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Pirâmides milenares e o povo mais afável do planeta

Não haverá no mundo gente tão boa e acolhedora. Orgulhosa de ter mais – e mais antigas - pirâmides do que o vizinho Egipto. Viajar pelo país é uma estimulante epopeia no tempo. É seguro e um dos mais interessantes países africanos: além do Nilo, tem desertos, montanhas, pântanos, vida selvagem e florestas tropicais. E se recebermos inesperado convite para um casamento?

Raras vezes terei ouvido tantas advertências e apelos – “não vás” – como quando comprei os voos para Cartum. “Tirando a Síria e a Líbia, o Sudão deve ser o pior país do mundo para viajar”, avisaram-me uma e outra vez. Como é bom confirmar, no terreno, como boa parte dos preconceitos não passam disso mesmo. Logisticamente, o Sudão não é fácil – a menos que se contrate, por preços exorbitantes, uma das duas operadoras turísticas do país – mas são desafios o que procuro.

Quando se fala no Sudão, é favor não confundir com o do Sul, independente desde 2011 e que dois anos depois entrou em guerra civil, que já matou dezenas de milhares e deslocou milhões de pessoas, na maior crise de refugiados de África. É terrível, mas falamos de outro país que, quando uno, era o maior de África, estatuto entretanto perdido para a Argélia. É um facto que a região do Darfur continua por pacificar, mas o Sudão é muito mais do que isso.

Injustiçado Sudão

“As pessoas são os primeiro, segundo e terceiro motivos para visitarem este país rico de interesses e que é, garanto-vos, muito seguro. É normal que recebam convites para um chá ou café, que vos ofereçam a casa para pernoitar”, comenta Mohamed Shoier, emigrante egípcio e responsável do hotel Corinthia, onde passarei dias inesquecíveis. As viagens são feitas de memórias. Essencialmente de pessoas fantásticas e de lugares mágicos. O Sudão tem tudo isso. E num par de semanas a explorar boa parte do país,  nem por um instante me invade qualquer sentimento de insegurança. Mais do que uma vez, a caminhar na escura noite, sou abordado por condutores que me perguntam se estou bem. Se preciso de algo. Não, obrigado. Apenas desejo caminhar, sem rumo, sob as estrelas deste país duro, mas realmente apaixonante.

Incontáveis vezes, surge uma solicitação para chá ou café. Que invariavelmente não pago. Quem arranha o inglês, ainda consegue comunicar. Quem nem um suspiro consegue, ou improvisa um tradutor de ocasião ou simplesmente revela o prazer de quem está a cumprir com o seu “dever” de bem receber.

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Enquanto tenta ziguezaguear o decrépito veículo entre a pequena multidão, o taxista sugere-me um pouco mais de paciência, porém insisto em sair mesmo ali. Já há azáfama e cor de sobra a gritarem por atenção. Estou no incomparável mercado de Omdurman, a capital histórica, cultural e espiritual do Sudão, que politicamente está entregue a Cartum, na outra margem do Nilo. Creio que é o segundo maior de África, depois do Khan el Khalili do Cairo, Egipto. Rapidamente perceberei que não encontrarei turistas. E que este mercado estará entre os mais genuínos e estimulantes que até hoje visitei.

A cada passo, uma tentativa de conversa. Normalmente, em árabe. Não há problema: logo aparece alguém que arranha duas ou três palavras de inglês e ajuda ao contacto. Desafios para comer, inúmeros. E não dá para recusar. Sento-me uma e outra vez com estranhos e levo os dedos às estranhas misturas que os sudaneses vão partilhando, sempre em comunidade. Aqui é assim: não há talheres e todos dividem pratos e travessas. É seguir o lema habitual, “faz como vires fazer”. Os estímulos são tantos que sou forçado a continuar, mesmo sendo difícil deixar a refeição ainda mal provada…

Encontro a área dos vegetais, do peixe e da carne. Massas e arroz. Há a zona das roupas e produtos para a casa. Ferramentas. Especiarias. Alfaiates e ourives. Aqui cabe todo o mundo. E todas as suas actividades relevantes. Curioso o facto de encontrar bancas momentaneamente sem dono, ocupados nas orações a Alá. Com a certeza de que ninguém surripiará o que quer que seja.

