Opinião

Eu é que fiz o claustro da Sé de Lisboa, e mais nada!

O que se projecta, e está em curso, no claustro da Sé de Lisboa, Monumento Nacional, é a nosso ver um atentado ao património, e configura mais dúvidas do que certezas.

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Patrícia Martins (arquivo)

Em Lisboa já não há lugares a salvo das investidas de arquitectos enroupados em linguagem dita contemporânea, logo por definição, progressista, amiga do futuro e de uma cidade que dizem não querer estática, etc. e tal. Qualquer comentário crítico em relação à bondade dessa tese é olhado de lado, menosprezado e tido como um lamentável provincianismo bacoco e ignorante. Quase ninguém ousa ripostar sobre a facciosa e dúbia argumentação que advoga, entre tantas outras singularidades, a ideia de que, se um monumento nacional já foi intervencionado no passado, porque carga de água não o poderá ser continuamente, neste e noutros presentes de outras roupagens?

Haja, por isso, quem reclame: as vicissitudes que determinado bem patrimonial tenha sofrido no decurso da sua história, não podem justificar intervenções que acentuem o divórcio entre a época em que foi edificado e aquela em que nos é dado poder usufruí-lo. E que na cidade devem permanecer zonas a salvo dessas investidas que condenarão irremediavelmente a integridade do sítio, por via da dissonância, que rebaixará desde logo a bitola da valia patrimonial que levou à classificação do bem, bitola sócio-cultural mas também arquitectónica.

Spiritu loci, o ICOMOS redigiria a declaração de Québec em 2008, frisando justamente a necessidade da preservação do espírito do lugar, através da protecção do património material e imaterial como formas inovadoras de se assegurar o desenvolvimento sustentável. Afinal, nada mais moderno e na ordem do dia das preocupações mundiais.

Nada disso preocupou os autores, os promotores ou os decisores das obras em curso no claustro da mais importante igreja de Lisboa, a Sé-Catedral, Monumento Nacional. Que disso não haja a mais pequena dúvida.

Mais uma vez ressalvamos (porque há quem ainda não tenha percebido a diferença) que não estão em causa as justas preocupações em valorizar os achados arqueológicos, acabando com a vergonhosa cobertura de “galinheiro” que ali esteve durante décadas. Rearranjar-se o claustro e dar-se uma nova dignidade aos achados arqueológicos são pontos incontestáveis, e de aplaudir junto a quem de direito.

Já não o são (foram) o projecto escolhido, a forma como o processo foi conduzido e o (agora parece que alegado) financiamento comunitário. Vamos por partes:

1 – O projecto escolhido (cujo autor, o arq. Adalberto Dias, é marido da actual Directora-Geral do Património Cultural) propõe a abertura de uma porta na muralha sul do monumento e a construção de uma torre à altura dos dois pisos do claustro, de risco contemporâneo e revestida a azulejo espelhado, de um tom pardo.

Portanto, iremos ter num claustro gótico, o único existente na cidade, uma torre em linguagem claramente dissonante com o espírito do lugar e com a integridade visual e monumental existente até agora.

Os argumentos expostos para a legitimidade de uma tal intrusão no centro de um dos Monumentos mais emblemáticos do país, é mais do mesmo, “a Sé já foi intervencionada”; “nada do que lá está representa a pureza original da sua construção”; “as intervenções de Augusto Fuschini e de Couto Abreu acrescentaram num pastiche deplorável elementos revivalistas”;  "as várias campanhas de obras ao longo dos séculos, afastaram a Sé da sua aparência original."

Em parte é verdade, mas por essa linha de raciocínio seria bom remover-se grande parte da estatuária da Notre-Dame de Paris, colocada no século XIX na grande campanha de restauro e reposição da integridade gótica do edifício, bastante prejudicada pelos excessos revolucionários do século XVIII. Os arquitectos Viollet-le-Duc e Lassus souberam interpretar o que os parisienses quereriam e devolveram à cidade o monumento que é hoje um dos seus símbolos. O mesmo se poderá dizer, por exemplo, da catedral de Viena cujo telhado foi reedificado após os bombardeamentos da 2.ª Guerra Mundial; ou dos nossos Jerónimos… sendo ainda importante não esquecer que essas intervenções no passado, embora executadas segundo o gosto ou estilo da época raramente ou nunca o foram com materiais "dissonantes", bastardos ou alienados ao sítio a que destinavam.  

