Aulas à beira-mar começam esta segunda-feira na Nova de Carcavelos

Obras ainda decorrem no campus junto à praia, mas já lá estão mais de 700 alunos para estrear o que os responsáveis da antiga Faculdade de Economia da Nova esperam que seja a “escola do futuro”.

Fotogaleria
Nos próximos quatro anos, a Nova School of Business and Economics (SBE) deverá chegar aos cinco mil alunos Rui Gaudêncio
Fotogaleria
Pedro Santa Clara e Daniel Traça: para o primeiro, o novo campus terá um impacto gradual, para o segundo, o lugar é “icónico” Rui Gaudêncio

O mar quase nunca desaparece de vista, porque está ali logo à frente, e a praia fica apenas a alguns passos de distância. Um anúncio de férias? Parece, mas não é.

Mar e praia passaram a ser duas das marcas de referência da antiga Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, entretanto rebaptizada como Nova School of Business and Economics (SBE), que nesta segunda-feira terá um primeiro grupo de 740 alunos a iniciar aulas num campus construído de raiz em Carcavelos, concelho de Cascais.

A instalação num lugar “icónico”, como lhe chama o director da faculdade, Daniel Traça, foi uma aposta desde a altura em que decidiram, há quase uma década, que estava na hora da abandonarem o antigo colégios de jesuítas que ocupavam em Campolide, Lisboa., porque já não conseguiam crescer mais aí.

A Câmara de Cascais acabou por ser decisiva nesta mudança ao “oferecer” um terreno de 83.000 m2 frente à praia de Carcavelos, que até então se encontrava virgem de construções, e cujo direito de superfície foi entregue a uma fundação privada que a Nova SBE constituiu para o efeito. Para este e também para receber os donativos de privados que financiaram por inteiro a construção do novo espaço, avaliada em cerca de 50 milhões de euros.

“Achámos que fazia sentido ter uma universidade numa localização icónica, que mostrasse aquilo pelo qual o país é também conhecido [mar e praia], mas que juntasse a estas valências um valor acrescentado que é o da nossa produção científica”, explica Daniel Traça, durante uma visita do PÚBLICO às novas instalações realizada na véspera da chegada do primeiro grupo de alunos alunos. O que aconteceu nesta sexta-feira para três dias de descoberta de um espaço que ainda vai continuar em obras.

Desde que a mudança foi anunciada, em 2012, à Nova SBE ficou colada, precisamente por causa da localização em Carcavelos, a etiqueta de que seria uma espécie de personificação da Califórnia na Europa. Mas Daniel Traça recusa a colagem, embora no site da faculdade já esteja em lugar de destaque a altura das ondas.

“Este espaço é a evidência que Portugal é muito diferente da Califórnia. Esta faculdade é sobretudo portuguesa, feita por portugueses, financiada por empresas portuguesas, pensada por uma universidade portuguesa, por professores que são na maioria portugueses e por um arquitecto também português, que fez deste campus um dos mais interessantes do mundo”, frisa.

Um espaço de reflexão

E porque é assim tão interessante? Porque o modo como “foi concebido, e o ambiente em que está inserido, permitem que exista um espaço de liberdade onde alunos e professores possam reflectir sobre si próprios e tentarem perceberem quais são os seus propósitos e qual é a sua forma de estar”, diz Daniel Traça, acrescentando que neste mundo em “tão rápida mudança, o que irá definir o sucesso no futuro passará muito pela capacidade das pessoas pensarem sobre elas próprias e encontrarem a sua identidade”. Isso e também “a capacidade de colocar questões que ainda ninguém pôs”, o que o director da faculdade também espera que venha a ser propiciado por este novo lugar.

Todo o novo campus de Carcavelos está salpicado de espaços, maiores ou mais pequenos, onde alunos e professores se podem sentar, falar, tomar um café, configurando um ambiente que Daniel Traça apresenta como se fosse o de “um Starbucks muito grande”. E espaço é o que não falta. Ao todo são 46 mil metros quadrados de área útil, com edifícios que não excedem os três pisos, a maior parte revestida por grandes superfícies de vidro, que se podem abrir para o exterior.

Privados em força no campus

Também vai contar com quatro restaurantes, cafés, bares, um ginásio, uma loja de conveniência, que foram concessionados a entidades privadas e que estarão abertos à comunidade exterior à faculdade, como aliás todo o campus, que contará também com uma forte presença de empresas no campus. A começar pelas que investiram mais na sua construção, como é o caso do Jerónimo Martins, Santander, Nestlé, Cisco, entre várias outras.

E o que tem isto a ver com a “escola do futuro” que Daniel Traça diz quererem construir ali? O director tem a resposta na ponta da língua. Diz, por exemplo, que, desafiaram o banco Santander, que terá uma delegação logo no hall principal da faculdade, a conceber esta agência pensando no que será a banca daqui a 10/15 anos e quais serão as necessidades nessa altura da geração que está agora ali a estudar. Insistiram que esse processo fosse feito com a participação de alunos da faculdade, o que estará a acontecer.

Também as residências, com uma oferta 122 quartos, foram concessionadas a uma empresa privada, a austríaca Milestone. Os preços por mês oscilam entre 545 euros e 695 euros, mas já não existem quartos livres. Como termo de comparação refira-se que nas residências da capital que pertencem à Universidade Nova de Lisboa estes valores variam entre 150 e 295 euros.

Apesar de Daniel Traça negar colagens à Califórnia, o certo é que na SBE se segue um costume bem americano. Quase todas as salas têm o nome de um investidor do campus. É o que se passa por exemplo com o auditório principal, que se chama Jerónimo Martins, ou com a biblioteca, apelidada de Teresa e Alexandre Soares dos Santos.

Este último edifício é um dos que ainda não estará aberto nesta segunda-feira, quando as aulas se iniciarem para os 740 estudantes dos três cursos de mestrado da SBE, metade dos quais são estrangeiros. A eles juntar-se-ão, lá mais para o final do mês, os alunos das duas licenciaturas da SBE, elevando para cerca de três mil o número de estudantes com presença no campus, indicou Daniel Traça, que espera que este número se aproxime dos cinco mil nos próximos quatro anos.

Mas deixa um aviso: “Não vamos crescer muito depressa. Podemos falar da importância da reflexão, da praia, do que quisermos, mas há duas coisas que não se podem pôr em causa. A qualidade dos professores e a qualidade dos alunos que entram. Assim que se brinca com isto, acaba-se tudo”.