Artes

À quarta edição, a Contextile está mais próxima da comunidade

A bienal de arte têxtil de Guimarães vai exibir obras criadas a partir de tecidos vários. A ligação com a comunidade é mais visível nesta edição, como o prova a instalação de Ann Hamilton.
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Um molho de curtumes acinzentados, uma colecção de casacos de lã, do amarelo-claro ao castanho-escuro, e várias pilhas de fotografias com feições distorcidas — de animais, tecidos, arte sacra e artefactos arqueológicos — reúnem-se numa das salas do Centro Internacional de Artes José de Guimarães (CIAJG). São retalhos da representação de Guimarães que a norte-americana Ann Hamilton construiu no Verão, durante a residência artística na cidade, denominada Side-by-Side (Lado-a-Lado). Marcada pela dualidade entre animal e homem, individual e colectivo, imagem e objecto, museu e mercado, passado e presente, a instalação da artista de Ohio é um dos destaques da quarta edição da bienal de arte têxtil de Guimarães (Contextile), que arranca neste sábado e se prolonga até 20 de Outubro.

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Esta obra, que vai estar exposta até 25 de Novembro, propõe um itinerário por vários espaços — alastra-se pelo CIAJG, pela Sociedade Martins Sarmento (SMS), pelo novo mercado municipal e pela Plataforma das Artes, praça que ocupa o lugar do antigo mercado. Atravessa também vários tempos, desde o do medieval tratamento de curtumes até ao da contemporânea indústria têxtil. A primeira etapa do projecto decorreu, porém, na biblioteca da Sociedade Martins Sarmento. “Os projectos têm de partir da experiência no lugar. Comecei ali por ter interesse na relação entre escrita, leitura, objectos e imagens”, disse ao PÚBLICO Ann Hamilton, enquanto preparava a exposição que vai estar patente naquela instituição.

A par da investigação, Ann Hamilton recolheu curtumes armazenados nas antigas fábricas, que foram depois tingidos com uma tecnologia moderna numa das empresas têxteis do concelho, a Lameirinho. Visitou museus e foi conhecer o grupo vocal Outra Voz, que vai participar na inauguração de Side-by-Side. Ao longo dos seus 35 anos de carreira, a artista tem procurado transformar os lugares por onde passa através de uma linguagem que valoriza os sentidos, sobretudo o tacto, refere a sua nota biográfica. É o caso de Guimarães. “A mão — e a forma como ela toca — é também uma voz. É uma tecelagem poética dessa forma de tactear, na presença de objectos e imagens. Mas com a Outra Voz também reparei que ouvir é tocar à distância”, realçou.

A obra, acrescentou a norte-americana, cresceu graças aos sítios que visitou e às pessoas que contactou. “Eu não chego a um sítio e imponho a minha ideia. Isto cresceu porque conheci alguém com quem pude debater ideias. Foi um trabalho colaborativo.”

Do movimento se fez tecido

Depois de se ter estreado em 2012, a Contextile vai desenrolar-se, pela primeira vez, em torno de um conceito unificador — (In)Orgânico. “Explora a dicotomia entre o ser e o não ser, o estar vivo e o estar morto. Era importante termos uma forma de agregar pensamentos e métodos de trabalho, num evento que tem de estar cada vez mais organizado”, esclareceu ao PÚBLICO a directora artística, Cláudia Melo. Para a responsável, a ligação entre a bienal e a comunidade também é “mais notória” neste ano, algo que, no seu entender, faz sentido, já que Guimarães é “uma região inequivocamente têxtil”.

As obras criadas no âmbito da plataforma Magic Carpets, que apoia artistas emergentes e reúne 13 países europeus, entre os quais Portugal, espelham essa relação. As duas artistas em residência — a inglesa Hermione Allsopp e a croata Ida Blazicko — trabalharam com as mulheres que ainda hoje lavam o seu vestuário e os seus têxteis-lar nos tanques públicos da cidade.

Os movimentos cíclicos de quem lava e das próprias águas levaram Hermione Allsopp a criar umas esferas com tecidos embebidos em cimento. Por cima dessas estruturas, outros tecidos esvoaçam para simular o movimento da água. “Há um ditado que diz que não se deve lavar roupa suja em público, no sentido de não se discutir assuntos privados. Ao ver aqui gente a lavar em público, acabei por inverter o processo de lavagem”, explicou.

Já Ida criou três tecidos suspensos espalhados pela cidade, com formas que se assemelham às ondas da água. Para a artista, o trabalho destaca-se pela ligação criada com as lavadeiras. “As senhoras aceitaram-nos logo. Estivemos a lavar algumas roupas com elas. Não foi um projecto sobre elas. Foi um projecto em conjunto”, disse.

Além da Magic Carpets, a Contextile apresenta outros trabalhos criados em residência artística, uma exposição de arte em fibra de um colectivo de 20 artistas franceses (Fibre Art Fever!), trabalhos de escolas artísticas do Porto e de Lisboa e ainda a exposição internacional, com 59 obras de 52 artistas, seleccionadas de um leque de mais de 800 candidaturas.

Nas paredes interiores do Palácio Vila Flor, vêem-se padrões mais geométricos ou mais abstractos, esculturas que se assemelham a estruturas naturais ou a objectos do quotidiano, mensagens políticas ou íntimas. E há ainda trabalhos em espaço exterior, pela primeira vez. Um deles está no jardim do palácio, voltado para a rua, e exibe, entre as flores amarelas, padrões semelhantes ao de um bordado. A autora é a lituana Greta Kardi.

Habitualmente interpelada por quem passa na rua e olha para o jardim, a artista explicou que o padrão tenta retratar os ornamentos da écharpe de casamento da avó. “No ano passado, eu e a minha mãe encontrámos a écharpe. A ideia é fazer lembrar um tecido que eu conheço bem. É algo íntimo e pessoal”, disse ao PÚBLICO. Com quase 20 anos de carreira, Greta teve ainda de fazer uma adaptação de última hora na sua obra. Quando recebeu as fotos do jardim onde ia expor, viu flores azuis, mas quando chegou a Guimarães, era o amarelo que dominava. “Estava a pensar em tons azuis e brancos. Quando cheguei aqui, vi flores amarelas. Tive de arranjar pauzinhos amarelos e alterar um pouco os padrões que tinha desenhado”, contou.