Opinião

Pedrógão: um silêncio que mata

Onde anda o Ministério Público, que não se ouve falar de nenhuma investigação a propósito? Onde anda o Governo, que não fala sobre o tema?

Começa a surgir uma revolta no país a propósito dos alegados crimes de burla e outros relativos à reconstrução de Pedrógão. Os portugueses não entendem o que se está a passar e sentem-se enganados.

No ano passado, logo que sucedeu a tragédia, o país foi prontamente solidário, mas agora que se acumulam desconfianças e indícios de vigarice com o dinheiro com que contribuíram directamente ou dos seus impostos, a revolta está aí. É facto que há cidadãos ainda sem a sua casa de primeira habitação reconstruída e outros que se aproveitaram, com a conivência de titulares de cargos públicos, para “trocar” palheiros e casas degradadas de segunda habitação por edifícios novos em folha, que agora vão procurar vender, muito provavelmente, e lucrar com a desgraça dos outros.

Não é a primeira vez que se faz negócio com a desgraça. Há mesmo quem viva disso. Mas quem anda a brincar com a tragédia vai perceber que não há português que possa aceitar tal trafulhice.

Onde anda o Ministério Público, que não se ouve falar de nenhuma investigação a propósito? Onde anda o Governo, que não fala sobre o tema? E as associações nacionais de municípios e de freguesias, sempre tão prontas a reivindicar direitos e a defender os seus interesses, porque não falam agora?

Não me venham com a conversa do costume, que este é um assunto da justiça. Pois é, mas também é da cidadania. Pelo menos devíamos ouvir vozes institucionais a dizer de forma muito clara que isto, a ser verdade como parece por provas documentais e testemunhais, é inadmissível e não pode ficar impune em circunstância alguma.

E também não venham agora fazer chicana político-partidária com o assunto porque, como se sabe, todos os partidos têm telhados de vidro, como ainda agora se viu com o caso Robles.

Será que quem nos governa não entende que deixar este assunto na penumbra, sem uma palavra aos cidadãos que se moveram de forma tão solidária, vai acabar por promover a insensibilidade social, tão cara aos populismos, e boicotar futuras situações de calamidade pública, nas quais é suposto que toda a sociedade se mova de forma solidária? Ou que se corre o risco de ver emergir uma atitude geral de hipocrisia, ou seja, vai matar-nos mais um pouco como colectivo?

Há quem fale por tudo e por nada, mas também há silêncios que matam.