Editorial

Um problema capital

É uma boa opção favorecer quem escolhe os transportes públicos, nomeadamente nas ligações intermunicipais, tão pesadas na nossa pegada ecológica colectiva.

Durante o fim-de-semana, o reavivar da proposta das Áreas Metropolitanas de Lisboa e Porto de virem a conseguir, com o apoio do Orçamento d Estado, de descontos substanciais para os utentes de transportes colectivos instalou-se na ordem do dia. Explicando melhor, não foi exactamente o debate sobre uma proposta genérica que esteve em debate: foi a possibilidade de Lisboa vir a usufruir desse desconto, já que foi o edil da capital que apareceu a tentar capitalizar politicamente essa proposta.

Nada de especial a apontar a Fernando Medina, que gere como pode a sua carreira política e reclama para o seu eleitorado uma medida que lhe parece justa e eficaz. Mas depois de um Verão a ver como um verdadeiro instrumento de coesão territorial, a ferrovia, se está a desfazer lentamente, as reacções não se fizeram esperar, numa demonstração que o discurso sobre o “interior” e a “descentralização” tem medrado. À espera de quem o queira aproveitar…

Contra a “macrocefalia”, contra o “privilégio da capital”, replicaram-se as mensagens, mas a verdade é que singravam pelo vazio causado pela falta de informação. Com mais atenção era possível lembrar que a medida integrava uma série de propostas das duas áreas metropolitanas feita ao Governo em Março deste ano e, sabemos agora nesta edição do PÚBLICO, que o ministro do Ambiente, mesmo que ainda em fase de estudo, assume que ela deve ter um carácter nacional

Assim uma medida para a capital é afinal uma medida de capital importância para todos nós, que continuamos a achar que a luta contra a poluição e contra as alterações climatéricas deve ser um desígnio universal. E nessa luta é uma boa opção favorecer quem escolhe os transportes públicos, nomeadamente nas ligações intermunicipais, tão pesadas na nossa pegada ecológica colectiva. 

Claro que pesará muito mais o custo nas áreas metropolitanas onde há muito mais população a servir, mas isso é compreensível desde que a medida esteja aberta a todos os municípios. Claro que faltará perceber a capacidade da oferta para receber os previsíveis novos clientes, mas essa é uma boa dor de cabeça porque significa que estamos a levar cada vez mais pessoas a utilizar formas de transporte menos poluentes. 

Má opção é mesmo defender a descida do imposto sobre produtos petrolíferos, como fez o CDS-PP, porque a baixa do preço dos combustíveis acaba por incentivar a utilização do transporte individual e esse não é certamente o sinal certo para o caminho que devemos seguir.