Entrevista

Artur Portela Filho: "O PS impacienta-me extraordinariamente"

Artur Portela Filho assegura que as fake news promovem a desertificação da nobreza de carácter. Recorda a revista Opção, o tempo que dirigiu no Verão Quente de 1975 o Jornal Novo e uma conversa peculiar com Álvaro Cunhal.
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Artur Portela Filho: "O PS impacienta-me extraordinariamente" Nuno Ferreira Santos

Nasceu em 1937, quando a Guerra Civil devastava a Espanha, dividia a humanidade e era palco de ensaio para o conflito mundial. Envolveu-se na luta pela liberdade com a CEUD [Comissão Eleitoral de Unidade Democrática, nas eleições de 1969] de Mário Soares e garante que foi com alegria para o combate ao gonçalvismo. Observador atento e crítico mordaz, as suas crónicas na imprensa dilaceravam com bisturi de ironia as personagens do mundo político e intelectual. Estudou as relações do Estado Novo com a Espanha de Francisco Franco e a Itália de Benito Mussolini e conclui que Salazar foi um provinciano "catedraticamente promovido ou promovido catedraticamente". Não se envergonha de ter trabalhado em publicidade, o que o treinou para uma escrita mais directa. Como sintéticas são as suas respostas.

Atingiu o seu limite de artigos gratuitos

Agrada-lhe António Costa, tem prevenções face a Marcelo Rebelo de Sousa, nenhum interesse em Assunção Cristas. Mas é Durão Barroso que está no top ten da sua crítica pela ambiguidade e opacidade que atribui ao antigo primeiro-ministro e líder do PSD. Amigo de Jorge Sampaio, admirou as presidências de Soares e ignora Cavaco Silva. É defensor da geringonça mas reconhece que o PS o impacienta.

Não escreve todos os dias, afirma que na literatura, no jornalismo e na vida nunca se rendeu. Orgulha-se de manter o espírito de combate. Tem seis filhos, oito netos e garante que valeu a pena. Abomina o reverencial, o respeitinho, que mata por medíocre.

Jornalista, escritor, publicitário, investigador de temas históricos. Que mais lhe agradou neste périplo?
A ficção, porque me parece mais profunda, mais justa, mais leal no sentido de que me estou enfrentando durante meses e meses, quase quotidianamente. Ultimamente não escrevo todos os dias, continuo a trabalhar mas de uma forma mais branda de exigência.

Disse que escrever e fazer jornalismo é lutar. Ganhou essas batalhas?
Não, dizer que ganhei propriamente dito seria muito pretensioso. Há umas que ganhei, noutras teve de surgir uma bandeira branca. Não me rendi, não estou rendido, mas a bandeira branca surgiu de forma intercadente por vezes. 

Teve um papel preponderante na divulgação do Nouveau Roman em Portugal. Esta faceta foi um pouco esbatida pela sua presença mediática.
Foi com o Alfredo Margarido, foi uma experiência importante. Fui conquistado pela inovação da construção, não estávamos zangados com o neo-realismo. O que me fascinava era a fluência do discurso interior, mas tivemos um sucesso muito relativo no empenho, apesar de hoje em dia boa parte da produção literária portuguesa ter uma marca que vem do Nouveau Roman

Nos seus trabalhos históricos investigou as relações do Salazarismo com a Espanha de Franco e a Itália de Mussolini…
Depois disso não fiz mais nada em história que valesse a pena. Tenho seguido com algumas coisas, mas improdutivamente.

Dessas investigações, o que retirou de Salazar?
Habilidade, engenho e provincianismo catedraticamente promovido ou promovido catedraticamente. Mas é uma figura à qual a ficção, romances e contos, não correspondeu. Tentei em duas ou três coisas, em livrinhos, usar a figura de Salazar.

Acredita que Salazar teve um caso com a jornalista francesa Christine Garnier?Digamos que são fortes os indícios.

