Morais Sarmento: "Não há nenhum líder do PSD que não tenha feito sofrer o anterior"

Na Universidade de Verão, o ex-ministro de Durão Barroso e de Pedro Santana Lopes foi desafiado a responder se Passos Coelho foi um líder do PSD mais à direita e Rui Rio mais à esquerda.

Nuno Morais Sarmento
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Nuno Morais Sarmento Miguel Manso

O vice-presidente social-democrata Morais Sarmento defendeu esta quarta-feira que o PSD nasceu como "partido de contestação", em que todos os líderes "fizeram sofrer" o anterior para se afirmarem, e considerou existir espaço à direita para novos partidos.

"Não há um único líder do PSD - não acho que isto seja bom de se dizer - que não tenha andado a desgastar e a fazer sofrer o líder ou líderes anteriores para ele próprio ser líder do PSD", afirmou Nuno Morais Sarmento, na sua 'aula' na Universidade de Verão do partido com o tema "Social-Democracia, hoje, em Portugal".

Para o vice-presidente do PSD, este processo começou com Sá Carneiro contra Emídio Guerreiro e prosseguiu até hoje: "Não há nenhum - do Marcelo ao Barroso, ao Cavaco (...) todos os líderes, Passos Coelho, Rui Rio", afirmou, embora o nome do actual presidente do PSD já tenha sido dito de forma mais sumida.

Na sua intervenção, foram várias as referências de Sarmento ao ex-líder do PSD Pedro Santana Lopes, que no início de Agosto confirmou a saída do partido em que militava há mais de 40 anos e anunciou a formação de um novo, a Aliança.

"Eu acho que esta volta que está a acontecer é boa, internaliza um dos partidos de protesto - o BE, que passou a partido de sistema - (...) Santana Lopes vem um bocadinho como um homem providencial. Se há espaço do lado direito - há com certeza -, os portugueses mais conservadores não se sentem representados nem no PSD nem no CDS", defendeu.

Salientando que, até agora, o voto de protesto não tinha representação à direita, Morais Sarmento considerou que em matérias como "nacionalismo, Europa, estilo de vida", Santana Lopes "sempre teve uma posição coerentemente à direita, ou na margem direita do PSD".

Na fase de perguntas, Sarmento foi desafiado a responder se Passos Coelho foi um líder do PSD mais à direita e Rui Rio mais à esquerda, afirmação da qual discordou.

"Tanto Pedro Passos Coelho como Rui Rio foram mais sociais-democratas do que eu, porque estiveram sempre do lado esquerdo do PSD", defendeu, considerando que o anterior líder foi influenciado "por um raciocínio académico" que lhe valeu, injustamente, rótulos de "perigoso liberal".

Já quanto a Rui Rio, o vice-presidente do PSD considerou-o "absolutamente atípico" em termos de classificação, mais à esquerda em algumas matérias - como a eutanásia - mas "conservador na prática política".

Na sua 'aula', Sarmento fez questão de salientar que "a linha que separa o PSD do PS é hoje tão clara como era em 1974", e apelou ao partido para que não vá "atrás de cantos de sereia" de quem quer saber se o partido é mais ou menos liberal.

"A diferença continua a ser absolutamente clarinha", defendeu, apontando a igualdade de oportunidades à partida, a mobilidade social e a realização do projecto individual de cada ser humano como as marcas da diferença entre os sociais-democratas e os socialistas.

PSD deve apresentar "desígnio nacional"

O vice-presidente do PSD Morais Sarmento desafiou o partido a voltar a apresentar "um desígnio nacional" que possa ser, nas próximas eleições, uma alternativa ao que chamou de "salada russa" das propostas do PS, BE e PCP.

Numa 'aula' na Universidade de Verão do PSD, na qual tinha estado há 16 anos na primeira edição, Nuno Morais Sarmento acusou o actual Governo de não apresentar "um único desígnio nacional" durante estes quatro anos e deixou um aviso para as legislativas do próximo ano.

"Eu não quero ler o programa do PS, que é só uma terça parte, eu quero é perceber o cardápio de exigências de PCP e BE para ver a salada russa que dá. Deve ser semelhante à que vivemos nos últimos quatro anos, o problema é que o país é um todo maior do que a soma das partes", defendeu.

Para Morais Sarmento, nas próximas eleições o PSD terá pela frente não um combate com o PS, mas "com a frente de esquerda".

"É um combate com a Catarina, é um combate com o Jerónimo, e também com António Costa", apontou, considerando que o PSD terá de apresentar "uma solução completa, coerente e credível" como alternativa.

O dirigente reconheceu que também o PSD não se apresenta há muito ao eleitorado "com uma postura de mobilização para um desígnio de país", considerando que os anteriores primeiros-ministros do partido -- Pedro Passos Coelho e Durão Barroso -- não o puderam fazer pelas condições económicas do país.

"Como é que o PSD deve sair da armadilha? Não é com um a governar na crise e outro na folga, não. É um apresentar uma proposta para o país, e outro apresentar aquela coisa que é uma soma de partes", aponta.

O antigo ministro do Estado e da Presidência de Durão Barroso apontou a saúde como um exemplo de uma área em que PSD e PS têm visões diferentes.

"Nós achamos que tem de existir um Serviço Nacional de Saúde, lutámos por ele desde o início, mas tem de existir ao lado disso liberdade e possibilidade de eu escolher", defendeu.

No Conselho Nacional da próxima semana, o PSD levará a debate o documento produzido pelo Conselho Estratégico do partido precisamente sobre a saúde.

"Do outro lado, temos quem ache que seria possível e desejável acabar com as alternativas em termos de prestação de cuidados de saúde e obrigar os portugueses a uma única resposta, sem alternativas e sem capacidade de escolha e exigência sobre os resultados", criticou.

Perante os jovens alunos, defendeu a importância de serem as gerações mais novas a determinar o pensamento do PSD.

"Eu acho que o importante não é que seja a Margarida Balseiro Lopes [líder da JSD] a fazer o discurso do 25 de Abril - isso é como funciona o PS, é para a fotografia - é que seja a Margarida, que sejam as 'margaridas', os mais novos a determinar o pensamento do PSD", defendeu.

Membro da actual direcção do PSD, Morais Sarmento deixou uma pergunta, a que ele próprio respondeu de forma crítica: "Se temos, neste momento, os mais novos de entre nós a serem participantes decisivos na definição do pensamento e da estratégia e pensamento do PSD? Não. Se isso para mim é uma condição de vitória? É".

"Com isto digo tudo sobre o que nos falta cá dentro mexer e mudar", acrescentou.

Pelo contrário, o actual vice-presidente do PSD defendeu que o partido deve manter-se onde "sempre esteve" em termos de posicionamento ideológico, ao centro, mesmo perante novas formações políticas, como a Aliança anunciada pelo ex-líder do PSD Pedro Santana Lopes.

"O PSD é a social-democracia, não há que ter complexos nem problemas com isso", disse.