Manfred Weber anuncia candidatura à chefia da Comissão Europeia

Conservador alemão, líder do grupo de centro-direita no Parlamento Europeu, é o primeiro a lançar-se na corrida. Nome do candidato conservador deverá ser conhecido em Novembro.

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Manfred Weber foi o primeiro a lançar-se na corrida para o respresentante dos conservadores europeus nas eleições para o PE OLIVIER HOSLET/EPA

Um dia antes do arranque formal do processo de selecção interno, o eurodeputado conservador alemão Manfred Weber, líder do grupo do Partido Popular Europeu (PPE) no Parlamento Europeu, anunciou a sua candidatura à sucessão de Jean-Claude Juncker na chefia da Comissão Europeia, após as eleições de Maio do próximo ano.

"Quero ser o candidato do PPE para as eleições europeias de 2019 e ser o próximo presidente da Comissão Europeia”, tweetou o conservador bávaro, de 46 anos, durante um encontro em Bruxelas com membros do seu grupo parlamentar, que é o maior no hemiciclo.

Pouco depois, sem grande fanfarra, Weber fez uma (curta) declaração oficial à imprensa, num corredor do Parlamento Europeu. "A Europa encontra-se num ponto de viragem. O que mais interessa nesta altura é defender os nossos valores e promover a Europa, que está sob ataque, tanto do lado de fora como de muitos que estão cá dentro", começou.

Falando em inglês, o líder do PPE descreveu a próxima campanha eleitoral como um combate pela sobrevivência do projecto político europeu e do actual modelo de vida e de sociedade no continente. Por isso, afirmou, o próximo ciclo político não pode ser "business as usual". "A União Europeia necessita de um recomeço para se tornar melhor, mais unida e mais democrática. Não podemos continuar como agora, nem podemos permitir tantas divisões: só todos juntos seremos mais fortes", defendeu.

Weber foi o primeiro a posicionar-se mas não permanecerá muito tempo sozinho na corrida, e deverá ter alguma concorrência de peso dentro do PPE. Michel Barnier, antigo ministro francês, antigo comissário europeu, e hoje responsável pelas negociações do "Brexit", é outro dos nomes falados — e será um dos preferidos entre os parlamentares do grupo —, assim como o antigo primeiro-ministro finlandês, Alexander Stubb. Segundo o PÚBLICO apurou, o actual vice-presidente do Banco Europeu de Investimento decidirá no final deste mês se avança ou não com uma candidatura.

O nome do candidato principal do PPE será aprovado numa convenção do partido a 8 de Novembro. Os outros grupos parlamentares planeiam escolher os seus candidatos nos próximos meses — num processo controverso conhecido em Bruxelas como Spitzenkandidaten.

Depois das eleições para o Parlamento Europeu, entre 23 e 26 de Maio, o Conselho Europeu, que junta os chefes de Estado e de governo dos países da UE, escolherá o sucessor de Juncker num encontro nos dias 20 e 21 de Junho. Essa poderá ser uma escolha óbvia ou mais difícil, em função dos resultados eleitorais: se não prevalecer uma maioria forte, a escolha do presidente da Comissão e a formação do executivo europeu poderá replicar, pela primeira vez, a lógica nacional dos governos de coligação (e, nesse caso, as negociações podem prolongar-se durante meses).

A última eleição para o Parlamento Europeu marcou a primeira vez em que os candidatos principais dos partidos foram oficialmente considerados como os concorrentes à presidência da Comissão Europeia: Jean Claude-Juncker, do PPE, o maior grupo parlamentar, derrotou então Martin Schulz, do Partido Socialista Europeu. 

Mas este procedimento não existe formalmente: de acordo com os tratados, a prerrogativa da escolha do presidente da Comissão continua a ser dos líderes europeus (reunidos no Conselho Europeu). O Presidente francês, Emmanuel Macron, tem apontado para a fraca ligação dos europeus com o Parlamento Europeu e assim a menor legitimidade destas eleições em comparação com as votações nacionais, reflectida na escolha dos líderes e assim na composição do Conselho Europeu, e tem afirmado a sua oposição à ideia de que o candidato do grupo mais votado seja automaticamente o presidente da Comissão.

Antecipando-se à declaração de Weber, o responsável pelo movimento República em Marcha (REM) fundado pelo Presidente francês reafirmou, na terça-feira à noite, a sua oposição ao processo dos Spitzenkandidaten. "É uma anomalia democrática", afirmou Christophe Castaner, num encontro com simpatizantes de Emmanuel Macron em Bruxelas. Segundo garantiu, o REM rejeita uma selecção automática para a chefia da Comissão e, nas eleições, "não apoiará nenhum spitzenkandidat" — o seu objectivo eleitoral é assegurar uma boa bancada progressista na próxima legislatura, que segundo indicam as sondagens, deverá ser bastante mais fragmentada e heterogénea do que a actual.

Manfred Weber parece confiante no apoio da chanceler alemã Angela Merkel, mas este não é ainda certo (há uma série de equilíbrios a ter em conta na distribuição de vários altos cargos para assegurar alguma harmonia regional e política). Esta quarta-feira, o agora candidato recusou responder aos jornalistas que o questionaram directamente sobre as suas conversas com a líder conservadora, preferindo sublinhar a aprovação da sua nomeação pela CSU, no último fim-de-semana.

Apesar de ser um dos políticos mais experientes do partido bávaro, Weber tem-se mostrado mais alinhado com o pensamento de Angela Merkel do que com o do actual líder, Horst Seehofer. Vários analistas especulam, aliás, que o acordo tácito da chanceler à candidatura de Manfred Weber envia uma mensagem mais poderosa para os seus aliados da CSU do que para os seus parceiros em Bruxelas.

Apesar das suas palavras a favor da abertura, transparência e democracia, Weber começou por recusar responder a perguntas até ser "encostado" pelos jornalistas alemães. Na sua língua materna, repetiu quase integralmente a declaração que trazia escrita em inglês, evitando pronunciar-se sobre um dos assuntos mais "delicados" da rentrée política do Parlamento Europeu, que tem a ver com a deriva do Governo iliberal da Hungria: o conservador alemão não explicou como concilia o seu discurso com a integração do partido Fidesz, de Viktor Orbán, no seio do PPE.

O eurodeputado social-democrata, Paulo Rangel, que conhece bem Manfred Weber e o descreve como "um europeísta convicto", destaca a sua capacidade de "construir pontes" e de "encontrar soluções de consenso" como as principais qualidades que o alemão exibiu na sua liderança do PPE. Rangel também considera interessante e "muito positivo" que a primeira candidatura à presidência da Comissão seja de alguém que vem de fora do circuito das elites e que não pertence ao círculo tecnocrático europeu. "A sua candidatura tem a lógica de um parlamentar", sublinha.

Mas a candidatura de Weber a presidente da Comissão Europeia tem alguns pontos fracos, o maior dos quais a falta de experiência governativa num executivo nacional, que até agora todos os presidentes da Comissão Europeia tiveram. O outro, que o eurodeputado espera poder compensar, é a falta de carisma. O facto de ser alemão também não ajuda às suas pretensões, mas como nota Rangel, "essa não pode ser uma razão para o excluir à partida".