Um devaneio do provinciano?
Sim, sim. A frase é sua.

Mas concorda?
De alguma forma sim.

Afirmou numa entrevista a Fernando Assis Pacheco que a publicidade o treinou para uma escrita mais directa.
Sim, a publicidade, o Hemingway (risos). Lembro-me da vivência em bloco dos tempos da publicidade, mas não de um anúncio concreto que redigi. Lembro-me da agitação, na publicidade, sou do tempo de Alves Redol, não me lembro de mais nenhum, porventura não me quererei lembrar… Não me envergonho em nada de ter feito publicidade, mas há alguns outros que se envergonham. Essas pessoas sentiam-se tomadas por um serviço a uma sociedade, ao capital, quando para mim a publicidade é um jornalismo comercial em que há uma mensagem.

Comunicação e informação são a mesma coisa?
Não, não, não. A informação é, ou deveria ser, uma coisa mais responsável, mais específica, mais restrita.

Como vê hoje a informação em Portugal?
Entristece-me um pouco, como, aliás, já no meu tempo, nos finais dos anos 1950 e 1960. A informação é um jogo, tem determinados objectivos, tem uma espécie de subtexto, no fundo pretende combater a favor de uma causa que a mim não me interessa especialmente, o capitalismo.

A informação serve o capitalismo?
Também. Não digo que toda a informação serve o capitalismo, mas alguma serve.

Qual a informação que ambicionava?
A do Hemingway, por exemplo a de Por Quem os Sinos Dobram, que é uma grande reportagem.

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Salazar tinha "habilidade, engenho e provincianismo catedraticamente promovido ou promovido catedraticamente", diz Artur Portela Filho

Preocupam-no as fake news, as notícias falsas das redes sociais?
Preocupam-me. É promover a mentira, promover a desertificação da nobreza de carácter e de caracteres.

E o respeitinho?
Acho detestável o respeitinho. Acho que não há lugar ao respeitinho, há lugar ao respeito. O respeitinho é uma coisa pequenina, cultural e moralmente medíocre.

Foi um cronista mordaz, polémico, muito ácido, uma vez definiu um artista plástico como o baixo-relevo da sobrevivência. 
Era a propósito do José Ernesto de Sousa. A minha observação tinha engenho mas não insultava o homem como pessoa, mas o homem como artista.

Foi, entre 1975 e 1977, director do Jornal Novo, o diário da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP)…
Tecnicamente, a CIP administrava o jornal, mas, de facto, o jornal era bastante autónomo, aconselho a ler o Estatuto Editorial no qual eu, naturalmente, colaborei, e verá que não era um jornal ao serviço da CIP ou de qualquer outra organização do género.

Aquele era um jornal de combate?
Era um jornal de combate contra a direita, a extrema-direita e contra o gonçalvismo.

Depois de sair do jornal disse numa entrevista a Assis Pacheco que tinha sido romântico e ingénuo, que o capital tinha ganho um round. Saiu com azedume?Estive lá pouco mais de um ano. Lembro-me que saí com alguma pena, mas não de mim próprio. Saí com pena relativamente aos leitores do jornal, porque era um projecto singular. Quando o Jornal Novo chegou às bancas era, praticamente, o porta-voz do Grupo dos Nove, aliás divulgámos em primeira mão o Documento dos Nove [demarcação de militares do MFA do primeiro-ministro general Vasco Gonçalves]. Foi o actual ministro da Cultura [Luís Filipe Castro Mendes] que nos fez chegar o Documento dos Nove. Saí com azedume porque os leitores, e o mecanismo político em geral, perderam um espaço diferente.

Imagino que como director do Jornal Novo teve choques diários com o Governo de Vasco Gonçalves.
Sim, convivi com isso com ânimo e com uma certa alegria, porque tenho um cariz de acção e intervenção rápida. Fui com uma certa alegria para o combate.

