Opinião

E se chega a um momento em que precisa de “tirar férias” de si?

Quando nos deixamos consumir pelo consumo das novidades, a memória deixa de ser uma ponte e a nossa vida transforma-se, perigosamente, numa adição de surpresas, sem espanto, sem paciência nem futuro

E se, para terminar, chega a um momento em que conclui que precisa de “tirar férias” de si? E se, embora se aceite, o seu tempo mais livre de férias o levou a reconhecer que a sua vida não tem “a sua cara” e que não se orgulha por aí além por ser quem é? E que, por mais que faça projetos para a “rentrée”, transformar a sua vida deixou, há muito, de ser uma opção: porque as transformações exigem a humildade de reconhecermos os nossos erros, a determinação de lutarmos com eles, a paciência de aguardamos pelos resultados da nossa garra, e tudo isso exige, sobretudo, tempo?

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Num mundo que salta e pula e se “esgadanha”, pode uma pessoa reclamar o seu direito a ter tempo para crescer? Começando por ter tempo para se ser criança ou para ser adolescente? Ou, por exemplo, ter tempo para pensar? Ou, simplesmente, “ter tempo”, sem outro motivo que não seja, unicamente, “ter tempo”? Num tempo que cultiva, quase com orgulho, o “não tenho tempo”, como se pode viver de bem com o amor se até ele precisa de tempo para o aprendermos, como deve ser? Pode! Não é verdade que só tenhamos tempo livre nas férias. O tempo torna-se livre com as escolhas que fazemos com ele.

Mas, para além das escolhas que não fazemos, vivemos uma época em que a velocidade com que as novidades nos chegam e nos surpreendem ajuda a estragar o tempo que precisamos de ter para que elas nos ponham a pensar e nos transformem. Dantes, era preciso muito tempo, muita coragem, engenho guerreiro e, de certa forma, fé para chegarmos até uma novidade. Agora, não. As novidades vêm ter connosco. E são tantas e, algumas delas, tão preciosas que, estranhamente, parecem distrair-nos. E - a partir da forma como concorrem, agitadamente, umas com as outras - parecem, até, entediar-nos. É engraçado que repreendamos os nossos filhos quando eles, depois de lutarem, teimosamente, por uma surpresa - mesmo que ela chegue através de um ovo de plástico, com um brinquedo sensaborão, lá dentro - se fartam dela, muito depressa. Mas a velocidade com que nos chegam as surpresas e nos “agarram” ao seu consumo (não tanto porque nos dêem tempo para as gozar mas porque nos fartamos delas depressa e precisamos doutra novidade para que a nossa curiosidade não esmoreça) não nos deixa compreender que uma surpresa só nos leva a mudar quando ela se degusta e se pensa com a memória e com tempo. Conviver com a memória como se fosse descartável dá às novidades o estatuto de coscuvilhice. E vivermos as surpresas como se fossem coscuvilhices torna-nos quase indiferentes às interpelações que elas nos trazem. Se a memória precisa de tempo para nos reconhecermos no meio de todas as diferenças, como podemos ser sábios desprezando a lentidão?

Quando nos deixamos consumir pelo consumo das novidades, a memória deixa de ser uma ponte e a nossa vida transforma-se, perigosamente, numa adição de surpresas, sem espanto, sem paciência nem futuro. Dá que pensar a forma como quase todos procuramos “viver o momento”. Viver sem espaço para pensar não é viver mas “matar o tempo”. E nada mais nos afasta das pessoas e de nós. E do orgulho que precisamos de ter para sabermos quem somos.

Se, para terminar, chega a um momento em que conclui que precisa de “tirar férias” de si, não tire. Na verdade, o tempo livre chega-nos quando escolhemos melhor o tempo. E quando deixamos de ser adictos da surpresa, deixamos de viver “o momento” e nos damos mais ao amor, ao pensamento e à memória. Só assim, seja em que altura for, a vida será um longo período “de férias”.