Uma e outra vez, deparo-me com expressões de espanto quando me sabem português. O que faço aqui? Porquê o Sudão? Omdurman? Entretanto, insistem em selfies

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Andarei tempos infinitos em busca de uma feira de camelos – que verei mais tarde – só que o mestre do tuk-tuk anda completamente a leste. Ao fim de 20 minutos por ruas caóticas e pouco asseadas, percebemos que nem sequer sabe para onde desejamos ir. Limita-se a andar de um lado para o outro, até que notamos a sua desorientação e o interpelamos, com auxílio de tradutor improvisado na berma da rua. Continuará sem norte. Refazemos planos e ficamos na Casa do Califa, que governou o Sudão desde a então capital Omdurman. Edifício com muitos detalhes interessantes. Um crime os carros antigos ao abandono…

Atravessando a rua, o túmulo de Mahdi. Em mesquita com crentes que não deixam o herói sudanês só. Foi recuperada após os ingleses arrasarem a cidade no início do século XX.

No exterior há quem faça piqueniques. Oferecem-me comida. Ouço música e cantares. Tiro fotografias. Até às primeiras mulheres que mo permitem no país. Mais do que intimidadas ou coarctadas pela religião, sentem-se honradas, orgulhosas pelo meu interesse.

Ao lado uma madraça, mais gente interessante e a máquina que não consegue parar de disparar’ Deslumbrada em registos fotográficos até que uma mão, firme, me agarra o pulso. “Polícia do Estado. Venha comigo!”.

O gesto é surpreendente e brusco. E logo me puxa em sentido contrário àquele que seguira “Bill Sorridente”, meu companheiro de viagem, que me espera mais à frente. Insisto que não vou a lado algum sem o meu amigo. Mostro-me firme até que alguém intercede. Alhdi Karim Khalil. Minutos antes, a sua gentileza tinha-me oferecido um chá e vários dedos de interessante conversa. Neste momento, ergue-se em versão anjo da guarda.

Agora ele é o alvo da “ira” do zeloso representante da moral do Estado, que traja à civil. Não gosta que tenha questionado a sua autoridade. Que se tenha intrometido. Muito menos perante um estrangeiro. Sigo-os. Quase já me esqueceram. As “chamas” ardem em outro lado. O furioso agente da moral leva-nos até à entrada da Casa do Califa, onde chama três polícias, fardados, para discussão. Que, ao contrário do esperado, vai crescendo de tom, ao invés de serenar e tudo resolver.

Perante olhares perscrutadores, serei forçado a apagar as últimas fotos – com a autorização do próprio, retratei alguém que, pelos vistos, seria um mendigo e não um peregrino, como pensei – antes de me mandarem embora. No Sudão há regras apertadas quanto a fotos. Com efeito, até precisamos de uma declaração das autoridades, que nos deve acompanhar em todo o país (“esqueci-me” de tratar disso).

Agora que me indicam para continuar o meu caminho, sou quem fica. Alhdi Karim Khalil foi corajoso. Foi homem. Sabia que corria riscos e, ainda assim, foi assertivo em minha defesa. Neste momento, sou eu quem interrompe a conversa entre engalfinhados sudaneses. Pergunto-lhe se está tudo bem. Assente com gesto de cabeça, mas as expressões faciais e corporais dos seus interlocutores dizem o contrário. Permaneço. Só abandonarei a discussão quando o deixam ir, definitivamente, em paz. E depois de longo e apertado abraço de gratidão, pelo seu gesto e bravura, que jamais esquecerei.

É sexta-feira e, não muito longe, há dança sufi. Um ritual chamado dhikr no túmulo de Sheikh Hamad-al Nil, um líder sufi do século XIX. Os devotos dançam num frenesim e transe enquanto recitam o nome de Alá, ajudando a criar um estado de abandono extático que supostamente permite que os seus corações comuniquem directamente com o seu Deus.

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Pirâmides de Meroe, herança dos faraós negros

Dois vultos movem-se no horizonte e vão ganhando consistência no tamanho – e na nossa retina – em louca corrida. Chegarão a nós exibindo o seu amigável sorriso. Em cima dos ofegantes animais.

“Montem o camelo. É a melhor forma de chegar às pirâmides. É um belo passeio. Carregam mochilas pesadas e ainda estão longe. Com este calor, acreditem que é a opção certa”, diz-nos um dos dois interlocutores.

Com efeito, estas frases são produto da minha imaginação. Pura ficção. “Camel” é a única palavra que verdadeiramente lhe entendo num dialecto deslizante – nem sequer decifro se me fala em árabe.

O calor é realmente abrasador. Não há sombra. E ainda temos cerca de um quilómetro de caminhada até às pirâmides de Meroe, que a UNESCO classificou como Património Mundial. Foram umas três horas de autocarro desde Cartum e descemos no meio de nenhures. O caminho para as pirâmides no horizonte não passa de um trilho em areia moldado pelos rodados dos jipes que por aqui passam, a conta-gotas.

