O imenso Mike Leigh e o stalker Luca Guadagnino

Não é apenas um “filme de época”, parece um documentário sobre a língua, a alimentação e a fome, as roupas e as cidades, a habitação e a política da Inglaterra do século XIX: Peterloo. Um remake de um clássico em que a homenagem persegue o kitsch: Suspiria.

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Peterloo, que Mike Leigh trouxe à competição do Festival de Veneza pela mão da Netflix dr
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Peterloo, de Mike Leigh dr
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Suspiria de Luca Guadagnino Alessio Bolzoni Cortesia da Amazon Studios
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Suspiria de Luca Guadagnino Alessio Bolzoni Cortesia da Amazon Studios
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Suspiria de Luca Guadagnino Cortesia da Amazon Studios
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Suspiria de Luca Guadagnino Cortesia da Amazon Studios

Para começar, o imenso filme de Mike Leigh. “Imenso” não serve só para encerrar Peterloo numa gaveta qualitativa, não serve sequer para dar conta das mais de duas horas e meia de duração. “Imenso” porque a experiência do espectador é lidar com uma matéria viva, em expansão, o que torna cada plano, cada sequência, uma experiência densa e épica – alguns resumirão, se calhar, que é preciso paciência.

O extraordinário nisto, para além do mais, é que falamos de um “filme de época” ou de um “drama histórico”, algo que costuma resguardar o espectador de aventuras revolucionárias. Peterloo, que Mike Leigh trouxe à competição do Festival de Veneza pela mão da Netflix, reconstitui o massacre de Peterloo, em Manchester, quando, no dia 16 Agosto de 1819, a cavalaria carregou sobre uma multidão, estimada entre 60 mil a 80 mil pessoas, que se juntara de forma pacífica em St Peter's Field para exigir a reforma do sistema de representação parlamentar e melhorias das suas condições de vida – no seguimento da batalha de Waterloo e da derrota das tropas de Napoleão, a Inglaterra vive em crise económica profunda, os conservadores rechaçam quaisquer veleidades, que consideram radicais, que façam cheirar a Revolução Francesa, o sistema de classes está num dos seus momentos de maior arrogância e crueldade.

O massacre, 15 mortos e entre 400 a 700 feridos, é a sequência final. Para chegarmos aí – e por isso “reconstituição” não chega para esgotar Peterloo – é como se o “filme de época”, para dar conta da época, se tivesse transmutado em documentário, ou então o “drama histórico” tivesse tido a coragem, o fôlego para contar uma história da vida privada, da língua, da alimentação e da fome, das roupas e das cidades, da habitação e da política. Peterloo não é só um filme sobre um acontecimento, é um filme sobre a sociedade em lento mas imparável movimento.

A pesquisa foi “infinita”, disseram apropriadamente Leigh e os seus actores e colaboradores, foi esse o material de trabalho. Há pintura, literatura, história, crónica nas sequências, mas o que é enorme no filme é a paciência e a intransigência com que Leigh apaga a ênfase melodramática ou pitoresca para pintar o individual e o colectivo. Já não é a primeira vez que o cineasta britânico, ao parecer sair fora do seu trabalho sobre o presente e o melodrama, nos atira com objectos mais inclassificáveis, mesmo contando com tudo o que à partida existe de peculiar no seu cinema. Assim Peterloo está já no grupo de Topsy Turvy (1999) e de Vera Drake (Leão de Ouro em Veneza 2004).

Sobre essa deriva de jogo com os géneros, Frères Ennemis, de David Oelhoffen, propõe uma interessante humanização do “polar” francês. Banlieu, um polícia (Teda Kateb) e um traficante de droga (Matthias Schoenaerts), ambos da mesma “cité”, um deles tendo “traído” o seu meio para ascender na vida e escapar ao crime. É um filme sobre o encontro entre as duas personagens divididas e sobre o apelo de tragédia, que está sempre a tentar libertar-se das marcas do “género”, o policial, a tentar encarnar o movimento. Movimento, por sinal, contrário a um anterior filme do cineasta francês, Loin des Hommes (Cannes 2014), que aprisionava um conto de Camus no western.

E agora um stalker, Luca Guadagnino. Foi assim que o cineasta italiano se descreveu, “stalker of master filmmakers”, ao falar sobre si próprio, ao contar um episódio dos seus 14 anos, depois de ter visto Suspiria em Palermo e depois de alguém lhe ter segredado que Dario Argento almoçava num restaurante da esquina: Luca pregou a cara vidro do restaurante a ver Argento comer. É isso que continuou a ser como realizador, cara colada com vista para outros cineastas, em filmes como Sou o Amor (2009), A Bigger Splash (2015) ou Call me by Your Name (2017).

Agora temos o seu remake de Suspiria (concurso), o stalking continua. Os mais fervorosos, e muitos deles vão dar publicitários entusiastas, gritam que é o novo Kubrick ou o novo Fassbinder. Assim, sem mais nem menos. Vem parar aqui o nome do alemão, a bizarria explica-se: Guadagnino inunda a história escrita por Dario Argento e Daria Nicolodi, que se passava numa Tanz Dance Academy de Friburgo, Alemanha, que era um albergue de bruxas, na Berlim dos anos 70, junto ao Muro. É a “Alemanha no Outono” dos Baader-Meinhoff e do confronto ideológico com a geração dos pais cúmplices do Nacional Socialismo como em A Terceira Geração de Fassbinder. Guadagnino convida mesmo Ingrid Caven, a homenagem torna-se pastiche. Mas é indesmentivelmente ambicioso nas suas referências e convites: dança (Tilda Swinton é um clone de Pina Bausch) e psicanálise, arquitectura e decoração, o Muro e o Holocausto, Jessica Harper, que era a bailarina Suzy Bannion do filme de Argento, personagem agora interpretada por Dakota Johnson, e o Kubrick de Shining… É possível que o filme nos engane inicialmente, porque é ousada a forma como Guadagnino faz da dança, através da montagem, a experiência do espaço e dos cenários, simultaneamente uma coisa física e transcendente. Em suma, a convocação de elementos é tão febril, que ficamos na expectativa. Mas Suspiria vai revelando, se ainda dúvidas houvesse, que o rapazinho com olhar boquiaberto sobre os master filmmakers se tornou num insuperável coleccionador de kitsch.