Encontrado gene zombie que protege os elefantes do cancro

Como conseguem os elefantes ser resistentes ao cancro? É através de um gene que nos elefantes está presente em várias cópias e, descobriu-se agora, de um outro que se pensava que estava desactivado.

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Os elefantes têm 20 cópias de um gene que policia os danos no ADN e, caso existam, conduz à morte das células, enquanto nós só temos uma RONALD WITTEK/EPA

Olhamos para os elefantes e vemos animais imponentes. E este texto é mesmo sobre a sua imponência, neste caso, contra o cancro. Estima-se que 17% dos humanos morram de cancro, enquanto nos elefantes em cativeiro a percentagem é de menos de 5% (embora tenham cerca de 100 vezes mais células potencialmente cancerosas do que nós). Porquê? Uma equipa de cientistas dos Estados Unidos deu agora parte da resposta ao descobrir no ADN dos elefantes um gene zombie, que estava desligado, que os ajuda a defender do cancro.

Há grandes benefícios em ser um animal grande na natureza, como a baleia ou o elefante. Um deles é poderem alimentar-se de animais mais pequenos. Mas também há desvantagens: como têm mais células e tendem a viver mais, significa que têm mais probabilidades de acumular mutações genéticas que causam cancro e de desenvolver células cancerosas.

Contudo, nem sempre é assim: “Os elefantes têm muito menos cancro do que seria de esperar para o seu tamanho. Por isso, queremos perceber a base genética desta resistência ao cancro”, assinala, em comunicado, Vincent Lynch, geneticista e biólogo evolutivo da Universidade de Chicago (Estados Unidos) e um dos autores deste trabalho publicado na revista científica Cell Reports.

PÚBLICO -
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Elefante na Tanzânia Eleanor Yarisse

Já em 2015 duas equipas norte-americanas diferentes concluíram ao mesmo tempo que o elefante tinha 20 cópias (enquanto os humanos têm apenas uma cópia) do gene supressor tumoral, o p53. Este gene consegue reconhecer danos irreparáveis do ADN e isso faz com que as células danificadas morram. “Os elefantes têm 20 cópias porque o gene replicou-se repetidamente no antepassado dos elefantes. O benefício é ter uma melhor protecção contra o cancro”, diz ao PÚBLICO Vincent Lynch, que já tinha participado numa das equipas que fizeram esta descoberta há três anos.

Continuou-se assim a estudar o p53 nos elefantes. Primeiro, introduziram-se danos causadores de cancro no ADN em células de elefantes e de outros mamíferos para se observar como as suas células respondiam. “As células do elefante acabaram por morrer. Foram completamente intolerantes aos danos do ADN de uma forma que não foram as células dos seus parentes”, explica Vincent Lynch. “Como as células do elefante morreram tão depressa devido ao ADN danificado, não houve risco de se tornarem cancerosas.”

Depois, a equipa de Vincent Lynch encontrou o mecanismo que estava por trás deste comportamento: em resposta aos danos do ADN, a proteína p53 ligava o LIF6, um pseudogene, um gene que não está funcional. Como funciona? Quando activado pela p53, o LIF6 vai responder aos danos do ADN matando a célula. Esse gene vai produzir assim uma proteína que se vai dirigir para as mitocôndrias, a principal fonte de energia da célula. Aí vai fazer buracos e causar a morte da tal célula.

Baleia, morcego e rato-toupeira-nu

Ao todo, os elefantes têm oito genes LIF, mas pensa-se que apenas o LIF6 estará funcional. “Este gene morto voltou à vida”, frisa Vincent Lynch, denominando-o “?zombie”. “Quando é activado pelo ADN danificado, ele mata a célula rapidamente. Isto é uma vantagem porque actua em resposta a erros genéticos, que ocorrem quando o ADN está a ser reparado. Livrar-se dessa célula pode evitar um futuro cancro.”

A equipa pensa que este gene zombie tem vindo a ajudar os elefantes há já algum tempo. Para saberem quando voltou à vida, a equipa analisou ADN de fósseis. Estimou-se então que o LIF6 tenha “acordado” quando os antepassados dos elefantes actuais (que eram do tamanho de uma marmota) começaram a ficar maiores e isso começou há entre 25 e 30 milhões de anos. “Este método suplementar de supressão do cancro deverá ser um elemento-chave propício ao enorme crescimento, o que levou aos elefantes modernos”, lê-se no comunicado.

Além dos elefantes, há mais animais que se têm mostrado resistentes contra o cancro, como a baleia, o morcego e o rato-toupeira-nu. E para os humanos, que contributo poderá ter tudo isto? “Directamente, nenhum. Mas se pudermos aprender a razão pela qual alguns animais são resistentes ao cancro talvez sejamos capazes de criar medicamentos específicos que imitam essas estratégias de intervenção no cancro”, explica Vincent Lynch.

O cientista avisa ainda que o seu trabalho não vai terminar aqui: “O LIF6 é apenas uma parte da história. Queremos encontrar todas as mudanças genéticas que tornam os elefantes resistentes ao cancro.”