Não estou cá em turismo. Voltinhas de camelo – ou qualquer outro animal – e selfies para as redes sociais não fazem parte do guião. Os nossos anfitriões seguir-nos-ão, pacientemente, até à entrada do complexo. Tentando, com simpática insistência, convencer-nos a subir. Entendo. Aqui praticamente não há turismo. E o residual que cá chega vem de jipe. Pomposo. Em redomas pagas a peso de ouro e que pouco contacto potencia com os locais. Com o mais genuíno, a maior riqueza deste surpreendente Sudão: as pessoas.

Meroe surge-nos vedado. Com uma pequena cerca que nos encaminha para uma espécie de portal. Os últimos 30 metros de arrastada caminhada são passadeira vermelha para raro artesanato, com os vendedores a atropelarem-se na ânsia de captar a nossa atenção. Alguma coisa que vendam já lhes permite ganhar o dia. Talvez a semana ou o mês.

Precisamos de bilhete, comprado num cubículo mal-amanhado. Há um polícia com farda longe do seu esplendor, parecendo tão mendigo quanto os três outros personagens que o acompanham. É uma senhora que nos atende.  Mostra-nos uma folha amassada, rasgada e com manchas de comida com o suposto decreto-lei que define o preço de 20 dólares para o ingresso. Pena que este dinheiro não sirva para ajudar a recuperar o local, dando-lhe condições que a sua dignidade merece. Sei que será repartido por quem tem o privilégio de ter algum poder: quem aqui trabalha. Peço o bilhete, para que o meu contributo não se perca. Dá-me um papel, em árabe. Desconfio. Não tardarei a descobrir que é de um…. restaurante.

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As pirâmides não têm a mesma imponência das do Egipto. Já o sabia. E o nível de conservação não se equivale. Aqui, devemos ter tudo em perspectiva. Os visitantes no Sudão, tão maltratado nos media internacionais, são mesmo raros.

É difícil resumir 2700 anos em poucas palavras, mas tentarei: a região da Núbia (actual Sudão) estava em ascensão até que os egípcios, temendo a ambição e domínio do império rival, decidiu invadi-lo. O seu domínio foi pouco agressivo, provavelmente mais propício a propagar os seus valores e crenças.

Mais tarde, numa altura em que o império egípcio estava dividido, o rei na Núbia, Piye (770 a.C.), investiu militarmente, tentando reunificar politicamente a nação, o que conseguiu. E foi assim que deu início à 25.ª dinastia, conhecida por ser a dos faraós negros. Terá durado cerca de um século, até que, em 674 a.C., os assírios invadiram o Egipto e acabaram assim com o reinado do último faraó negro, Taharga. Foi um século de supremacia de uma civilização africana, contrariando a ideia generalizada no Ocidente quanto ao atraso dos povos deste continente.

Com o fim da dinastia, os faraós negros voltaram para a Núbia e desenvolveram uma civilização singular, que se nos revela hoje nas 117 construções, a maior concentração de pirâmides do planeta. Deambulando por este santuário, que alberga parte das pirâmides do país, imagino como seria nesses tempos. Acredito que este lugar seria bem mais fértil. Actualmente está quase engolido pelas dunas douradas. E nelas este riquíssimo património apaga-se e quase se confunde com a paisagem monocromática.

As pirâmides até que resistiram bem aos séculos, mas sofreram demasiado com a ganância dos exploradores europeus. Em busca dos tesouros dos núbios, o italiano Giuseppe Ferlini (1834) explodiu, com dinamite, o topo de todas as pirâmides. O saqueador encontrou pouco ouro e destruiu muita história. Fez-nos o favor de tornar ainda mais difícil desvendar os mistérios do reino que sobreviveu a egípcios, gregos e romanos.

