Crónica

A quinta do pinhal

Passar directamente de paraíso para inferno é uma especialidade portuguesa. E inglesa também, em terras estrangeiras.

Em 1962 já se falava dos apartamentos da Quinta dos Ingleses. Eu sei porque tinha 7 anos e estreava-me no St Julian's, o colégio inglês de Carcavelos situado nessa quinta.

Quando explorávamos a quinta era sempre de coração na boca porque era out of bounds, proibidíssimo. Dizia-se que a casa abandonada tinha espiões mas eu nunca vi nenhum, hélas.

Numa excursão descobri um túnel escuro onde corria um ribeiro. Cheio de medo de uma ossada que parecia humana (não era, infelizmente) avancei, dobrei uma curva e, vinte passos depois - milagre! - vi-me em plena praia de Carcavelos. Tinha descoberto o caminho marítimo para a Índia.

Quando falávamos das aventuras (lícitas) naquele pinhal as professoras diziam-nos para aproveitar agora porque iam lá construir apartamentos e um hotel. E aproveitei - durante mais nove anos.

Espero que não seja agora que se vá construir o tal empreendimento com 900 fogos e grandes edifícios de seis pisos.

O que faz falta ali é o contrário da construção: é o próprio pinhal devidamente cuidado. Tem sido descuidado desde que eu me lembro, sem dúvida para desfeá-lo de modo a poder apresentar uma megaconstrução como uma maneira de salvar algumas árvores simbólicas.

Estamos a falar de 60 anos de negligência gananciosa em que aquele pinhal tão aprazível mesmo ali ao pé da praia tem sido gozado por... ninguém, para agora servir de casa para 2300 residentes.

Passar directamente de paraíso para inferno é uma especialidade portuguesa. E inglesa também, em terras estrangeiras.