.

“O autor do artigo de opinião fez saber ao Presidente, de forma explícita, que quem o aconselhar nesse sentido não só não tem o interesse do Presidente em consideração, como está, na verdade, a subverter esses interesses em nome das suas próprias ideias”, assinala David Frum. Como resultado, “ele tornar-se-á mais desafiador, mais temerário, mais anticonstitucional e mais perigoso”.

Para terminar, o comentador aconselha o autor do artigo a identificar-se e a contar tudo o que sabe ao Congresso: “O seu serviço no Governo é valioso. Obrigado. Mas não é assim tão indispensável que possa compensar a manutenção no cargo de um Presidente que você acredita ser amoral, mentiroso, irracional, antidemocrático, antipatriótico e perigoso. Antigas gerações de americanos sacrificaram fortunas, saúde e vidas para servirem o país. A si, apenas lhe pedimos que conte a verdade em voz alta, acompanhada pelo seu nome.”

No New York Times, o colunista David Leonhardt disse que percebe o argumento de David Frum, mas ainda assim acha que o artigo de opinião “é pior para Trump e melhor para o país do que muitos acreditam”.

“É mais uma descrição da sua falta de preparação para o cargo e do caos na sua Casa Branca. Soma-se ao novo livro de Bob Woodward, a outros livros e notícias sobre o mesmo tema e aos elogios a John McCain. Tudo somado, há um potencial para persuadir um pequeno mais significativo número de antigos apoiantes”, diz Leonhardt.

Para apoiar o seu ponto de vista, o analista aponta para as mais recentes sondagens sobre a popularidade do Presidente Trump. “Isto não é apenas especulação. Ao longo da última semana — uma semana de conversas sobre McCain e, agora, o livro de Woodward e o artigo anónimo —, a aprovação média de Trump caiu para o nível mais baixo desde o início do ano.”