Universidade de Verão

Carlos Moedas gostava de ter 20 anos e explicou porquê

O Comissário Europeu da Ciência e da Inovação esteve na Universidade de Verão do PSD, falou de Obama e de Einstein, contou que recusou convite para trabalhar na Google e explicou o que é o populismo.
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Foi a citar Barack Obama, o antigo Presidente dos Estados Unidos da América, que Carlos Moedas começou por captar a atenção dos jovens, logo pelas dez da manhã, no segundo dia da Universidade de Verão do PSD. “Quando me preparei para vir, pensei no discurso que mais me marcou nos últimos três anos”, contou. "Foi quando ouvi antigo presidente Obama a falar para jovens em Hanôver, na Alemanha".

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Começava assim uma aula que durou 40 minutos e que manteve sempre a sala acordada, apesar de alguns dos presentes se terem deitado "às três da manhã", nas palavras do próprio comissário europeu. Um vídeo rápido e perguntas à plateia, a meio da intervenção, foram animando o momento matinal.

Sobre o discurso de Obama, Moedas lembrou o essencial. "Há dois anos, quando o ouvi falar para jovens, estávamos em plena crise de refugiados e a sair de uma crise financeira. E ele propôs um desafio: pediu às pessoas que escolhessem o momento da história em que gostariam de ter nascido. O próprio respondeu que seria hoje e a sala ficou gelada, porque a vossa geração só ouve nas notícias falar nas crises e nas guerras", contou.

Para quem não acreditava que fosse verdade, Barack Obama folheou um livro sobre os factos do mundo e começou a citar exemplos de há 100 anos: a esperança de vida era de 30 anos; 15% da população morria em guerras e em violência; e somos todos mais inteligentes, porque há 100 anos, ou até há 50, quando se criou o teste ao QI, a média era de 100 pontos ("hoje, a média está quase nos 120").

A conclusão: o mundo mudou muito nos anos 100 anos e a "culpa" não é da economia nem da política. É da ciência e da tecnologia. "A ciência não mudou tudo para melhor, mas mudou a nossa vida para melhor", disse Carlos Moedas, que elogiou a actual geração por querer mudar o mundo e ser muito diferente da sua, criada para estudar e arranjar um emprego.

"Porque é que eu tenho inveja da vossa geração? Pelo que vocês vão ver e eu não", explicou. "Visitei há semanas o primeiro computador quântico e pensei: quem me dera ter hoje 20 anos". Não que a física quântica seja uma coisa fácil de perceber ou acessível a todos, mas será certamente revolucionária, deixou antever.

Durante a aula, Carlos Moedas falou do que Einstein pôs em teoria há muitos anos, mas só agora começa a chegar à prática (física quântica, ondas gravitacionais, entrelaçamento das partículas, acção fantasmagórica à distância). "Com isso vamos conseguir ver o mundo de forma diferente. Isso vai ser na vossa geração".

Como defensor da inovação, Moedas tentou responder aos que acusam a tecnologia de destruir postos de trabalho e mostrou um vídeo muito curto em que um piloto de Fórmula 1 se aproxima da pit stop para mudar os pneus. Num primeiro momento, filmado há pelo menos 30 anos, esperam-no cinco homens. O processo demora alguns segundos até o carro poder prosseguir de novo. No segundo momento, com imagens actuais, a mudança de pneus é feita com recurso às novas tecnologias, mas há tanta gente à volta e o processo é tão rápido que nem dá para contar quantas pessoas estão envolvidas. São muitas. 

"Ninguém sabe, como ninguém soube, se a tecnologia vai destruir mais postos de trabalho do que aqueles que vai criar", conclui então. Segue-se um conselho relacionado com o mercado de trabalho: "Não pensem ir para onde os outros já foram. Pensei ir para aquelas empresas em que ninguém acredita. São essas que vão mudar o mundo". Foi um conselho que ele não seguiu para si próprio, como explicou a seguir. "Em 1998, rejeitei um convite para a Google. Na altura não tinha ideia nenhuma do que ia ser a profissão de trabalhar na Google. Achei que não tinha interesse".

Moedas não terminou a lição sem falar no que a tecnologia fez à democracia - afinal, é de política que aqueles jovens gostam. A esse respeito explicou que a União Europeia tinha como princípio básico a paz e a prosperidade, mas lembrou que os pais fundadores acreditavam também que a integração económica levaria a mais integração política. "Teríamos Europa mais unida. Assim foi, começámos com a união aduaneira, depois o mercado comum, o mercado único, a união monetária... Mas nunca chegámos à união política". E porquê? Porque entretanto o mundo digital veio "acelerar a globalização e a economia" e "tribalizar a política".

"A política tornou-se mais local com a tecnologia", defendeu, assumindo que "os populistas e os nacionalistas - termo que prefere - querem voltar a uma política ainda mais local, ainda com mais fronteiras. "Só que não podemos criar muros à economia", por isso é que a solução é voltar a sincronizar a economia e a política. "Temos de voltar a conectá-las senão temos ainda mais desigualdade", concluiu.

O combate à desigualdade não pelos impostos, mas pela tecnologia foi a proposta deixada por Carlos Moedas. "Já não é pelos impostos [que se combate a desigualdade], é pelo 'block chain'", defendeu. Mas isso é matéria para outra lição.