À boleia no Sudão

Estamos apeados e a 100 quilómetros de Atbara, onde é suposto passarmos a noite.  Há a estrada nacional e um sem fim de camiões TIR. Conto três entre o polegar direito levantado e a nossa boleia. Acho até que Joseph nem nos terá visto. Parou como andava a fazer, de 30 em 30 quilómetros, para meter água no radiador. Tinha uma fuga e temia danos irreparáveis na carcaça que parece ter dois séculos. Será excelente companhia de viagem. E nem precisa saber mais do que meia dúzia de palavras em inglês.  Que saudades de boleias TIR em estranhos países…

No dia seguinte, imbuídos de igual espírito, e contrariando as indicações da polícia, tentativa de boleia à saída de Atbara para os desérticos 300 quilómetros até Karima. Do luxuoso hotel de Cartum (o Corinthia é o mais emblemático e, muito provavelmente, o melhor hotel do país) tínhamos passado para um de cinco dólares a noite, valor a repartir por dois. O banho tinha sido de toalhetes (como passei a apreciar as suas virtudes em cinco dias na Depressão de Danakil, na Etiópia) e ainda não tinha tomado o pequeno-almoço. Duas horas de sol crescente até que decidimos comer. Pão duro. Feijão seco. Um molho superpicante. E outro gorduroso. Maravilha. 

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Mais meia hora de infrutífero polegar em riste. Até que Mohamed Ibrahim nos avisa que ali dificilmente conseguiremos ser bem-sucedidos. Esta rota não é de TIR. Somente para pequenos camiões para as redondezas e carros. Cinco minutos após o aviso, surpreende-nos. Já inverteu a marcha e vai levar-nos de volta a Karima. Ou à entrada. Arranja-nos transporte – que paga, não nos aceitando um “cêntimo” – para a central de camionagem e despede-se. Não é a primeira nem será a última vez que os humildes sudaneses me comovem…

A menos de 400 quilómetros de Meroe, há um rochedo que nos torna senhores do mundo. Uma montanha imponente, mas não infinita. Subir ao cume não é fácil e, na realidade, nem todos o conseguem. Ofegante e desidratado, aprecio a fantástica sensação de conquistar o fabuloso Jebel Barkal, de onde juraria poder avistar todo o Universo.

Este rochedo, plantado em imensa planície a perder de vista, ao lado de uma acentuada curva do rio Nilo, na região Núbia, tem desmedido valor histórico e arqueológico, reconhecido pela UNESCO em 2003 quando a elevou a Património Mundial. A par das não muito distantes cidades históricas de Meroe e Napata.

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A elevação, que é plana no topo, tem parcos 98 metros de altura, mas é exigente o esforço que a subida exige. Na verdade, Jebel Barkal é bem autoritária, um dos motivos pelos quais era utilizada como um ponto de referência pelos mercadores da importante rota entre a África Central, a Arábia e o Egipto, até porque aqui era dos pontos onde era mais fácil atravessar o grande Nilo.

Jebel Barkal foi o limite meridional do império do faraó egípcio Tutmés III (1450 a.C.). Estamos nas proximidades de Napata, que viria a ser a capital do Reino de Cuche, que chegou a dominar o Egipto (720 a 660 a.C.), a sua 25.ª dinastia. A dos faraós negros.

Em torno de Jebel Barkal encontramos ruínas – em elevada degradação – de 13 templos e três palácios, que foram descritos pela primeira vez por exploradores europeus na década de 1820. Os templos maiores, como o de Amon, no sopé da montanha, continuam a ser considerados sagrados pela população local.

Estamos nas imediações de Karima, que serve de base para explorarmos a antiga cidade de Napata, com história bem atribulada, bem como as pirâmides de El Kurru (um dos locais de enterro da família real que incluía, também, túmulos de cavalos) e Nuri.

Um aperto no peito pelo facto de a pobreza do país – e a escassez de turismo, que poderia potenciar outro cuidado do património – não permitir que a conservação deste riquíssimo legado seja uma prioridade. A erosão do tempo está a levar-nos, definitivamente, importantes símbolos de gloriosa antiguidade. Dada a míngua de recursos, os sudaneses não se coibiram, um pouco por todo o lado, de usar pedra das pirâmides para construir as suas próprias casas.

Perto do horizonte, pirâmides e mais além o sol a pôr-se, abraçando o cenário com cores quentes e espessas. Parece ficção científica. Afinal, é só pura poesia…

O périplo pelo Sudão, com longas horas em madrugadores autocarros, com eternos vídeos de sermões do seu líder religioso alternado com música tradicional, inclui ainda a estimulante Kassala. É onde me deparo com um dos mais extraordinários edifícios que já encontrei, a mesquita Khatmiyah, na base da montanha Taka, palco de um improvável complexo turístico, com rudimentares bares e restaurantes nos socalcos da natureza. De Dongola recordarei essencialmente o pesadelo dos milhões de mosquitos junto ao Nilo e do seu aeroporto fantasma, com múltiplos funcionários e sem voos, tal como Karima. Port Sudan, no mar Vermelho, destaca-se pelo seu gigantesco porto, mercados e bom peixe, do qual estava demasiado saudoso.

