Música

Casa da Música estreia em Portugal um “Messias participativo”

Famosa oratória de Händel chega a 11 de Dezembro à Sala Suggia, reunindo vozes amadoras a intérpretes de primeira grandeza. Ciclo Fantasia e programação do Outono em Jazz são as outras novidades da rentrée da instituição portuense.
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Meio milhão de pessoas já assistiu e perto de 50 mil já deram a sua voz, por toda a Espanha, ao “Messias participativo” lançado em 1995 pela Fundação La Caixa, com sede em Barcelona. Esta versão “comunitária” catalã da famosa oratória de Händel vai agora chegar também, pela primeira vez, a Portugal, sendo apresentada a 11 de Dezembro na Casa da Música.

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Este foi “o acontecimento” da agenda apresentada esta quarta-feira pela Casa da Música para a rentrée. Espalhados pelo palco e pela plateia da Sala Suggia, dois agrupamentos holandeses de grande prestígio – a Orquestra do Século XVIII e a Capella Amsterdan – vão partilhar a “cena” com um coro de duas centenas de vozes que o Serviço Educativo da Casa irá tratar de reunir junto de comunidades do Grande Porto e começar a ensaiar nas próximas semanas. A direcção do espectáculo estará a cargo do maestro Daniel Reuss, com os solistas Ruby Hughes (soprano), Marianne Beate Kielland (contralto), Rupert Charlesworth (tenor) e James Newby (baixo).

“Será um concerto totalmente diferente daquilo que é habitual, porque a música não vai soar apenas a partir do palco, mas também de entre o próprio público na plateia, criando sensações acústicas e uma emoção musical inabituais”, prometeu Nuria Castells, da Fundação La Caixa, que ao lado de António Jorge Pacheco fez a apresentação desta primeira internacionalização da produção espanhola – que, no entanto, teve já uma réplica na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

Tratar-se-á de “uma experiência imersiva para o público, que quebra as barreiras tradicionais entre o palco e a plateia numa celebração colectiva da música”, reforçou o director artístico da Casa da Música. No final da conferência de imprensa, em conversa com os jornalistas, Nuria Castells comparou esta aventura, do lado dos participantes, à de um qualquer jogador de futebol dos campeonatos amadores a quem é dada a oportunidade de jogar ao lado dos craques do Barcelona ou do Real Madrid…

Mas trata-se de uma experiência que “irá manter uma exigência profissional ao mais alto nível”, notou Pacheco, ressalvando que esta democratização do acesso à música e ao palco “não irá baixar o grau de qualidade e de virtuosismo” que a obra de Händel exige.

Fantasias e jazz no Outono

Outra novidade na agenda da Casa da Música para o próximo quadrimestre é o ciclo Fantasia, que se propõe revisitar os diferentes sentidos deste conceito nos últimos cinco séculos, desde que, no Renascimento, se tornou um género musical dominante. Com cinco concertos, o ciclo vai marcar a segunda quinzena de Setembro (dias 18 a 29): abre com a primeira actuação no mesmo palco do Remix Ensemble e de Pedro Burmester, e encerra com um recital a solo do pianista Artur Pizarro. No dia 18, Burmester irá interpretar Sonata quasi una fantasia, de Beethoven, e o ensemble de música contemporânea fará a estreia mundial de uma encomenda da Casa ao compositor Daniel Moreira, que se inspirou na mesma obra de Beethoven. A 29, Pizarro tocará fantasias de diversos compositores, de Telemann a Liszt.

Outubro será, como habitualmente, o mês do Outono em Jazz (dias 7 a 28), que acolherá 16 actuações, algumas em concertos duplos, distribuídos por três palcos diferentes da Casa. Fernando Sousa, responsável pelo programa, anunciou “um festival ecléctico” com uma mescla de músicos portugueses e uma dezena de intérpretes vindos dos quatro continentes a mostrar “as tendências do jazz que se faz nos dias de hoje”. Alguns nomes a reter: Tarkovsky Quartet, do pianista francês François Couturier; Femi Temowo, o britânico de origem nigeriana que acompanhou Amy Winehouse; a cantora sul-coeana Youn Sun Nah; o Ambrose Akinmusire Quartet e o também norte-americano, mas de origem indiana, Rudresh Mahanthappa, do lado dos estrangeiros; TGB, Bruno Pernadas Quarteto, Mário Laginha em versão trio, Lokomotiv, Amaro Freitas Trio, do lado dos portugueses; e haverá também cruzamentos multinacionais no programa.

Regresso de Alfred Brendel

No resto, o calendário até ao final de Dezembro irá cumprir o programa anunciado para este ano, em que pela segunda vez a Casa da Música teve a Áustria como país-tema, tendo destacado as integrais das Sinfonias de Bruckner e dos Concertos para violino de Mozart. Já no Ciclo de Piano, o acontecimento será o regresso, passada uma década sobre o anunciado abandono dos palcos, de Alfred  Brendel (21 de Outubro), desta vez em versão de palestra-recital a mostrar como se toca Mozart.

Ainda no piano, ouvir-se-ão o sul-coreano Yekwon Sunwoo (17 de Novembro), vencedor do Concurso Internacional Van Cliburn 2017 (EUA); e, de regresso ao Porto, o checo Lukás Vondrácek (8 de Dezembro), vencedor do Concurso de Piano Rainha Isabel 2016, em Bruxelas.

Em Novembro, regressa também o ciclo À Volta do Barroco (dias 3 a 11), este ano com Andreas Staier como convidado, ele que no início do ano gravou com a Orquestra Barroca Casa da Música um disco Harmonia Mundi com obras de Carlos Seixas – compositor que fará parte do programa que o cravista alemão levará, a 9 de Novembro, com a mesma formação, ao prestigiado Konzerthaus de Viena.

O calendário encerra com a tradicional Música para o Natal, este ano com a Sinfónica a tocar partituras de A Bela Adormecida, de Tchaikovski (21 de Dezembro), e as restantes formações, incluindo o novo Coro Infantil, a cantar a Missa em Si menor de Bach (23 de Dezembro). E começa já este fim-de-semana, sexta-feira e sábado, com os Concertos na Avenida (dos Aliados): a Orquestra Barroca, dirigida por Dmitry Sinkovsky, interpretará As Quatro Estações, de Vivaldi; e a Sinfónica, dirigida pelo seu maestro titular, Baldur Brönimann, levará à Baixa um programa de “variedades”, de Brahms à família Strauss. Alternadamente, estes dois espectáculos serão levados também a São Pedro do Sul, um gesto de “solidariedade para com uma zona fustigada no ano passado pelos incêndios e para com uma população que normalmente não tem acesso à grande música”, justifica António Jorge Pacheco.