Opinião

As (des)ilusões do sr. Hulot

A urgência ecológica continua a ser subalternizada pelos governos, funcionando como uma flor na lapela de boa-consciência civilizacional.

Lembram-se de As Férias do sr. Hulot? A pergunta deverá parecer excêntrica às novas gerações que provavelmente nunca viram nem ouviram falar deste filme dos anos 50 onde um homem esguio, solitário e quase silencioso semeia, com infinita bonomia, uma sorridente confusão num local de veraneio francês. Nunca é tarde, porém, para descobrir (ou revisitar), mesmo em versão DVD, as delícias que esta prodigiosa comédia nos proporciona, especialmente a finíssima ironia quase quixotesca do seu autor e intérprete, Jacques Tati, que podemos desfrutar com intensa nostalgia nestes tempos tão pouco propícios a inocências e ingenuidades. Que o diga o homónimo da personagem de Tati, o ministro francês da Transição Ecológica e Solidária (todo um programa enfaticamente proclamado) Nicolas Hulot, que na semana passada se demitiu do seu cargo, abrindo mais uma brecha na muralha do "novo mundo" político proposto pelo Presidente Macron em oposição ao "velho mundo" da direita e da esquerda varridas do mapa pela vaga de fundo eleitoral das presidenciais e legislativas de 2017.

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A demissão de Hulot, apesar de repentina e espectacular (não a comunicou ao Presidente e ao primeiro-ministro, por receio de ser dissuadido por eles, preferindo anunciá-la numa entrevista radiofónica), não foi propriamente inesperada, já que eram conhecidos há longos meses o mal-estar e a frustração que o ministro vinha acumulando no exercício do cargo. Vindo da sociedade civil e sendo a figura mais popular do Governo francês, Hulot – tal como o seu homónimo cinematográfico – era um ser deslocado do mundo. Neste caso, do mundo político que há muito o tentava seduzir para um cargo ministerial mas que ele sempre recusara por uma questão de idiossincrasia até ter acabado por ceder ao apelo de Macron.

Verdade seja dita, Macron representava – ou pretendia representar – um "mundo novo" no contexto europeu, onde continua a ser aliás a voz europeísta mais convicta face ao eixo populista (não por acaso é o alvo principal da aliança entre o italiano Salvini e o húngaro Orban). A sua aposta na ecologia parecia sincera e empenhada, tendo também aparecido como o protagonista europeu da resposta a Trump quando este decidiu abandonar o acordo de Paris sobre as alterações climáticas, lançando o slogan Make Our Planet Great Again – como contraponto ao slogan trumpista Make America Great Again.

Simplesmente, a urgência ecológica continua a ser subalternizada pelos governos, funcionando como uma flor na lapela de boa-consciência civilizacional logo ultrapassada pelos constrangimentos da agenda económica, sobretudo em tempos de crescimento mais lento do que se esperava (é precisamente o caso francês e, em geral, europeu). Pouco importa que se proclame, como fez recentemente uma antiga ministra francesa do Ambiente, que "o realismo se encontra hoje do lado da ecologia e não da economia". Por muito verdadeiro que isso seja – e é –, o curto/médio prazo das opções económicas que condicionam a vida dos governos sobrepõe-se ao longo prazo das opções ecológicas das quais depende o futuro do planeta, nomeadamente no que se refere aos riscos do aquecimento global, do esgotamento dos recursos naturais, da energia nuclear, das ameaças à biodiversidade e à preservação das espécies, por exemplo. Além disso, o peso dos lobbies económicos fez-se sentir na demissão de Hulot, como já acontecera com os ministros da ecologia que o antecederam nas presidências de Chirac, Sarkozy ou Hollande (mantiveram-se nos cargos também por períodos muito curtos de tempo).

Muito mais do que um caso francês, esta vulnerabilidade da frente ecológica constitui uma questão decisiva do mundo em que vivemos – e da qual depende, afinal, a nossa sobrevivência. Valha-nos a bonomia quixotesca dos senhores Hulot!