Este amor só podia dar em casamento

O seu sorriso é mais branco do que o longo vestido que embrulha, com muito charme, o dia mais feliz da sua vida. Os seus olhos brilham com a intensidade dos puros e a vivacidade dos inocentes. É uma noiva que dá prazer observar. Dança com profunda alegria e ainda mais sensualidade. No meio de amigas. E rodeada por outros homens. Afinal, já é uma mulher casada.

O convite chega no próprio dia. Irrecusável. Um casamento no Sudão?  Estranho a festa começar à noite, mas explicam-me que entre Novembro e Fevereiro é quando o calor dá mais tréguas nestas latitudes. E quando o Sol se põe não há o perigo de noivos e convidados derreterem. “É, por isso, a principal época para matrimónios”, explica-me Azza, quem me desafiara para cerimónia. E que conhecera de véspera.

A música é ocidental. Há luzes, brilho e glamour. E equipa de reportagem de vídeo com meios técnicos de fazer genuína inveja a algumas televisões. Definitivamente, este não é um enlace entre protagonistas do povo.

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Algumas das mais belas senhoras que vejo no Sudão encontro-as aqui. E poucas usam o véu islâmico. Ao contrário do que ensinam os mais radicais, curtem música e dançam como se o seu derradeiro suspiro fosse ao nascer do Sol. Contagiante.

O catering vem em pratos protegidos por plástico. Pequenas espetadas, falafel, pão e algo doce. E outras coisas que nem decifro bem. As bebidas devem ser levantadas no bar, sem direito a álcool.

Os noivos desaparecerão. Durante mais de uma hora. Haverá expectativa. Voltará a mais formosa mulher da noite sem o seu luxuriante vestido branco, trajando agora a tradição sudanesa. Em termos pessoais, muito mais estimulante. Bela e genuína.

Há tradições e rituais com os pais do novo casal que apenas adivinho o significado e as amigas da dupla que irradia felicidade usam – e abusam – de entusiastas e estridentes sons potenciados com a língua, dando liberdade ao seu júbilo. Ao lado do coreto improvisado, um grupo de seis senhoras, mais velhas, canta, ininterruptamente, músicas tradicionais.

A consumação do enlace é só o derradeiro capítulo desta cerimónia, que no Sudão é influenciada por crenças religiosas e culturais, com o tradicional islão a ceder a novas tendências da modernidade ocidental, num equilíbrio que as tornam belas e únicas.

As cerimónias costumam durar dias, sendo que cada um dos noivos tem um papel específico, embora boa parte das atenções se centrem na mulher. Aqui, os casamentos podem ser divididos no noivado, na preparação e na consumação do mesmo.

Os casamentos arranjados continuam a ser bastante comuns no Sudão, algo inclusivamente encorajado pela fé muçulmana. Seja neste registo ou noutro mais moderno, as famílias devem encontrar-se antes. O pretendente é obrigado a fazer uma boa oferta em troca da mão da donzela. Tradicionalmente, um rebanho de gado – a primeira prestação sela o “contrato” e o restante é entregue no dia do enlace – mas, nos últimos anos, começou a incluir dinheiro também. No caso que presencio, não vejo que tenham entrado animais no acordo.

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Os preparativos demoram cerca de um mês e a casa da noiva, quem recebe quase todo o foco, é a base de boa parte das actividades. Cercada por mulheres – familiares e amigas – passa por rituais de beleza para prepará-la para o dia mais importante da sua existência. Até à data. Cuidam do seu cabelo e o seu corpo é mergulhado em perfumes e incenso. Uma festa da henna envolvendo doces e cânticos enquanto adquire intrincadas tatuagens nas suas mãos e pés é crucial para os preparativos, porque, acreditam, afasta os maus espíritos.

O dia D. A prometida está nervosa, como todas, e o seu amado chega a sua casa, começando por saudar a futura sogra, a quem compete dar permissão para o pretendente entrar. Após o sim, a sua comitiva segue-o, qual romaria.

Há então um sermão religioso, após o qual o casal beija os joelhos dos seus pais e busca as suas bênçãos. Canções tradicionais são cantadas para elogiar o casal e desejar-lhes todo o bem.

A maioria dos convidados aparecerá unicamente na festa. É o meu caso. Esta bela cerimónia não é certamente um casamento arranjado. Tenho o privilégio de assistir ao epílogo do que espero seja uma verdadeira história de amor, igual à que me passa a unir ao Sudão.