Crítica

Há festa a esta mesa de Esposende

É aprazível o ambiente, convidativa a cozinha e há um serviço competente e exemplar a proporcionar satisfação redobrada. Eis o Varandas do Cávado.

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Paulo Pimenta

Em espaço autónomo em relação ao Hotel Suave Mar, onde se insere, o restaurante Varandas do Cávado oferece um menu assente na boa cozinha da região, carta de vinhos abrangente e criteriosa e um serviço exemplar, em ambiente simpático, acolhedor e aprazível.

Aqui tudo parece fazer sentido, a começar pelos nomes, que logo se percebe contrariarem a sua aparente banalidade. É quando nos sentamos à mesa que se torna evidente que o espaço é uma espécie de varanda sobre o Cávado e a vista se espraia de modo suave sobre o mar no horizonte para lá da foz do rio e da restinga de Ofir.

Mesmo em contexto urbano, há um enquadramento natural conferido pelo Parque Natural do Litoral Norte, uma faixa costeira de 16km que se estende da Apúlia à foz do rio Neiva, abrangendo o pinhal de Ofir e toda a área urbana de Esposende.

A própria marginal da cidade, povoada de moradias e jardins de inspiração modernista, se apresenta com cuidado cenário de enquadramento natural, que nem o mau gosto com o disparatado remate em letras garrafais pintadas de amarelo (com o nome da cidade) consegue desvirtuar. Com passadiço apropriado, é cenário bem convidativo para passeios à beira-rio a desfrutar da natureza, mas também, concluímos agora, para repastos de grande satisfação. 

E nem é preciso entrar no hotel, que o restaurante tem porta para a marginal, dando acesso a uma pequena área de recepção. A sala, longitudinal, com mobiliário branco e decoração em tons de bege, destaca a abundante luz natural, apenas filtrada por elegantes cortinados e floreiras exteriores. Sentam-se à vontade uns setenta comensais, com espaço entre mesas que, não sendo exagerado, garante a necessária autonomia e funcionalidade do serviço.

Toalhas e guardanapos em algodão, baixela elegante e funcionários ataviados em estilo informal, com longo avental cor de leite com café a sobrepor-se ao rigor da calça preta e camisa branca. Pormenores, que não o são assim tanto quando percebemos que o serviço é uma clara mais-valia neste restaurante. Já lá vamos! Antes a carta, que oferece todos os dias uma série de “sugestões do chef”, segundo a oferta de mercado e lota, onde se destacava o cabrito à padeiro assado no forno, com ares de ser um clássico de fins-de semana, como era o caso. Destaque também para os pratos de bacalhau — à Narcisa, lagareiro, ou grelhado na brasa —, os filetes — de pescada e de linguado —, o polvo na caçarola — uma receita da casa premiada em concursos locais — e o arroz de peixes à Esposende, segundo a oferta diária da lota local.

Nas carnes, há como propostas fixas uma posta de vitela com batata crocante, tornedó trufado com escalope de foie e magret de pato com frutos vermelhos. Cozinha clássica segura e receitas da tradição regional, com preços que variam entre 17 e 23 euros, a que acresce a oferta de “massas e ovos” que inclui omeletas diversas, esparguete à bolonhesa, lasanhas e risottos (13/17€). 

Há também um chefe de sala, de fato preto, clássico no enquadramento, mas bem moderno no tablet com que ordena e comanda o serviço e na linguagem cordial e objectiva com que apoia os clientes. Vítor Ferreira, informava a placa na lapela, apoiado por uma equipa que mostrou ser ao mesmo tempo eficaz e profissional, solícita e cordial.

PÚBLICO -
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Paulo Pimenta

Sem mordomias ou salamaleques, focada no serviço e na atenção ao cliente, e cobrindo todas a faixas etárias, homens e mulheres, do jovem quase adolescente ao mais experiente e seguramente acima dos 70. Um exemplo que bem merecia ser visto — e seguido – por boa arte da restauração.

E é preciso referir que não se tratava de um contexto dos mais fáceis. Ao domingo, sala cheia, com clientela diversificada à base de grupos familiares com crianças e idosos.

A par de uma tacinha de azeitonas — variadas e bem temperadas —, também um cestinho com vários tipos de pão (tostinhas, branco, mistura, com passas e cereais, e centeio), pratinho com bolinhos de bacalhau (dois por cada pessoa). Também manteiga das Marinhas, como se sabe um produto local de grande qualidade. Tudo a gosto, com evidente critério e a proporcionar uma boa primeira impressão, com destaque para a qualidade dos bolinhos de bacalhau.

Das entradas, pediu-se o “carpaccio de carne” (9€) e as “amêijoas à Bulhão Pato” (12€), de uma lista que, além de sopa ou creme do dia, incluía também “camarão à Suave Mar” (frito em azeite e molho de tomate), “salmão fumado com folhas verdes” ou  “cogumelos Portobello” (10/13,50€).

Plena satisfação com o carpaccio de vitela (mirandesa), com alcaparras, folhas tenras de alfaces verdes, fundo cítrico, azeite de qualidade e saborosa vinagreta, que parecia incluir azeitona e alcaparra triturada. Bela entrada e em quantidade generosa.

Também de boa qualidade as amêijoas, mas com o sabor claramente prejudicado pelo que pareceu ser o excesso de vinho (branco) usado no cozinhado. Em vez do desejado — e esperado — sabor e aroma marinhos, os bivalves pareciam antes saídos de uma expressiva vinha d’alhos de sabor bem acentuado.

Antes do cabrito, que bem se recomenda, houve que provar o “arroz de peixes à Esposende” (18,50€), caldoso em fundo de tomate, saboroso e envolvente, que chega à mesa em conveniente tachinho preto, que mantém a temperatura e o sabor do caldo. Cozedura em ponto rigoroso, com postinhas de peixes onde se identificavam tamboril, robalo, amêijoa, salmão, linguado (?) e lula, de belo sabor e acerto culinário, mesmo com alguns peixes a mostrar a rigidez da congelação.

Há festa com o “cabrito à padeiro” (20€), em dose generosa (costelinhas em abundância), batatinhas redondas em molho do assado e o arroz de açafrão com miúdos no mesmo tachinho de ferro que o mantém no ponto guloso. É prato de domingo e há festa à mesa! Mais intensa e reconfortante quando teve a companhia de um clássico Garrafeira Bairrada, um tinto de 1984 das Caves Aliança, ainda pujante, saboroso e envolvente e fresco. 

E este é outro dos pormenores que revelam uma saborosa surpresa e definem o sentido gastronómico deste Varandas do Cávado. A lista de vinhos, com oferta abrangente, equilibrada, a preços justos e cobrindo o país, abre precisamente com uma lista de “Garrafeiras com Idade”. Um rol de preciosidades das décadas de 1970 a 90, com cerca de vinte propostas a preços conscienciosos (22/25€), à base do Dão e Bairrada.

Também aqui um belo exemplo para boa parte do sector, que muitas vezes expões estes valiosos vinhos como relíquias ornamentais ou peças de pechisbeque, em vez de os disponibilizar aos clientes. Coisa para quem sabe, claro!

Para finalizar uma bela clarinha — outra especialidade local — e uma rabanada crocante, que voltou a fazer brilhar o Garrafeira de 1984.

Esposende convida ao prazer gastronómico e há potencial e festa nesta varanda voltada ao Cávado e à suavidade do seu encontro com o Atlântico.