Depois de director, criticou a ocupação dos órgãos de informação pela direita e disse ser difícil o papel de independente de esquerda.
Sempre fui independente de esquerda, sempre tive esse estatuto. Uma única vez admiti a hipótese de entrar para um partido, o PS, quando o meu amigo e antigo colega no liceu Passos Manuel, Jorge Sampaio, foi candidato à Câmara Municipal de Lisboa, e trabalhei na campanha dele.

De que órgãos de informação estava a falar?
Do Diário de Notícias de José Saramago. Saramago não era de direita, era um homem de esquerda, mas era um homem que punha em causa no Diário de Notícias valores da esquerda democrática.

Fundou e dirigiu a revista Opção e manteve a belicosidade das suas crónicas. Porque acabou a Opção?
Ainda durou dois ou três anos e acabou em falência. Considerava que havia mercado para uma revista, e ainda considero, mas na verdade falhou. Era o sonho de cinco ou seis jornalistas de fazer uma revista, era eu, o José Manuel Teixeira, o Francisco Agarez e outros. O autor de grande parte das capas da Opção foi o artista plástico António Alfredo, já morto, a que se deve o êxito inicial da revista que tinha umas capas diferentes. Era uma espécie de Newsweek à portuguesa que não prosperou. Éramos financiados pelo mercado, não havia mecenas. Não dava para viver, cheguei a reduzir o meu ordenado para levar aquilo por diante, não sei se mais algum colega o fez, mas eu fiz.

Esse tempo intenso desgastou a sua relação com o jornalismo?
Não, não a matou, pô-la em causa mas não a matou.

Passou a ser mais prudente nas suas opções?
 Não, não, isso não. O último jornal onde escrevi foi no i de forma graciosa, pro bono.

Sendo a informação uma pedra basilar da democracia, a crise da informação é também a crise da democracia?
Não equivale, mas é uma consequência. Uma consequência mútua, retroalimentam-se. Isto sugere-me continuar a combater pela verdade, contra a injustiça e contra a comunicação social ao serviço de entidades, personalidades ou organizações. Esse espírito de combate mantém-se vivo dentro de mim.

Acha que Portugal está alheado da sua realidade?
O país está atento, então ao futebol… o país aliás é o futebol e vice-versa. Isso é potencialmente fatal, pode vir a ser fatal, está a ser fatal para todos nós.

Disse de Marcelo Rebelo de Sousa que é um catedrático que não é catedrático, um jornalista que não é jornalista, um político que não é político. Quem temos na Presidência?
Marcelo é um caso sui generis, em muitos aspectos um caso simpaticamente sui generis, que está a reinaugurar a imagem da Presidência da República. Agora, posso pôr em causa o grau de civismo e de sinceridade de todas as [suas] posições.

Põe em causa a autenticidade de Marcelo?
Acho que é excessivamente táctico, é capaz de haver um roteiro, dá um passo hoje sabendo os passos de amanhã.

É um Maquiavel ou um Maquiavelinho?
[Risos] Curiosamente é mais Maquiavel do que Maquiavelinho, porque tem objectivos. É como no bilhar, acerta numa bola para mais tarde recolher, é a estratégia do treinador de futebol sendo a bola ele próprio.

Quando era publicitário, coincidiu com Marcelo no Expresso.
Exactamente. A minha relação com Marcelo Rebelo de Sousa foi a do lançamento do Expresso.

Eanes, Soares, Sampaio e Cavaco que antecederam Marcelo são diferentes. De quem esteve mais próximo?
Em termos humanos de Jorge Sampaio, em termos de eficácia política acho que é Mário Soares a figura mais significativa. Para o bem e para o mal corresponde mais ao meu modelo de Presidente da República.

