Alterações climáticas

Cientistas protestam contra conferência de negacionistas no Porto

Mais de 60 cientistas e trabalhadores em Ciência expressam o seu protesto pelo facto da Universidade do Porto “promover uma conferência que vem favorecer a desinformação”
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A conferência “Basic science of a Changing climate”, que vai decorrer esta sexta-feira e sábado na Faculdade de Letras da Universidade do Porto (UP), levou um grupo de personalidades ligadas à Ciência a escrever uma carta aberta de protesto dirigida ao reitor da Universidade do Porto (clique para ler o documento). Os signatários condenam o encontro “organizado por um conhecido lobby negacionista das alterações climáticas, o auto-denominado ‘Independent Comittee on Geoethics’” e defendem que a universidade “deve escrutinar os eventos que organiza e promover o conhecimento baseado em Ciência”.

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Carlos Borrego, Carlos Fiolhais, David Marçal, Filipe Duarte Santos, Francisco Ferreira, Helena Freitas, Luísa Schmidt, Manuel Sobrinho Simões, Nuno Ferrand de Almeida, Pedro Russo e Teresa Lago, são apenas algumas das dezenas de pessoas ligadas à Ciência que assinaram a carta aberta, divulgada esta quinta-feira no site do Diário de Notícias. A carta de protesto é dirigida ao reitor da Universidade do Porto apesar desta instituição de ensino superior já se ter demarcado da organização deste evento.

Os signatários começam por considerar que o “interessante título da conferência” -  “Basic science of a changing climate: how processes in the sun, atmosphere and ocean affect weather and climate” - sugere um campo científico reconhecido. No entanto, referem, esta conferência “é afinal organizada por um conhecido lobby negacionista das alterações climáticas” e pretende reunir no Porto negacionistas de vários países, sendo presidida por Maria Assunção Araújo, professora na Faculdade de Letras da UP.

“Não é possível hoje negar o consenso generalizado dentro da comunidade científica de que as actuais alterações climáticas a que estamos a assistir, são causadas pelas acções com origem humana”, lê-se ainda no documento que acrescenta: “Existe um aquecimento inequívoco do planeta, não apenas simulado ou previsto, mas medido”. Na mesma carta lembram também que a emissão de gases com efeito de estufa – sendo o dióxido de carbono (CO2) o mais relevante – é a principal razão para o aquecimento global.

Mais de 60 cientistas e trabalhadores em Ciência mostram o seu desagrado e protestam publicamente pelo facto de a UP “promover uma conferência que vem favorecer a desinformação, credibilizando ideias políticas que visam travar as acções para se conseguir obter a estabilização climática do planeta durante este século”. “Estas ideias cientificamente infundadas - a que se dá o nome de negacionismo -, em vez de esclarecerem e sensibilizarem para as alterações climáticas, não pretendem mais do que criar dúvidas sem qualquer fundamento ou método científico”, acrescentam.

E já antecipando uma eventual reacção a esta carta, em nome da liberdade e/ou invocando censura, os signatários antecipam-se: “Não somos alheios às tácticas frequentemente utilizadas por este tipo de organizações negacionistas, que utilizam o espaço da democracia para tentar polarizar a sociedade e ganhar espaço mediático, criando uma polémica artificial e errada, invocando censura e vitimizando-se no processo”. “Sendo uma universidade pública e uma das maiores produtoras de Ciência em Portugal, à Universidade do Porto impõe-se o escrutínio dos eventos que acolhe”, referem ainda, concluindo que a instituição “pela responsabilidade que tem em divulgar o conhecimento informado, não deve emprestar o nome e dar credibilidade à negação da Ciência e do Conhecimento”.