Papa enfrenta ultraconservadores. Conseguirá aguentar-se no cargo?

Francisco terá de apressar-se a abrir as portas da Igreja à justiça civil e criar tribunais eclesiásticos para julgar os crimes que já prescreveram. Caso contrário, o seu papado poderá chegar ao fim, vaticinam teólogos e padres portugueses.

Foto
Reuters/ALESSANDRO BIANCHI

Nunca o epíteto de outsider dos poderes instituídos no Vaticano caiu tão bem ao Papa Francisco. E nunca o rótulo de homem mais odiado do mundo se lhe pespegou tão afincadamente à pele já que a aversão visceral do sector ultraconservador da Igreja Católica extravasou definitivamente para fora dos muros de Roma e conseguiu abalar a grande popularidade de que o argentino sempre gozou, desde que se tornou Papa, em 2013.

É verdade que a alegação de que Bergoglio ajudou a encobrir os abusos sexuais cometidos pelo cardeal norte-americano Theodore McCarrick, disparada pelo ex-núncio do Vaticano nos Estados Unidos da América, Carlo Maria Viganò, tem vindo a ser desmontada na imprensa internacional que descreve Viganò como um ponta-de-lança do sector ultraconservador da Igreja Católica e a carta que escreveu como uma tentativa de cavalgar o escândalo dos abusos sexuais de menores para escorraçar Francisco da liderança da Igreja.

Expressões como “guerra civil” e “tentativa de golpe de estado” estão presentes nas interpretações da maioria dos correspondentes no Vaticano. “A guerra suja volta ao Vaticano”, titulava esta semana Daniel Verdú, do El Pais, numa análise que enquadra a carta de Viganò numa operação montada para restaurar a velha ordem da Igreja, fazendo-a recuar na (ainda que tímida) abertura demonstrada por Francisco em relação, por exemplo, aos gays e ao acolhimento dos divorciados e recasados. Viganò, de resto, não escondeu ao que ia, ao relacionar os abusos sexuais com a “corrente homossexual” presente na hierarquia da Igreja.

Na mesma linha, o cardeal norte-americano Raymond Burke, de quem Viganò é próximo e que surge como principal rosto dos conservadores na luta contra o Papa, preconizara, a propósito do relatório da Pensilvânia, que a maioria dos abusos cometidos por clérigos eram, afinal, actos homossexuais praticados com adolescentes, numa prática procedente daquilo que qualificou a "cultura homossexual” que escalou até à hierarquia da Igreja. E este problema, sim, concluiu Burke, reclama que a Igreja seja “purificada a partir do telhado”.

“A tese de que Viganò é uma espécie de ponta de lança dos conservadores contra o Papa faz todo o sentido”, interpreta Teresa Toldy. Para a teóloga, “cai enormemente bem” ao sector ultraconservador da Igreja norte-americana “implicar nestes escândalos um Papa que tem tomado posições absolutamente contrárias àquilo que [o presidente norte-americano] Donald Trump defendeu na campanha, desde a ecologia (com Francisco a defender que o acordo de Paris deveria prosseguir), à ideia de que não deve haver muros a separar as pessoas”.

Teresa Toldy recorda que os sectores mais conservadores do catolicismo nos Estados Unidos, vinculados ao Tea Party, a ala ultraconservadora do Partido Republicano, votaram em Trump por discordarem da agenda da candidata democrata Hillary Clinton, em relação ao aborto, por exemplo.

Um Papa sitiado

No mesmo artigo do El Pais, Verdú situava o epicentro desta guerra contra o Papa numa espécie de casamento entre a direita religiosa norte-americana e europeia que se sentirá órfã de um líder espiritual que a defenda no Vaticano. Ao comando desta guerra estarão, além de Burke, o ex-estratega de Donald Trump, Steve Bannon. Os dois costumam encontrar-se e o também ex-director do site propagandístico de extrema-direita Breitbart anunciou recentemente a criação de uma fundação para ajudar os partidos populistas a chegar ao Parlamento Europeu. Este puzzle poderá ficar mais composto se lembrarmos, como lembrou há dias o New York Times, que Burke se tornou amigo de Matteo Salvini (ministro do Interior italiano e líder da Liga, partido de extrema-direita).