Cavaco?
Qual Cavaco? [Risos]

Fotomontagem, um livro seu, tem na capa a fotografia de Eanes e sobre os óculos a cara de Sá Carneiro. E Eanes?
Exactamente, lembro-me da capa do livro que era da autoria do António Alfredo, o das capas da Opção. O Sá Carneiro estava nas lentes dos óculos do Eanes porque, no fundo, havia uma grande afinidade entre essas duas personagens. O tempo depois afastou-os, mas independentemente das relações entre ambos, do ponto de vista ideológico aproximavam-se bastante.

A geringonça diz-lhe alguma coisa?
Diz. Eu voto na geringonça sem problemas, voto no conjunto porque me parece que estão a trabalhar de uma forma clara e coerente.

Que políticos actuais teriam lugar nas suas crónicas de O Novo Conde de Abranhos?
Bem, os homens e as mulheres do Bloco de Esquerda e numerosas figuras próximas do PS.

Em que desempenho?
Gostaria que fosse reforçada a presença de mulheres no Governo, o que per si daria pano para mangas. Quanto aos próximos do PS… Ao longo dos anos votei quase exclusivamente no PS porque queria e não havia opção, é o que há, a democracia é o possível, é o combate por coisas “impossíveis”.

A geringonça deu um ânimo diferente ao seu voto? Com qual das componentes se identifica mais?
Deu, deu, deu. Historicamente, hereditariamente e profundamente estou próximo do PS, mas o PS impacienta-me, impacienta-me extraordinariamente também porque…

Porquê?
A resposta é o silêncio. Acho que o PS deveria fazer mais no sentido de ser coerente com a ideia base.

E o Bloco?
Para já, sendo o mais pequeno garante uma constância e uma energia maiores do que um PS excessivamente subjugado pela Europa. O Bloco correu no início o risco de ser um fogacho, mas agora cada vez menos corre esse risco.

Falta a terceira pata. O PCP?
O PC é coerente. Conto-lhe que uma vez José Sasportes e eu próprio, quando do lançamento do Jornal Novo, fomos falar com os secretários-gerais dos diversos partidos e falámos com Álvaro Cunhal. Entrámos, ele estava sentado e havia só uma cadeira em frente e ele disse: “Sentem-se”. Dissemos que “não podemos, só há uma cadeira”. Ele oferecia-nos um lugar e éramos dois, o que representa a unicidade (Risos). Disse-lhe que eu não era do PC, mas que o meu filho era do PC, e ele comentou: “isso significa que a juventude e o futuro nos pertencem”. A eles, como se viu.

Barroso, Santana, Guterres, Sócrates, Passos e Costa. Quem o arrepiou mais?
O Durão Barroso, pela ambiguidade, opacidade.

Santana diverte-o?
Sim, diverte-me. É vê-lo, ouvi-lo.

Guterres adormece-o?
Não me aborrece nem me faz adormecer.

Sócrates?
Está cada vez mais parecido com a situação do futebol em Portugal pelas trapalhadas. Passemos à frente…

Passos irrita-o?
Sim, irrita-me um bocado. Espero que não regresse tão cedo.

E Costa?
Costa agrada-me. Não me pergunta pela Cristas?

Vamos a isso…
Acho Cristas lamentável, não é sequer simpática, podia ser. Mas de qualquer forma acho que valeu a pena ela estar neste momento a desempenhar o cargo, auto desmascarando-se do papel que desempenha. Ideologicamente é uma stripper.

Mantemos o provincianismo dos tempos do Eça?
Sim, em parte, mas demos passos largos no bom sentido.

Nasceu em 1937…
A 30 de Setembro de 1937, no furacão da Guerra Civil de Espanha que, aliás, o meu pai acompanhou como correspondente para o Diário de Lisboa.

Quem nasce num furacão como esse e hoje olha para trás diz que valeu a pena?
Sim, valeu a pena. Sem dúvida que este país vale a pena, não tenho uma má relação com o meu país nem com os meus concidadãos. Tenho seis filhos e oito netos, a maioria das vezes é uma retaguarda confortável, dá-me ânimo e claro que valeu a pena.