Opinião

Os almoços infinitos

Rematava-se com digestivos. Eram só dez pratos e duas horas à mesa. Assim sobrevivíamos até à hora do lanche.

Quando é que alguém se lembra de abrir um restaurante português dos anos 60? Eram mais estranhos do que qualquer cozinha estrangeira. Estreavam-se os dentes com umas amêndoas torradas que se serviam com os aperitivos.

Começava-se com hors d'oeuvre, chamados acepipes, que vinham num carrinho especial com dois andares. Escolhiam-se cinco ou seis pequenas porções de salada russa, sardinhas de lata, tâmaras embrulhadas com bacon, salmão fumado com cebola picada, maionaise de gambas e outros canapés.

Uma malandrice estival era trocar os acepipes por um melão com presunto ou por um cocktail de gambas. Depois destes antipasti comia-se uma sopa. Esta era sempre creme de mariscos e o passatempo era determinar, conforme a quantidade de mariscos que estava no fundo (nacos de lavagante, ameijoas, gambas cortadas em cilindros robustos), se o restaurante era forreta ou generoso.

O terceiro prato — compreendo que não acreditem mas é verdade —? era ovos. Só muito raramente é que alguém prescindia dos ovos. Eram omolettes aux fines herbes ou de tomate ou fiambre ou de gambas ou então ovos mexidos com cogumelos.

Avançava-se para o peixe e do peixe para a carne. Depois da sobremesa - uns crêpes Suzette feitos ali à nossa frente - vinha um carrinho com os queijos e, para rematar e limpar a boca, outro carrinho com a fruta da época e, para quem não tinha paciência, uma salada de frutas.

Rematava-se com digestivos. Eram só dez pratos e duas horas à mesa. Assim sobrevivíamos até à hora do lanche.