Neste cenário, Toldy conclui que Francisco é “um Papa sitiado”. “Não sitiado pelas vítimas de abuso, porque essas têm o direito de reclamar justiça, mas sitiado pela engrenagem alimentada pelos cardeais”, sustenta, para lamentar que haja “no pântano da Cúria Romana pessoas que se estão a aproveitar das vítimas para se vingarem de Francisco que lhes retirou poder e os obrigou a esconder os seus luxuosos carros na garagem”.

Não muito longe deste raciocínio, o padre e cronista Fernando Calado diz acreditar que “muitas da acusações são resultado de este Papa ter mexido com privilégios, com o clericalismo e com os abusos de poder que se verificavam na máquina administrativa da Igreja que acumulou vícios ao longo de milénios”. Nesse sentido, o 266.º Papa é “um homem só” e em permanente risco de escorregar “na areia que as pessoas da Cúria põem na engrenagem”. 

Se o Papa conseguirá ou não desenredar-se desta teia com que procuram deitá-lo abaixo da cadeira de bispo de Roma é neste momento a pergunta de um milhão de dólares. “Não acredito muito na resignação”, descarta Fernando Calado. Mais pessimista, Paulo Mendes Pinto, coordenador da área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, avisa: “Corremos efectivamente o risco de estarmos a entrar num cenário de pré-após-Francisco; de daqui a umas semanas ou meses termos outro Papa a resignar.”

Entre a espada e a parede

Posto entre a espada e a parede, a única escapatória de Bergoglio é ser consequente, na opinião de Mendes Pinto. “Se ele não tomar medidas, continuará a ser atacado quer pelos conservadores que não gostam das suas posições quer pelos progressistas que vão começar a dizer que ele pede perdão mas depois não vai ao fundo da questão”.

Ir ao fundo da questão implica, por exemplo, obrigar os bispados “a colaborarem de forma mais activa com a justiça civil”. “A Igreja Católica tem de dar à justiça civil todas as provas que tem em mãos, e, em paralelo, e como a maioria destes casos em termos de justiça civil já caducou, deve accionar a justiça eclesiástica”, concretiza Paulo Mendes Pinto.

Francisco criou uma Comissão Pontifícia para a Protecção de Menores. Mas falhou no compromisso de criar um tribunal eclesiástico destinado a julgar altos prelados suspeitos de encobrimento. “Esse tribunal revelou-se inoperacional, creio que por causa dos traumas que a ideia de um tribunal eclesiástico suscita. Mas agora terá toda a razão de ser”, diz Mendes Pinto.

O director do Ponto SJ, o portal dos jesuítas em Portugal, José Maria Brito, diz acreditar que, apesar do ruído mediático, a facção contrária ao Papa é minoritária. “A grande maioria concorda com esta necessidade de olhar para o clericalismo como uma doença a curar”, acrescenta. Mas, para que o Papa consiga sair da “profunda fragilidade em que se encontra”, lembra, “é necessário que todos adoptem uma cultura de transparência e deixem de assobiar para o lado”.

Porque o que está em causa nesta guerra “é gente muito poderosa que quer enterrar o Papa”, Teresa Toldy diz não compreender “uma certa letargia e uma certa cobardia” que imputa às conferências episcopais. “O Papa deveria mandá-las fazer investigações a sério sobre este problema. E não basta sugerir: algumas só o farão se ele mandar, porque estão habituadas a uma obediência mecânica”, sugere, desafiando os bispos a deixarem de “assobiar para o lado, fingindo-se de mortos”.

Campanha contra o Papa

Do lado da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), a voz mais contundente que se ouviu até agora foi a do bispo de Leiria-Fátima, o cardeal D. António Marto, que, em entrevista ao Observador, enquadrou a carta de Viganò na referida “campanha organizada pelos ultraconservadores para ferirem de morte” o Papa e dizendo confiar que Francisco vai sair reforçado “quando tudo se esclarecer”.

Optimismos à parte, é seguro dizer que Francisco, já de si muito curvado pelo escândalo dos abusos sexuais, saiu fragilizado desta primeira investida. E que os seus detractores conseguiram desviar a discussão sobre os abusos sexuais cometidos por membros da Igreja do sítio em que o Papa a quis colocada: na necessidade de proteger as vítimas e de punir os responsáveis pelo seu encobrimento. E isso já é muito.