Mas por cá é-se tido como provinciano se se defende a integridade de lugares e monumentos e que estes não podem ser violentados por projectos com “marca de autor” (os quais assim esperam ganhar a eternidade).

Continuamos a defender que ninguém deveria achar-se capaz de refundar o claustro da Sé de Lisboa, um monumento carregado de história. Enganámo-nos. Porque humildade e discrição não parecem ser moeda corrente em certos ateliers, corredores e mentes de alguns decisores. Apesar das convenções e das recomendações da Unesco ao ICOMOS, nada muda. Se é para intervir que se brutalize.

2 – A forma como o processo foi conduzido: da evidente falta de consulta pública - a existência de três artigos numa revista de reduzida divulgação, e uma sessão de apresentação na sede dos arqueólogos não chega para se dizer que houve consulta pública, ou chega? – à selecção da equipa projectista, pois teria sido mais justo e coerente se a equipa escolhida não estivesse tão próxima da DGPC, que o está e que disso também não restem dúvidas.

Aliás, não se chega a perceber se houve concurso público ou ajuste directo, se houve outros interessados em desenvolver o projecto e a obra, vá-se lá saber porquê.

3 – Por fim o financiamento: na obra ostenta-se um cartaz oficial que afiança ter havido financiamento comunitário através do programa Portugal 2020. Mas em resposta a uma nossa pergunta, a DGPC afirmou que não teria dado entrada nenhum pedido/candidatura da entidade promotora, o Cabido da Sé. Em que é que ficamos?

Em jeito de remate, acreditamos no seguinte: por mais importantes que sejam uns achados arqueológicos, estes não devem suplantar a importância da leitura do lugar onde se encontram. Em casos tão sensíveis como este, o argumento da necessidade de salvaguardar os vestígios arqueológicos não pode ser o óbice à implementação de determinado projecto – e projectos há muitos (como chapéus) - e neste caso deveria ser obrigatório escolher-se aquele que fosse capaz de articular esta salvaguarda como o respeito pela envolvente construída. Não se pode aceitar que a arquitectura do presente suplante, na sua arrogância, tudo o resto: as arquitecturas do passado, o espírito do lugar, diríamos mesmo a própria arqueologia, porque perfurar-se a muralha da Sé e enfiar-se num cantinho do claustro com uma escada revestida a azulejos, isso nada tem que ver com a exposição dos vestígios arqueológicos.

O que se projecta, e está em curso, no claustro da Sé de Lisboa, Monumento Nacional, é a nosso ver um atentado ao património, e configura mais dúvidas do que certezas, já para não falarmos no quão esquecidos estão os promotores em relação a “minudências” como, por exemplo, uma magnífica sacristia que ninguém pode visitar, o órgão do Evangelho que não toca há séculos, um dos torreões da fachada que até há poucos anos inspirava os maiores cuidados a nível da estrutura (já teve obras?).

Já Carlos V dizia, referindo-se à construção da catedral de Córdova no meio da maravilhosa mesquita omeíada: “arrasaram o singular, o raro, o que poucos viram, enxertando-lhe o que já todos conhecem e viram”. Estávamos no século XVI.

É pena que os arautos da nossa caseira modernidade, de trivial contemporaneidade, façam tábua rasa do pré-existente e insistam na triste ideia de que nada é imutável. Mas é justamente essa urgência em guardar para as gerações vindouras a integridade do que pode perecer, que nos leva a querer salvaguardar o nosso património no que ele tem de excepcional e singular, no caso, a Sé de Lisboa.

Pelo Fórum Cidadania Lx

Paulo Ferrero, Miguel de Sepúlveda Velloso, Bernardo Ferreira de Carvalho, Pedro Cassiano Neves, Júlio Amorim, Eurico de Barros, Henrique Chaves, Miguel Jorge, Rui Martins, Jorge Santos Silva, Jorge Pinto, Luís Mascarenhas Gaivão, Helena Espvall, José Maria Amador, Pedro Janarra